Este seu compadre era italiano de nascimento. A historia das suas relações vale a pena contar. Quitandeiro ambulante, fôra fornecedor da casa de Quaresma ha vinte e tantos annos. O Major já tinha as suas idéas patrioticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de vel-o suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de europeu recem-chegado. Mas um bello dia, ia Quaresma pelo largo do Paço, muito distrahido, a pensar nas maravilhas architectonicas do chafariz do mestre Valentim, quando veio a encontrar-se com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquella simplicidade d'alma que era bem sua, e notou que o rapaz tinha alguma preoccupação séria. Não só de onde em onde, soltava exclamações sem ligação com a conversa actual, como tambem, cerrava os labios, rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu collega, estando disposto a matal-o, pois perdera o credito e em breve estaria na miseria. Havia na sua affirmação uma tal energia e um grande e extranho accento de ferocidade, que fizeram empregar o Major toda a sua doçura e persuasão para dissuadil-o do proposito. E não ficou nisto só: emprestou-lhe tambem dinheiro. Vicente Coleoni poz uma quitanda, ganhou uns contos de réis, fez-se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, veiu a ter aquella filha, que foi levada á pia pelo seu bemfeitor. Inutil é dizer que Quaresma não notou a contradicção entre as suas idéas patrioticas e o seu acto.

É verdade que elle não as tinha ainda muito firmes, mas já fluctuavam na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciencia como tenues desejos, veleidades de rapaz de pouco mais de vinte annos, veleidades que não tardariam tomar consistencia, e só esperavam os annos para desabrochar em actos.

Fora, pois, ao seu compadre Vicente e á sua afilhada Olga que elle recebera com o mais legitimo ceremonial guaytacaz, e, se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o não tel-o. Estava até á mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.

—Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre elle os seus olhos muito luminosos.

Havia entre os dous uma grande affeição. Quaresma era um tanto reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no economico nas demonstrações affectuosas. Adivinhava-se, entretanto, que a moça occupava-lhe no coração o logar dos filhos que não tivera nem teria jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente, não escondia a sua affeição tanto mais que sentia confusamente nelle alguma cousa da superior, uma ancia de idéal, uma tenacidade em seguir um sonho, uma idéa, um vôo emfim para as altas regiões do espirito que ella não estava habituada a ver em ninguem do mundo que frequentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a commum ás moças de seu nascimento. Vinha de um pendôr proprio, talvez das proximidades européas do seu nascimento, que a fizeram um pouco differente das nossas moças.

Fora com um olhar luminoso e prescrutador que ella perguntara ao padrinho.

—Então padrinho, lê-se muito?

—Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo.

Vicente fôra com D. Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta segurança, elle que antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar—que diabo! Não, não era possivel... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos—uma alegria de mathematico que resolveu um problema, de inventor feliz!

—Não se vá metter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.