Todos tinham um grande ar de compuncção: amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos pareciam soffrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que penetraram no corpo da igreja, apanharam no ar um sentimento profundo e afivelaram-no ao rosto.
Genelicio tambem viera; elle tinha o vicio das missas das pessoas importantes, dos cartões de pezames, dos cumprimentos em dias de anniversario. Temendo que a memoria não lhe ajudasse, possuia um caderninho onde as datas aniversarias estavam assentadas e as residencias tambem. O indice era organizado com muito cuidado. Não havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem importante, que, em dia de anniversario, não recebesse os seus parabens, e, por morte, não o levasse á igreja em missa de setimo dia.
O seu traje de luto era de panno grosso, pesado e, olhando-o, lembrava-nos logo de um castigo dantesco.
Na rua, Genelicio escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia ao sogro e ao Almirante:
—A cousa está p'ra acabar...! Breve...
—E se resistirem? perguntou o General.
—Qual! Não resistem. Corre que já propuzeram rendição... É preciso arranjar uma manifestação ao Marechal...
—Não acredito, fez o Almirante. Conheço muito o Saldanha, é orgulhoso e não se entrega assim...
Genelicio ficou um pouco assustado com a intonação da voz do seu parente; teve medo que elle falasse mais alto, désse na vista e o compromettesse. Calou-se; Albernaz, porem, avançou:
—Não ha orgulho que resista a uma esquadra mais forte.