Que en la cara de Anás fuera delito.

Despois dos-quatro versos antecedentes, em que exagerava terrivelmente o tal nariz, saie com uma frioleira, que destrue tudo. Admetida de grasa, a comua opiniam do-vulgo, de que os Judeos tem narizes grandes: admetida novamente a frioleira, de que Anás, por-ser Pontifice, o-devese ter maior: é certo, que nam teria um nariz maior, que todo o corpo. Demos-lhe, que fose tam grande: que proporsam tem isto, com uma piramide, e nariz infinito? Destes exemplos acho a cada paso: de que concluo, que estes nam sabem, as leis da-Retorica, nem da-Poezia.

Quanto ás expresoens, aindaque as-dezejo nobres, e com armonia sonora; devem porem uzar-se, com moderasam. Prudentemente se-comparou um discurso, no-genero sublime, com um palacio magnifico: neste á-de aver cazas para os amos, para os criados, e tambem estrevarias para os cavalos. Estas nam ám-de ser, como as anticameras, nem ornadas como os gabinetes: mas ám-de ter certa magnificencia rustica, e proporsam ao todo: ám-de ser todas as partes no-seu genero, belas, grandes, magestozas. Um palacio que tem um portam pequenino, parece coiza Mourisca, e nam de Architeto inteligente. tudo á-de ser grande, mas no-mesmo tempo proporcionado. Damesma sorte em um discurso, nem todos os pensamentos podem ser exquizitos, ou a locusam sublime: á-de aver pensamentos bons, exquizitos, e mediocres: a locusam damesma sorte, em alguns lugares sublime; v. g. nas perorasoens, e exagerasoens &c. em outras mediocre; v. g. nos-exordios, nas confirmasoens de provas &c. e em outras simplez e natural, como nas narrasoens, e outros lugares. Mas todas estas coizas ám-de ter proporsam entre si: devem ser ornadas e vestidas daquela tal grandeza, que mostre serem partes, de uma coiza grande. Asim se-compoem, um discurso perfeito.

Esta magnificencia de expresoens grandiozas, e armoniozas, convem ao estilo sublime, com a distribuisam dita, de aplicar as melhores, às coizas que merecem maior atensam. Tambem no-estilo sublime devem intrar, reflexoens judiciozas, e varias sentensas, que excitem a atensam. Nele tem seu proprio lugar, as Figuras grandes: Sendo certo, que um argumento nobre, nam se-pode tratar, sem alguma particular comosam: de que nace aquele modo de expremir-se, em que consistem as Figuras. Devem porem praticarse, segundo as observasoens asima feitas.

Esta porem é a maior dificuldade, do-estilo Sublime: e sam poucos os omens, que saibam abrasar, uma distribuisam moderada de ornamentos, no-discurso. A maior parte dos-que escrevem, sam como aquelas pesoas, que nam tem educasam de Corte. Estas, para se-mostrarem bem informadas, e de boa eleisam; carregam tanto os vestidos de oiro, e a cabesa de joias; que em lugar de parecerem bem, ofendem a vista. O pior é, que no-defeito que repreendemos, caiem tambem os que sam da-Corte, como os que sam de fóra: e é mais dificultozo emendar-se. Um omem que tem má eleisam no-vestir, tem tantos censores à vista, que à forsa de critica, e de observasam, consegue a emenda. Nam asim o que escreve: sam poucos os que censurem, porque sam pouquisimos os que saibam, como se-deve censurar. Alem diso, nam á algum, que prezuma tam mal do-seu juizo, que leia por-livros, que lhe-mostrem, as suas imperfeisoens. Busca somente aqueles, que mais lhe-agradam, e sam mais uzuais: e em vez de s’emendar, confirma-se na sua má eleisam. V. P. nam achará um Pregador, que estude por-Cicero, Demostenes, M. Seneca, Quintiliano: ou leia alguns, dos-que compuzeram boas reflexoens, sobre as ditas obras: achará porem muitos, que estudam por-sermonarios, e muito maos: e estes nam podem escrever melhor, doque lem nos-tais autores.

Outros escritores, querendo-se distinguir do-Comum, nam gostam senam, de expresoens grandes: e de tal sorte se-deixam guiar, por-este furor; que nam produzem palavra, que nam seja de pé e meio; e que nam acabe d’estoiro, como uma bomba. As palavras e fraze natural, o modo de s’expremir uzual, aindaque seja o mais proprio da-materia, nada vale. desprezam tudo, o que nam é estrondozo. Nenhum destes dirá: Petrus amavit Joannem: nam senhor: mas querem perifraze: Accidit ut Petrus amore prosequeretur Joannem; ou alguma fraze mais comprida. Estes omens vem todas as coizas, por-microscopio: tudo lhe-parece gigantesco: ou, para melhor dizer, tudo transformam. A sua cabesa é como a de D. Quixote: a quem moinhos pareciam palacios; e nam avia coiza para ele, que nam fose magestoza. Daqui nace, que tudo exprimem pola mesma maneira. o discurso comesa por-Figura, e acaba em Figura. Este é o vicio comum destes paîzes; mas muito principalmente dos-Poetas, e Oradores.

Estes omens confundem o Eloquente, com o Arrogante; a Exagerasam com a Inverosimilidade: sem advertirem, que sam coizas bem diferentes. Ora este é o verdadeiro carater da-ignorancia: tanto mais dificultozo de s’ evitar, quanto é certo, que muitos omens grandes em outro genero, tem caido neste defeito. Este é o ponto que se-deve advertir, com mais circunspesam: este o defeito que se-deve fugir, com mais cautela. O que se-consegue primeiro, com alguma reflexam judicioza: segundo, com a lisam de bons autores, que falem como devem, e proporcionem o estilo, ao asumto. Nam á coiza mais ridicula, doque uma grande afetasam de palavras sonoras, em coizas onde nam devem intrar[46]. Em lugar de engrandecerem quem fala, mostram a pobreza do-seu intendimento: que nam tendo cabedal, de dar palavras para tudo, pede-as emprestadas, ou furta sem advertencia, as que incontra.

Verá tambem V. P. que muitos, querendo falar elegante, acabam tudo em tom de verso: Porque nam chego a amar, nam poso padecer: e com este ar, e er; ir, e or; e consonancias semelhantes, vam enchendo o discurso, que deveriam cuidar de ornar, com bons pensamentos e conceitos. Isto é mais vulgar, doque V. P. imagina: e acha-se muita gente de bigode, que chama a isto elegancia. Eu sei que o numero oratorio, ou armonia dos-periodos, de que Cicero fala em varios lugares, é uma grande beleza, em todo o discurso, principalmente oratorio[47]: mas sei, que é muito diferente, do-que condeno. Nam á regra exata, para o numero oratorio: a orelha é a que ensina, quando o periodo é armoniozo[48]. Mas é necesario que tenha mui más orelhas, quem nam distingue, que as consonancias que apontamos, em lugar de agradarem, ofendem, e sam uma afetasam. Em Portugal sam rarisimos, os que observam o numero, ainda nos-discursos estudados. Ou afetam verso, e isto é vicio[49]: ou declinam para outro extremo, que é a languideza, e tambem isto é vicio insoportavel. A mediania é que se-busca; e quem bem intende o que é numero, nas cartas, e no-discurso familiar, sem advertir o-pratica. Para isto quer-se boa orelha, acostumada a ouvir ler, e pronunciar bem. Pecam alem disto; em fazer periodos tam compridos, que nam se podem ler de um jato: o que tambem é falta de numero. A lisam dos-bons livros remedeia isto, e introduz um omem, na verdadeira estrada da-Eloquencia. Mas é necesario, lelos sem prejuizos, e com animo de aprender. O estilo Sublime tem seu proprio lugar, nas orasoens, e sermoens: na Poezia Eroica, e Tragica: e pode às vezes ter lugar, na Istoria, quando s’ introduzem a falar, algumas pesoas. As orasoens de Cicero, os poemas Epicos de Omero, e Virgilio, sam de estilo sublime.

SIMPLEZ.

Ao estilo Sublime contrapomos, o estilo Simplez ou umilde. Asim como as coizas grandes, devem explicar-se magnificamente; asim o que é umilde, deve-se dizer com estilo mui simplez, e modo d’ expremir mui natural. As expresoens do-estilo simplez sam tiradas, dos-modos mais comuns de falar a lingua: e isto nam se-pode fazer, sem perfeito conhecimento, da-dita lingua. Esta é, segundo os mestres d’arte, a grande dificuldade, do-estilo simplez. Facil coiza é a um omem, de alguma literatura; ornar o discurso com figuras: antes todos propendemos para iso: nam só porque o discurso s’ encurta; mas porque talvez nos-explicamos melhor, com uma figura, doque com muitas palavras. Polo contrario, para nos-explicarmos naturalmente e sem figura, é necesario buscar o termo proprio, que exprima o que se-quer: o qual nem sempre se-acha, ou ao menos, nam sem dificuldade: e sempre se-quer perfeita inteligencia da-lingua, para o-executar. Alem disto, as Figuras encantam o leitor, e impedem-lhe penetrar e descobrir os vicios, que se-cobrem, com tam ricos vestidos. Nam asim no-estilo simplez, o qual, como nam faz pompa de ornamentos, deixa considerar miudamente, todos os pensamentos do-escritor. Por-iso se-diz, que o estilo simplez é, o lapis Lydius do-Juizo.