—Fui eu.

—Então confessa?

—Pois não. Mas V. Ex. não sabe...

—Não sabe! que diz?

O Director levantou-se da cadeira, com os labios brancos e a mão levantada á altura da cabeça. Tinha sido offendido tres vezes: na sua honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento de ensino que frequentara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro estabelecimento scientifico do mundo. Além disso escrevera no «Prytaneu», a revista da escola, um conto—«A Saudade»—producção muito elogiada pelos collegas. Dessa forma, lendo em todos os exames plenamente e distincção, uma dupla corôa de sabio e artista cingia-lbe a fronte. Tantos titulos valiosos e raros de se encontrarem reunidos mesmo em Descartes ou Shakspeare, transformavam aquelle—não sabe—de um amanuense em offensa profunda, em injuria.

—Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor porventura o curso de Benjamin Constant? Sabe o senhor mathematica, astronomia, physica, chimica, sociologia e moral? Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francezinho ahi, póde hombrear-se com quem tirou gráu 9 em Calculo, 10 em Mecanica, 8 em Astronomia, 10 em Hydraulica, 9 em Descriptiva? Então?!

E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma que já se julgava fuzilado.

—Mas, Sr. Coronel...

—Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda ordem.

Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fôra seu proposito duvidar da sabedoria do seu director. Elle não tinha nenhuma pretenção a sabio e pronunciara a phrase para começar a desculpa; mas, quando viu aquella enxurrada de saber, de titulos, a sobrenadar em aguas tão furiosas, perdeu o fio do pensamento, a fala, as idéas e nada mais sôbe nem pôde dizer.