Ricardo expoz o seu pedido r esperou com paciencia a resposta, que custou a vir. Por fim, Innocencio disse sacudindo a cabeça e olhando o inferior cheio, de severidade:
—Vai-te embora, senão mando-te prender! Já!
E apontou com o dedo a porta da sahida num gesto marcial e energico. O cabo não se demorou mais. No pateo o instructor coso, veterano do Paraguay, continuava com solemnidade a encher a arruinada estalagem com as suas vozes de commando: Hom-brõo... armas! Mei—ãã... volta... volver!
Ricardo veiu andando triste e desalentado. O mundo lhe parecia vasio de afecto e de amor. Elle que sempre decantara nas suas modinhas a dedicação, o amor, as sympathias, via agora que taes sentimentos não existiam, tinha marchado atraz de cousas fóra da realidade, de chimeras. Olhou o céo alto. Estava tranquillo e calmo. Olhou as arvores. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam attingir o céo. Olhou as casas, as igrejas, os palacios e lembrou-se das guerras, do sangue, das dores que tudo aquillo custara. E era assim que se fazia a vida, a historia e o heroismo: com violencia sobre os outros, com oppressões e soffrimentos.
Logo, porém, recordou que era preciso salvar o amigo que era necessario dar mais uns passos. Quem poderia? Consultou sua memoria. Viu um, viu outro e por fim lembrou-se da afilhada de Quaresma, e foi procural-a na Real Grandeza.
Chegou, narrou-lhe o facto e as suas sinistras apprehensões. Ella estava só, pois o marido cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos da victoria; não perdia um minuto, andando atraz de um e de outro.
Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu eterno sonhar, da sua ternura, da tenacidade que punha em seguir as suas idéas, da sua candura de donzella romantica...
Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a vontade de agir. Pareceu-lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de algum modo dar lenitivo ao soffrimento do padrinho; mas bem cedo o viu ensanguentado—elle, tão generoso, elle, tão bom, e pensou em salval-o.
—Mas que fazer, meu caro sr. Ricardo, que fazer? Eu não conheço ninguem... Eu não tenho relações... Minhas amigas... A Alice, a mulher do Dr. Brandão, está fora... A Cassilda, a filha do Castrioto, não pode... Não sei, meu Deus!
E accentuou estas ultimas palavras com grande e lancinante desespero. Os dous ficaram calados. A moça, que estava sentada, tomou a cabeça entre as mãos e as sua unhas longas e aperoladas engastaram-se nos seus cabellos negros. Ricardo estava de pé e aparvalhado.