Nam á lingua neste mundo, tam fecunda de palavras, que posa expremir, todas as ideias do-intendimento: A fecundidade que tem a mente, em formar conceitos, e a facilidade com que de uma mesma coiza, fórma infinitas ideias, é tal; que pode empobrecer, todas as linguas do-mundo. Seriam necesarias muitas palavras, para um omem poder dizer sofrivelmente, o que intende. Mas isto pediria tempo infinito, e o comercio umano se-faria insoportavel. Conhecèram os Omens muito bem isto, e cuidáram em lhe-pór o remedio. Daqui naceo a necesidade de servir-se, de algum modo de expremir, que, aindaque nam diga tudo, excite diversas ideias no-intendimento, e poupe o trabalho, de proferir muitas palavras. A experiencia mostrou, que as nosas ideias tem uma certa uniam, com que mutuamente se-ajudam: proferida uma das-quais, todas as outras se-aprezentam. Isto asim posto, os Omens souberam aproveitar-se, desta experiencia; e comesáram a servir-se de um nome por-outro, para poder excitar a ideia, do-que queriam. Um nome que significava uma coiza, aplicou-se para significar outra; e se-transportou da-sua significasam propria para outra, por-cauza de certo respeito, ou relasám, ou ordem, ou nexo, que uma coiza tem com outra. A isto chamáram Tropo, palavra Grega, que significa transpozisam: e estes modos de falar, chamáram-se Figuras: as quais podem ser infinitas: mas os Retoricos as-reduzîram a pequeno numero, contando as mais uzuais: e destas se-faz memoria, nas comuas Retoricas, com diversos nomes.

Estes Tropos, Metaforas, ou Metonimias, que significam o mesmo, tem grande uzo, e sam necesarias em todas as linguas, e ornam muito: nam só porque encurtam o discurso, e fazem mais gostoza a conversasam; mas tambem porque exprimem melhor, o que se-quer dizer, doque outras palavras. Diz mais às vezes, uma só metafora, que um longo discurso: e com uma só palavra, é mais bem intendido um omem, doque com a fecundidade de infinitas. Quem ouve dizer, que Alexandre era um raio da-guerra; a ideia do-raio, que é uma coiza sensivel, exprime bem o grande poder, com que este omem sugeitava tudo: a velocidade das-suas conquistas: o eco das-suas vitorias; que atroava tudo, e ainda as mais remotas Nasoens. Este justamente é o carater de Alexandre: como ja a Escritura tinha delineado. Uma só ideia excita mil outras, ao intento. E como os Omens estam acostumados, a estas imagens sensiveis; os tropos que delas se deduzem, valem infinito. Apenas o comum dos-Omens pode intender, e julgar de outra sorte.

Sam boas, asim é: mas o uzo é que as-faz racionaveis: quero dizer, que se-devem uzar em tempo, e lugar proprio, e quando o discurso o-pede. O que nam advertindo os ignorantes, servem-se pouco sabiamente das-Figuras; e com muito estudo, falam bem mal. Nam á maior beleza em uma cara, que os olhos: mas se um rosto nacèse com mais de dois; se chegáse a ter meia duzia, serîa um monstro. Deve aver figuras: mas á-de aver proporsam, eleisam, dispozisam: ou seja no-discurso familiar, ou na Istoria, ou na Cadeira. Este é o grande segredo do-falar bem: o qual como muitos, segundo adverti, nam chegam a penetrar, quando ouvem falar em Tropos, tremem de pés e cabesa: e persuadem-se, que é algum enima singularisimo, rezervado para algum ato publico, ou coiza semelhante.

Como as palavras sam as que significam, o que pasa dentro d’alma, ouve necesidade de procurar palavras, para expremir, nam só o que a alma conhece, mas tambem o que quer; ao que chamamos, afetos da-alma, ou paixoens. O Omem nem sempre se-acha, na mesma dispozisam de animo: mas esporiado de alguma coiza, saie fóra de si, e entam fala de outra maneira, mui diferente. As expresoens com que se declara isto, se-chamam Figuras; com a diferensa, que os Tropos sam figuras das-vozes: e estas que aqui digo, sam figuras do-animo. É incrivel, a diversidade destas vozes do-animo. Um omem agitado, nam só no-exterior do-rosto, mostra a sua perturbasam, mas tambem no-modo do-seu discurso. As paixoens violentas, alteram a bela armonia dos-umores: engrosam os objetos: impedem que a alma dè a devida atensam, ao que julga: no-mesmo instante a-transportam, de uma coiza para outra: sam como o mar alterado, que joga a pela com um navio. Onde, agitadas com tanta confuzam, as fibras do-cerebro, a alma, que em virtude daquela armonioza dependencia, que estableceo Deus entre ela e o corpo; deve conhecer todas as imagens, que elas lhe-prezentam; nam tem, se me-é licito explicar asim, repouzo algum. A alma agitada, imprime novo movimento nas fibras, e estas na machina: de que nacem as palavras: com as quais dando-se dezafogo à ira, que moveo a machina, se-dá tambem repouzo, à alma.

Sendo pois as nosas palavras, consequencias dos-movimentos d’alma, e conrespondendo perfeitamente, aos nosos pensamentos; é claro, que o discurso de um omem, que está sumamente agitado, deve ser dezigual. Algumas vezes parece este omem difuzo, e fórma uma exata pintura, das-coizas que sam objeto, da-sua paixam: e cuidando que o-nam-intendem bem, repete a mesma coiza, em cem diferentes maneiras. Algumas vezes interrompe o discurso, e sepára as palavras umas das-outras, dizendo de uma só vez, bastantes coizas. Muitas vezes vareia o discurso, com mil proguntas, com exclamasoens, com frequentisimas digresoens. Finalmente um discurso destes vareia-se, com infinitos modos de falar: os quais modos sam tam proprios, daquelas paixoens d’onde nacem, que, ouvindo-os proferir, fica um omem formando, justa-ideia da-paixam. Estas pois sam as tanto celebres Figuras do-animo: as quais nenhuma outra coiza sam mais, que modos de falar particulares, e diferentes dos-modos de falar natural e uzual.

Estas Figuras, que sam as naturais pinturas das-paixoens, sam sumamente utis, e necesarias no-comercio umano. Um pintor famozo, (dise um grande Retorico, de quem eu aqui sigo as pizadas) que quer delinear um painel istoriado, nam só pinta as figuras, que devem intrar no-quadro; mas procura, que cada uma esteja naquele ato, que exprima, o paraque ele ali a-poem: nem só isto, mas até no-rosto lhe-pinta, aqueles acidentes, que denotam a paixam, de que sam produzidos. Explico-me melhor. Um omem agitado, e alterado com a colera, nam tem o rosto sereno; mas fica palido: abre uns olhos, que parecem cheios de fogo: carrega a vizeira: finalmente mostra no-rosto mil acidentes, que sam os carateres da-Colera. Isto pois é o que procura imitar, o pintor: e se chega a imitálo bem, só este é o bom pintor. O Retorico nam tem cores, com que imitar a natureza, como o pintor: mas tem palavras, para imitar aquelas, que profere um omem dominado da-paixam, que ele quer persuadir: e como estas paixoens tenham, diferentes carateres; é necesario que se-sirva de diferentes figuras, para as-expremir[41].

Alem disto, ninguem pode persuadir outro, sem que excite nele aquela paixam, que lhe quer persuadir: porque as paixoens sam os instrumentos; e, para me-servir de uma expresam filozofica, as machinas que abalam a alma, e a-inclinam para onde querem. Ora para excitar estas paixoens nos-outros, é necesario, que um omem se-mostre dominado, da-mesma paixam:[42] porque, suposta aquela particular dispozisam, e semelhansa dos-nosos corpos, deixamo-nos persuadir daquela paixam, que vemos nos-outros: dos-mesmos sentimentos: dos-mesmos afetos: se nam se-acha algum obstaculo, que empesa o curso da-natureza. Naturalmente inclinamos a ter compaixam, de uma pesoa, que mostra estar sumamente aflita: rimos quando nos-achamos, em um grande divertimento dos-sentidos. Polo contrario, nam choramos, nem mostramos compaixam, de uma pesoa que ri; aindaque verdadeiramente seja mizeravel. É necesario ter um animo mui nobre, para se-vestir dos-sentimentos, e necesidades dos-outros, semque lhas-exponham. Nam obram os Omens comumente asim: obram porem asim, quando recebem o movimento, do-impulso das-paixoens. Esta é a simpatia das-paixoens: (se acazo tal voz, significa coiza alguma) e daqui se-mostra bem, a necesidade das-Figuras, para efeito de persuadir.

Nam me-cansarei, em dar o numero das-Figuras, e explicar o que significam, e quando se uza delas. Disto abundam muito, as Retoricas ordinarias: aindaque sam poucas, que o-expliquem de um modo, que se-posa perceber. As Figuras sam infinitas: mas os Retoricos reduzem-nas, a umas certas regras gerais, e-mais comuas. Direi somente, que estas Figuras, sam as verdadeiras, armas da-alma, com que ela faz guerra às outras almas; ou vence, ou é vencida: e produzem juntamente mil outros efeitos. Primeiramente, elas declaram aquelas verdades, que sam oscuras; e excitam nos-Omens a atensam, para as-perceber. Aquela grande repetisam, aqueles muitos sinonimos, nam sam inutis na Retorica[43]: antes sam de infinito preso: porque mostram o que se-pertende em tanta luz, e de tantas partes; que é imposivel o-ignorálo: imprimem com tanta forsa uma verdade, descobrem todas as circunstancias com tanta clareza; que é imposivel nam admetilas. Mas no-mesmo tempo estas Figuras, se sam bem naturais, e se pintam bem a origem de que nacem; movem de tal sorte a alma, que a-arrastam e conduzem, para aquele objeto, de que se-fez a imagem[44]. E como a alma nam pode ver uma verdade clara, sem a-receber; daqui nace, que por-forsa admite o objeto, e consente: e temos o omem persuadido.

Estas sam as Figuras, que sam a baze da-Eloquencia. Mas nam intenda V. P. que eu quero persuadir indiferentemente, toda a sorte de Figuras, e uzo delas: estou mui longe diso, e defendo constantemente, que só no-bom uzo delas, é que está a Eloquencia, principalmente sublime. Isto é o que eu dezejára refletisem comigo algumas pesoas, que, por-nam-advertirem este importante ponto, dam à luz partos monstruozos. Se as nosas paixoens sam mal ordenadas; se nam se-excitam quando deve ser; é coiza clara, que as Figuras só servirám, de pintar a confuzam das-nosas ideias, e a pouca eleisam do-noso juizo. Um omem que s’enfada quando nam deve; que em um discurso placido, introduz mil Figuras fortes; que progunta; que responde; que exclama; e mostra grande paixam, aindaque nam aja de persuadir, ou disputar com alguem: é um verdadeiro louco, que guiado, da-sua destemperada imaginasam, empunha a espada, para combater com um inimigo imaginario. Pois este é o retrato de muitos autores, que julgam nam serem bons escritores, se nam uzam de todas as sutilezas d’arte: Semelhantes nisto a um omem de Provincia, com que eu jantei uma vez, que para mostrar que tivera boa educasam, comia as uvas com o garfo.

Outros, que devem persuadir, e tem materia para empregar, boa Retorica; só estudam palavras, que tenham cadencia armonioza, mas tam afetada, que pola maior parte degenera em verso. Fazem mil reflexoens inutilisimas: procuram falar sempre por-sentensas: cuidam em introduzir conceitos sutis, e divizoens importunas: com as quais arengas nam procuram persuadir, mas agradar, e conseguir fama de eloquentes. E estes eu os-reputo muito mais ignorantes, que os primeiros, pola sua afetasam. O certo é, que uns e outros nam intendem, nem o fim, nem os limites da-Retorica: e que em lugar de estimasam, conseguem desprezo.