Quanto aos sermoens das-Domingas de Quaresma, e Misoens, devo confesar, que tem menos defeitos, que os outros: porem sempre conservam os esenciais. Tambem neles (de Quaresma) á sutilezas, asumtos impropriisimos, pesima dispozisam de provas, e outras coizas destas. O que verdadeiramente nam poso sofrer é, que estes seus Pregadores Portuguezes, procurem singularizar-se, com esquipaticos asumtos, nos-mesmos sermoens da-Quaresma. O Pregador da-menhan, dizem que explica o Evangelho: o de tarde, toma um asumto mais geral, que distribue em sinco Domingas, sem se-sugeitar ao Evangelho do-dia. Aqui pois move a compaixam ouvir, o que alguns excogitam, e quanto trabalham para descobrir na Escritura, um numero de cinco, que seja acomodavel, ao dito asumto. Uns, vam buscar, as cinco pedras de David: para atirar ao auditorio, uma seixada espiritual cada Dominga. Asumto improprio, e só coiza digna de um menino, que nam intende, o que é eloquencia: sendo certo, que dezemparam logo o seixo, para falarem em outra materia. Outros, vam buscar no-Cardial Ugo, que afeta ser moral, e misteriozo, algumas palavras gerais, que posam calsar às cinco Domingas. Tudo isto sam arengas: mas estes ainda sam mais toleraveis. Os que eu nam poso sofrer sam, os que, saindo fora do-numero de cinco, por-se-quererem singularizar dos outros, tomam ideias mais improprias. Tal foi um Pregador de boa fama, que ouvi, o qual tomou por-asumto, explicar o Racional de Aram, ou aquele pano que trazia o Sumo Sacerdote dos-Ebreos, no-peito, em dias de funsam, com doze pedras preciozas cravadas, em que estavam esculpidos, os nomes das-doze tribus. Este titulo de sermam agradou muito, aos que tem o juizo nos-cotovelos, que sam os mais. Concorri eu tambem, para ouvir o sermam, porque cazualmente naquele dia, achava-me na dita Cidade: e como ja se-falava muito nas tais Domingas, que foram pregadas em outra parte, fui ouvir, que asumto tirava do-Racional: e como acomodava as doze pedras, com as cinco Domingas. Com efeito o meu bom Pregador, escolheo entre as pedras, as que lhe parecèram, e regeitou as outras. Galante modo de explicar, o Racional de Aram! Do-sermam nada digo, porque a coiza fala de si. Saindo eu para fora, incontrei um Religiozo da-Companhia meu amigo, e um dos-omens de melhor juizo, que eu tenho cá visto; o qual apertando-me a mam, me-dise: Amigo, o Racional é uma peste: o pobre Aram nam esperava, que o-tratasem tam mal: e concluio dizendo, que tudo aquilo era uma parvoise.
Com efeito eu nam acho, que proporsam tenha uma coiza, com outra: ou para que ei-de ir buscar um titulo, que nada tem que fazer, com o sermam. Nam sei como estes Pregadores ingenhozos, nam tem buscado, os cinco escudos das-armas de Portugal, ou as cinco quinas: em que se-podia dizer, muita coiza boa. Nam sei como nam se-tem apegado, às cinco torres de Lisboa, a de S.Giam, do-Bugio, de Belem, a Torre Velha, e o Forte da-caza da-India: daqui podiam sair muitos tiros espirituais, e se-podia dizer, muita coiza bonita. Nam sei como nam explicam, os cinco dedos da-mam, e mil outras coizas, que se-podem compreender, debaixo desta ideia de cinco.
Mas, a falar a verdade, tudo isto sam rapaziadas: e os que procuram estes asumtos, nam sabem o seu oficio, nem de que cor é, pregar. Eu intendo que o Pregador de tarde, deve tirar do-Evangelho, um asumto proprio para o auditorio. Nem me-digam, que o de menhan ja explicou o Evangelho. os que asim falam, nam sabem que coiza é Escritura. O mesmo Evangelho, pode dar infinitos asumtos. Nam é necesario, que todos se-sirvam das-mesmas palavras: podem-se escolher outras: procurar os SS. Padres, e tirar um asumto proprio: para iso servem os Expozitores. Na quinta Dominga de Quaresma, todos se-servem das-palavras: Se Veritatem dico vobis &c e pregam da-Verdade em geral. Um omem que eu conheci, pregando em um Convento de Freiras, tomou as ultimas palavras: Tulerunt ergo lapides ut jacerent in eum. Jesus autem abscondit se, & exivit de templo. Daqui tirou este asumto: Que Cristo nesta asám quizera ensinar-nos, com quanta diligencia devemos fugir, de profanar os Templos. porque nam só se-escondeo Cristo: mas fugio. Com a primeira asám, evitava a profanasam com a obra, impedindo a morte: com o sair, evitava a profanasam com a intensam, fugindo da-prezensa de omens; que ainda conservavam os dezejos, de o-profanar. Acomodou isto ao intento, mostrando, quanto Deus abominava, a profanasam dos-Templos. Nam avia asumto mais proprio, ao lugar: porque nam avia lugar mais profanado com asoens, e intensoens pecaminozas. Este era um asumto novo: nam sutil, e ridiculo; mas verdadeiro, e mui proprio: E isto chama-se pregar: o mais, é falar de alto. Quem tem ingenho, e leitura, pode tirar infinitos asumtos, do-mesmo Evangelho, acomodados ao seu cazo.
Mas quando o Pregador nam quizese, servir-se do-Evangelho, pouco importaria: bastava que escolhese um Vicio, para o-condenar, em cada Dominga, digo dos-que mais reinam naquela Cidade. Porque os sermoens de Quaresma, sam rigoroza misam: e se-deve buscar, argumento proprio para isto. Quero ainda conceder, que cada um destes cinco sermoens, deva ter relasam, com os outros, e compor um corpo de doutrina: digo ainda neste cazo, que é fácil a um omem de juizo, buscar um argumento natural, e solido, que se-posa dividir em cinco partes; para explicar cada parte, em sua tarde: Sem dizer ridicularias e sutilezas; mas coizas, verdadeiras, utis, e graves: e aplicando sempre o sermam, à necesidade do-auditorio. Este é o defeito geral, da-maior parte destes Pregadores, que comumente se-servem de ideias gerais, que nam calsam bem ao auditorio; e de que nam se-tira fruto algum: pois tam ridiculo é, falando a omens doutos, querer-lhe explicar, as pesoas da-Trindade &c. como falando a pesoas ignorantes, servir-se de ideias especulativas; ou, falando às Freiras, pregar da-politica de Machiavelo, e aos Rusticos, do-Principium quo in divinis: da-Existencia definitiva e circunscritiva na Eucaristia &c. como eu ja ouvi a alguns pregadores, e mestres. A isto chama-se, nam saber o decoro, quero dizer, nam saber tratar a materia, nem aplicar os argumentos aos ouvintes: coiza que condenam os Retoricos[39].
Tambem notei em certos Pregadores, alem dos-ditos, certos defeitos, que nam sam de pequena considerasam. Omens á, que aplicam os sermoens, às suas particulares intensoens; e em lugar de pregarem, do-que devem, pregam de si: E como o tema nam dá para isto, dezempáram logo o asumto, para meterem outros pensamentos mui alheios: e querendo dizer tudo, nam dizem coiza que valha. Alguns, despedem-se no-sermam, das-pesoas suas conhecidas: * * * outros, fazem satira aos Prelados, ou ao governo politico da-Cidade &c. ou, a pesoas particulares, ou aos seus mesmos ouvintes. E neste ultimo ponto, nam só caiem os ignorantes, mas pola maior parte, os de maior doutrina, e prezumsam: e por iso às vezes as provas, sam tam arrastadas, que é uma piedade ouvilos. Eu quero conceder de barato, que seja verdade o que dizem: mas nam é aquele o seu lugar: e sempre tem promto o argumento: V. P. foi chamado para pregar disto, e nam daquilo. Este nam é pequeno defeito de Retorica: pois é alienar os animos dos-ouvintes: de que se-segue, nam se-poder obter a persuazam.
Estes sam os defeitos mais gerais, mas comuns, de todos estes seus Pregadores. Dos-quais se-conclue claramente, que lhes-falta a principal parte da-Retorica, que è a Invensam: da-qual falta nacem, todos os outros defeitos, que impedem o bom gosto da-eloquencia. Criados desde a primeira mocidade, com aquele pesimo estilo, de buscar conceitos exquizitos, e dividir a orasam em tantas partes, quantos eles sam; perdem os melhores argumentos, que lhe-dariam materia, para tecer uma orasam continuada; que persuadise o auditorio, e fose digna de se-ouvir. Nam reprovo as divizoens, quando sam necesarias, e a materia as-pede: reprovo sim muito, o acomodar a materia às divizoens, para fazer a costumada trepesa.
Desta falta, de nam saber buscar as provas, nace a segunda, e tam importante, da-Dispozisam. Pois nam tendo argumentos proprios, nam podem dispolos em maneira, que formem uma orasam unida: na qual o exordio, ou seja unido, ou separado, forme um perfeito corpo com o todo: e em que as partes observem, a sua justa proporsam, e tal, que umas sirvam de aclarar as outras: e conduzam para o fim, de persuadir o que se-quer. Desta mesma falta nace, a da-Locusam: sendo certo, que quem nam acha um argumento, acomodado ao que quer, mas vai buscando sutilezas; nam incontra com palavras proprias, para expremir um pensamento sezudo, e nobre: nem acha aquelas que sam necesarias, para ornar com armonia os pensamentos; desorteque fasam uma orasam armonioza, e agradavel, sem ser afetada: o que nam tem pouca dificuldade[40]. De que vem, que comumente enchem o discurso, de mil tropos e figuras, fóra do-seu lugar; que mostram, o pouco talento do-Pregador, e a ignorancia, da-sua propria lingua. Nace daqui tambem, nam saber escrever uma carta, ou formar qualquer outro discurso, que posa persuadir. Finalmente nace, o nam saber discorrer com propriedade, em materia alguma. Leia V. P. as cartas que se-acham de Frei Pedro de Sá, e Frei Lucas de Santa Catarina, e outros semelhantes: leia os seus discursos: e verá, que cartas, orasoens, sermoens &c. tudo é o mesmo. Nam se-acha mais, que equivocos, palavras sem significado, pensamentos inverosimeis, encarecimentos inauditos, em uma palavra, uma lingua nova, que serve para toda a sorte de asumtos, sem distinsam. Os ignorantes gostam muito disto, e copeiam esta sorte de papeis, com todo o cuidado, e acumulam quantos podem: mas os que verdadeiramente intendem a materia, nam podem menos que rir-se, de tais escritos; dos-quais toda a alma cristan deve fugir, como contrarios, à boa eloquencia. A razam de tudo isto é a mesma: porque quem bebe aquele estilo, de sutilezas, afetasoens, e singularidades; nam sabe distinguir os estilos, proprios dos-diversos argumentos, que se-lhe-oferecem: e asim nam sabe, nem pode fazer coiza boa, nem chegar a persuadir ninguem.
É uma prova manifesta disto, a infinita distancia que eles poem, entre sermam funebres na Igreja, e orasam funebre na Academia. Nesta nam á tema: comumente nam á divizam de pontos: nam á textos da-Escritura: á menos sutilezas: e acha-se um discurso continuado, ainda-que cheio de mil impropriedades, e ridiculos encarecimentos: No-outro acha-se tudo o contrario. De que provèm esta grande mudansa? eu o-direi: De nam saber, o que é Retorica: porque os preceitos em ambas as partes, sam os mesmos. No-pulpito, poso uzar de mais asám do-corpo; e animar com a voz o discurso: na-academia recito com mais brandura. Mas o papel em ambas as partes é o mesmo: e doque se-faz na academia, podiam eles inferir, o que devem fazer no-pulpito.
Porem aqui me-parece, que ouso dizer a V. P. que ja que apontei os defeitos, aponte o modo de os-emendar. Mas isto; P. muito reverendo, nam é negocio que se-posa fazer, com tanta brevidade, pois pediria um tratado inteiro. O que tenho dito, bastava para um omem de juizo: e a lisam dos-bons autores, completaria tudo. Contudoiso, para obedecer a V. P. nam deixarei de fazer alguma reflexam, adquerida parte com a lisam dos-outros, parte com a minha propria experiencia, e reflexam: as quais V. P. aplicará, aos cazos particulares. Mas como isto pede mais tempo, quero rezerválo para outra carta: e acabo esta, com pedir a V. P., me-conserve na sua grasa. Deus guarde &c.