[40] Atque illud primum videamus, quale sit, quod vel maxime desiderat diligentiam, ut fiat quasi structura quædam, (verborum) nec tamen fiat operose: nam esset cum infinitus, tum puerilis labor. Cicer. Orat. num. 44.
CARTA SEXTA.
SUMARIO.
Continua-se a mesma materia da-Retorica. Fazem-se algumas reflexoens, sobre o que é verdadeira Retorica, e origem dela. Que coiza sejam figuras, e como devemos uzar delas. Diversidade dos-estilos, e modo de os-praticar: e vicios dos-que os-nam-admitem, e praticam. Qual seja o metodo de persuadir. Qual o metodo dos-panegiricos, e outros sermoens. Como se-deve ensinar Retorica aos rapazes, e ainda aos mestres. Algumas reflexoens, sobre as obras do-P. Antonio Vieira.
Nam intenda V. P. que ei-de faltar à promesa: pois nam só com promtidam, mas com muito gosto executarei nesta carta, o que prometi na ultima: e direi o como se-devem intender, as coizas que dise, para emendar os defeitos, que nestes Retoricos vulgares s’incontram: e que eu apontei na carta pasada. Digo pois, que o primeiro, e mais importante ponto que deve advertir, quem quer formar, o bom gosto literario, é, fugir totalmente destas Retoricas comuas, nam só manuscritas, mas tambem impresas. Estou persuadido, que elas sam a primeira ruina dos-estudos: porque inspiram mui maos principios, e nam ensinam o que devem. Ouso louvar muito nestes paîzes, o Candidatus Rhetoricæ do-P. Pomei, o Ariadne Rhetorum do-Juglar &c. e mestres conheso eu, que nam tem mais noticia da-Retorica, que a que dá o dito livro, ou outro semelhante. Isto porem é mera iluzam: porque para nam saber nada, nam á melhores livros, que os ditos. Estes, e outros tais autores, fazem uma enumerasam das-partes da-Retorica, mui seca e descarnada. propoem mil questoens, e nam rezolvem nenhuma bem. todo o livro consiste em divizoens, e subdivizoens, que enfadam antes de s’intenderem. Mas o pior é, quando ensinam a servir-se, dos-lugares Retoricos: quando mostram os diversos modos, de ampliar um argumento: dizem mil coizas inutis, e que mais facilmente s’aprendem, lendo os bons autores, que estudando as tais observasoens.
Este em carne é o defeito, em que caiem os Logicos Peripateticos, quando se-dilatam muito, sobre a fórma silogistica, e ponte dos-asnos: despois de dizerem muito, sam obrigados a reconhecer, que nada daquilo serve, para coiza alguma: e que na pratica do-argumentar, nam só sam inutis, mas até imposiveis as tais regras. Nam achei até aqui Peripatetico algum, que, devendo em algum ato publico, provar de repente alguma propozisam, que lhe-duvidasem; se-servise de tal metodo: nem menos achei omem algum, que, senam intendeo, e estudou bem a materia, que á-de tratar; servindo-se unicamente dos-lugares Retoricos, fizese coiza capaz. Chama-se perder inutilmente o seu tempo, querer ensinar todas aquelas arengas: das-quais unicamente rezulta, a desvanecida opiniam de uma ciencia, que nam tem. Os rapazes que estudáram aquilo, persuadem-se, que sam Retoricos da-primeira esfera: que podem, com a ajuda de quatro adjetivos e sinonimos, e quatro descrisoens afetadisimas, arengar de repente, em qualquer materia. Intendem, que nam á orasam, que nam observe a dispozisam, que eles lem na sua Retorica. julgam, que nam á discurso oratorio, sem todas aquelas mexerofadas. Finalmente, como nam lhe-explicam, o verdadeiro uzo da-Retorica, e artificio da-verdadeira eloquencia; persuadem-se, que só nos-discursos academicos, tem ela lugar. De que nace, que despois de perderem bem tempo nas escolas, a que chamam de Retorica, ficam totalmente ignorantes dela.
Isto suposto, é necesario desterrar uma, e admetir outra sorte de Retorica. Ja asentamos, que a Retorica deve ser em Portuguez, para os que nacèram em Portugal: porque, asim s’intendem os preceitos: e na sua mesma lingua se-mostram, os exemplos. Nam avemos de carregar os rapazes, com dois pezos: intender a lingua, e intender a Retorica: tambem nam avemos fingir os Omens, como nam sam; imaginando rapazes mui agudos, e espertos. Tudo isto é iluzam. Os rapazes sam de diversas capacidades: e muitos sam rudes. comumente aprendem Retorica, quando ainda nam intendem bem Latim. E asim, é necesario falar-lhe em Portuguez: muito mais, porque ou queiram ser Pregadores, ou Advogados, ou Istoricos &c. tudo isto se-faz cá em Portuguez: e é loucura ensinar em Latim uma coiza, que pola maior parte, se á-de executar, em Vulgar. Esta é a primeira regra do-Metodo, facilitar a inteligencia. Nam tenho até aqui visto, (pode ser que aja) Retorica Portugueza impresa. Certo sugeito mostrou-me á tempos, alguns apontamentos que fizera: mas nam mereciam o nome de Retorica. tenho visto varios livros de conceitos: mas nam era coiza, que merecese ler-se. Sei porem, que atualmente se-copeia, uma Retorica Portugueza, que me-parece propria para formar, o bom gosto da-Eloquencia. Um amigo meu mui particular a-compoz, para uzo seu. pedio-me noticia, dos-melhores autores nesta materia: e deles copiou, o que conconduzia, para o seu intento. uzou comigo a amizade, de consultar-me na dispozisam dela. teve a moderasam de ouvir, e nam desprezar, as minhas reflexoens. cuido que felizmente conseguio, o seu intento: devo fazer esta justisa, à sua grande capacidade. Nam sei, se a-determina divulgar: o que se puder ser, procurarei de a-comunicar a V. P. seguro, de que nam lhe-dezagradará. Mas, tornando ao fio das-minhas reflexoens:
Ja dise ao principio, que sendo a Retorica, arte de persuadir, tinha lugar em todo o discurso, que seja proferido com este fim. Doque se-segue, que a Retorica tem tanta extensam, quanta qualquer lingua: o que muitos nam intendem, ainda dos-que lem as Retoricas. Parece paradoxo a muitos, destes enfarinhados nos-estudos, dizer-se, que n’uma carta, que é escrita com estilo simplez; n’uma Poezia, na Istoria, e n’um discurso familiar &c. deve ter lugar a Retorica. E isto provèm de intenderem, que a Retorica consiste, em figuras mui dezuzadas, tropos mui estudados &c. e asim parece-lhe, que nam se-caza uma coiza com outra. Mas por-pouco que estes tais, examinasem a materia; conheceriam, que tudo se-deve tomar, em diverso sentido.