—Ora, tu! Que presente!

—Que é que tem? É da tradição.

Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala de jantar da velha casa roceira, quando Anastacio veiu avisar-lhes que se achava um cavalheiro na porteira.

Desde que ali se installara, nenhuma visita batera á porta de Quaresma, a não ser a gente pobre do logar, a pedir isso ou aquillo, esmolando disfarçadamente. Elle mesmo não travara conhecimento com ninguem, de modo que foi com surpreza que recebeu o aviso do velho preto.

Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Elle já subia a pequena escada da frente e penetrava pela varanda a dentro.

—Boas tardes, Major.

—Boas tardes. Faça o favor de entrar.

O desconhecido entrou e sentou-se. Era um typo commum, mas o que havia nelle de extranho, era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas tinha um aspecto deshonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim como a de um lagarto que enthezoura enxundia para o inverno ingrato. Atravez da gordura de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era naquella idade, com pouco mais de trinta annos, sem dar tempo que todo elle engordasse; porque, se as suas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras com longos dedos fusiformes e ageis. O visitante falou:

—Eu sou o Tenente Antonino Dutra escrivão da collectoria.

—Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.