As Figuras devem-se empregar, em toda a ocaziam. Temos Figuras para tudo: negocios graves, mediocres, e para a mesma conversasam familiar. Basta persuadir-se, de uma importante verdade, que é, que a Figura nam se-deve procurar, mas naturalmente aprezentar-se: porque, como tenho mostrado, sam consequencias das-paixoens. Observe V. P. um omem rustico, que nam seja totalmente estupido, ou uma molher de juizo, mas nam doutora: entre com eles em um discurso familiar, sobre alguma materia, que lhe-pertensa: dificulte-lhe conceder-lhe alguma coiza, que a eles paresa verdadeira, ou que na realidade o-seja: e observe miudamente, quantas Figuras introduzem no-discurso. E finalmente, achará mais forsa, nas suas razoens, quando sam em materia verdadeira, doque nos-discursos, de muitos Oradores de fama. Eu fiz esta experiencia muitas vezes: e sempre tirei por-fruto, da-minha meditasam, que as Figuras ám-de ser naturais: e que somente se-fala bem, quando se-fala animado, de algum verdadeiro interese, e se-deixa guiar, de uma paixam arrezoada.

V. P. observará isto, nos-seus proprios discursos, ainda naqueles, que parecem menos considerados, e que sam proferidos, quazi por-impulso da-natureza. As coleras nam sam iguais, nem as paixoens: e asim á Figuras nestes mesmos discursos. Fazem-se antitezes, por-cauza de grandes movimentos, e tambem por-ligeiras comosoens. O dezejo que um omem tem, de expremir-se, e de persuadir as coizas que diz, tem varias destas Figuras. Na conversasam mais placida, repetem-se sem reparo, os mesmos termos muitas vezes. servimo-nos de diversas expresoens, para significar o mesmo. permitem os mais escrupulozos criticos, fazer alguma breve descrisam, e procurar alguma semelhansa, para explicar melhor a materia. pode-se proguntar o parecer dos-que ouvem, sobre o que se-profere; e mostrar-lhe, que é necesario refletir, sobre algumas das-circunstancias alegadas. Tudo isto pratica-se todas as oras, ou se-pode praticar, sem enfado de quem ouve, e sem incorrer na censura, de quem observa. Ora as Figuras nam sam verdes nem azuis, sam em carne estas mesmas que apontamos, e outras a estas semelhantes. E eisaqui, que nam só nas orasoens, e discursos estudados, mas em todo o discurso, tem lugar as Figuras. Em uma palavra, primeiro ouveram Figuras, doque ouvèse arte de Retorica: aqual nada mais é, doque a observasam das-naturais Figuras. E asim todo o estudo de um omem, verdadeiramente eloquente, consiste, em observar bem, a necesidade da-materia; e intrar tanto dentro nela, que posa formar um discurso natural, mas no-mesmo tempo eficaz: e em que as Figuras fujam-lhe da-boca, sem que ele vá detraz delas, para ornar o discurso. Muito necesario é, estudar a natureza: estudar o carater das-Paixoens: falar naturalmente: que só asim se-fala eloquente, e sò asim se-persuade. Este é o primeiro ponto, ou o mais importante, em materia de Retorica.

O segundo, e de nam menor consequencia, está, em saber proporcionar o estilo, ao argumento que se-trata. Consiste o estilo, em certas maneiras de s’explicar, e certas particulares expresoens, que cada omem uza: as quais comumente seguem o impeto do-fogo, que cadaum tem: nam se achando dois omens, que sejam perfeitamente iguais no-estilo, como nem menos no-temperamento. Digo pois, que o estilo se-deve regular, segundo a materia, que se-trata[45]. As expresoens magnificas e nobres, ornam as coizas, de uma certa magestade, e mostram o grande conceito que delas fórma, quem asim fala: se a materia nada tem de extraordinario, antes é sumamente vil; impropriamente se-lhe-aplicam, tais expresoens. Polo contrario, as coizas que se-podem considerar sem comosam, devem-se dizer com estilo simplez: outras mais estudadamente: o que faz a variedade de estilos: que os mestres da-arte reduzem comumente, a trez. Querem dizer, que ou o discurso é sumamente nobre, ou sumamente trivial, ou mediocre: à primeira, conresponde o estilo sublime: à segunda, o estilo simplez: à terceira, o mediocre. A prudencia e inteligencia com que se-devem aplicar, estes trez generos d’eloquencia, é o principal emprego, do-Retorico.

SUBLIME.

Quando se-quer dar uma alta ideia, de alguma coiza, é necesario refletir no-mesmo tempo, em muitas circunstancias. Por-muito nobre que seja o sugeito, de que se-trata, pode ter mil imperfeisoens: onde é necesario procurar, de o-por à vista d’aquela parte, que melhor parece; para poder impremir, uma justa ideia da-sua grandeza: procurando quanto pode ser, de lhe-cobrir, ou disfarsar os defeitos, sem prejuizo da-verdade: voltando-o e revoltando-o de todas as melhores partes, para poder mostrar, até as minimas perfeisoens que tem: e tendo muito cuidado, de nam sair com alguma expresam, ou pensamento, que destrua o que se-tem fabricado. Caiem neste defeito infinitas pesoas, ainda d’aquelas, que nam sam decepadas: Oradores, Istoricos &c. mas sobre tudo os Poetas: que, por-forsa do-consoante, ou da-quantidade do-verso, dizem mil coizas ou mal ditas, ou mal aplicadas. Li um soneto de certo Espanhol, que descrevia um nariz grande: o qual, despois de ter dito muita coiza do-dito nariz, conclue desfazendo, quanto encarecèra. Porei somente os tercetos.

Erase un espolon de una galera.

Erase una piramide de Egito.

Las dose Tribus de narizes era.

Erase un narizissimo infinito.

Muchissima nariz, nariz tan fiera,