—Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso violencias...
Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça. O Major fez as apresentações.
—Já o conhecia de nome, Sr. Ricardo, disse Olga.
Coração dos Outros encheu-se de um alviçareiro contentamento. A sua physionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a sua cutis que era reseccada e de um tom de velho marmore, como que ficou macia e joven. Aquella moça parecia rica, era fina e bonita, conhecia-o—que satisfação! Elle que era sempre um tanto parvo e atrapalhado, quando se encontrava diante das moças, fossem de que condição fossem, animava-se, soltava a lingua, amaciava a voz e ficava numeroso e eloquente.
—Leu então os meus versos, não é, minha senhora?
—Não tive esse prazer, mas li, ha mezes, uma apreciação sobre um trabalho seu.
—No «Tempo», não foi?
—Foi.
—Muito injusta! accrescentou Ricardo. Todos os criticos se atêm a essa questão de metrificação. Dizem que os meus versos não são versos... São, sim; mas são versos para violão. V. Ex. sabe que os versos para musica têm alguma cousa de differente dos communs, não é? Não ha, portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam outra metrica e outro systema, não acha?
—De certo, disse a moça. Mas parece-me que o Sr. faz versos para a musica e não musica para os versos.