Isto que digo, das-expresoens comuas e naturais, deve-se intender com proporsam. Nam quero dizer, que um omem civil fale, como a plebe; mas que fale naturalmente. A materia do-estilo umilde, nam pede elevasam de figuras &c. mas nem por-iso se-deve expremir, com aquelas toscas palavras, de que uza o povo ignorante. Nam é o mesmo estilo baixo, que estilo simplez: o estilo baixo, sam modos de falar dos-ignorantes e pouco cultos: o estilo simplez, é modo de falar natural e sem ornamentos; mas com palavras proprias, e puras. Pode um pensamento, ter estilo sublime, e nam ser pensamento sublime: e pode achar-se um pensamento sublime, com estilo simplez. Explico-me. Para ser sublime o estilo, basta que eu vista um pensamento, e o-orne com figuras proprias, aindaque o pensamento nada tenha, de sublime. Polo contrario, chamamos simplezmente sublime, (com os Retoricos) àquela beleza e galantaria de um pensamento, que agrada e eleva o leitor, aindaque seja proferida, com as mais simplezes palavras. Desorteque o sublime pode-se achar, em um só pensamento, ou figura &c. Importa muito intender, e distinguir isto, para nam ser enfandonho nas conversasoens, e nas obras que pedem estilo umilde. V. P. tem um bom exemplo de estilo simplez, nas Cartas familiares de Cicero, principalmente nas que escreve aos de sua caza: nas Eglogas &c. de Virgilio: nas Fabulas de Fedro: Cartas de Plinio a algumas pesoas: e outras obras da-Antiguidade. Em Portuguez as Cartas do-P. Vieira, tirando algumas que degeneram em sermam &c. podem-se ler, para o estilo simplez. E estas sam as melhoras obras, do-dito Religiozo.

MEDIOCRE.

Do-que a V. P. tenho dito fica claro, qual é o estilo Mediocre: aquele digo, que partecipa de um e outro estilo. Tambem este estilo nam é pouco dificultozo: porque é necesario, conservar uma mediania, que nam degenere em viciozos extremos: e sam poucos aqueles, que conhecem as coizas, na sua justa proporsam, e formam aquela ideia, que merecem. Ja dise, que a materia é a que determina, qual á-de ser o estilo: e asim uma materia mediocre, pede um estilo proporcionado. A maior parte das-coizas de que falamos, sam mediocres: e daqui vem, que neste estilo de falar, deve-se empregar um omem, que quer falar bem; e conseguir fama, de omem eloquente. Um omem de juizo, que conhece as coizas como sam, fórma delas ideias justas, e verdadeiras; e as-explica com as palavras, que sam mais proprias. D’ onde vem, que o estilo mediocre compete propriamente, às Ciencias todas, à Istoria, e outras coizas d’este genero: nas-quais se-reprezentam coizas nam vis, mas mediocres; porem reprezentam-se, damesma sorte que sam, e com palavras proprias. Tambem as cartas de negocios graves, ou eruditas, e aquelas de ceremonia a pesoas grandes &c. costumam ser neste estilo. É porem de advertir, que o estilo mediocre, admite todos os ornamentos d’arte: beleza de figuras, metaforas, pensamentos finos, belas discrisoens, armonia do-numero, e da-cadencia: Contudo nam tem a vivacidade, e grandeza do-sublime. Participa de um e outro, sem se-asemelhar a nenhum. tem mais forsa e abundancia que o simplez; menos elevasam que o sublime: e prosegue com paso igual, e mui brandamente. Alegam-se por-bons exemplos neste genero, as Georgicas de Virgilio: a maior parte das-cartas de Cicero a Pomponio Atico: &c. os Comentarios de Cezar &c. aindaque estes, por-nam terem ornamentos, quazi pertencem ao simplez: as vidas de Cornelio Nepote. &c.

Quem bem intende isto, fica perfeitamente instruido do-modo, com que deve aplicar-se, a diferentes materias. O estilo da-Istoria pede clareza, e brevidade. aquela, para explicar todos os acidentes da-materia: esta, paraque, sem longas frazes, que suspendem a atensam, descreva as coizas que deve, com um fio de discurso continuado, e sem ser interrompido com aqueles movimentos, que constituem o Orador[50]. Porque neste cazo nam pode conservar, uma certa inalterabilidade, e quietasam de animo, que é tam necesaria, para nam inclinar mais para uma parte, que para outra; e dizer as coizas com verdade, e sem exagerasam. Pode porem o Istorico, mostrar a sua eloquencia, no-referir as arengas, que s’ introduzem na Istoria; no-pintar as paixoens &c. mas tudo isto com advertencia, e sem perder de vista a verdade. É pois a Istoria aquela materia na qual, despois da-Oratoria, mais se mostra, a eloquencia vigoroza.

Em segundo lugar fica claro, qual deve ser o estilo Dogmatico ou Didascalico, a que por-outro nome chamamos, estilo Cientifico. Aqui nam se-trata de persuadir, omens apaixonados, excitando as armas, comque a alma se-move para esta, ou aquela parte. O primeiro postulado que se-poem, no-principio dos-Tratados modernos é, que o leitor se-dispa, de todo o genero de prejuizos, e paixoens: e que examine as razoens, como merecem. Onde supondo-se um leitor docil, nam é necesario, seguir o estilo veemente[51]. Mas nisto á mais, e menos, segundo as Ciencias. A Geometria, que explica verdades claras, e que nam interesam ninguem, deve-se tratar placidisimamente, com aquelas palavras, que sam precizamente necesarias, para a explicasam dos-termos &c. A Logica, Fizica, Metafizica pedem ja um estilo mais ornado: ja se-disputa com omens, que tem suas prevensoens: as verdades nam sam tam claras: é permetido servir-se de um estilo mais nervozo. Principalmente na era prezente, em que a Filozofia, despida daquela antiga e ridicula severidade, trata-se oje em todas as linguas, e com vocabulos proprios, e se-familiariza com todos. Onde pode tratar-se em estilo familiar, por-carta, em dialogo, ou de outra maneira; emque pode ter lugar, um genero de eloquencia mais ornada. A Teologia pode ser tratada, com estilo mais elevado. Somos interesados em defender, a verdade da-religiam, contra os Ateos, e Infieîs, e Erejes. Este interese nam pode menos, que acender em nós, alguma paixam bem devida. Onde nam é maravilha, se algumas vezes nos-transportamos, falando de Teologia, e seguimos um estilo mais elevado e viril. Nam digo, que tudo se aja de tratar, em estilo oratorio, ou que se-devem defender as questoens, com ironias &c. e nam com razoens solidas: serîa isto um erro consideravel, e mui condenavel: digo somente, que ja é permetido, servir-se de alguma figura, e uzar de estilo mais elegante. Os antigos Padres uzáram deste estilo, quem mais, e quem menos. E oje todos os omens de melhor doutrina, nam desprezando a fórma da-Escola, uzam porem dela com tanta moderasam, que comumente expoem as suas sentensas, sem aquele estilo das-escolas, que até aqui reinava. O que faz que seja mais bela a Teologia: mais concludente o discurso: e poem à vista, e na sua luz todas as razoens: porque só asim as-intendem todos, e se-evitam palavras, que nada significam nas escolas. Quanto às outras Ciencias profanas, pola maior parte tratam-se mais placidamente, segundo a necesidade da-materia.

Em terceiro lugar fica claro, qual é o estilo dos-Poetas. Querem os Poetas, (diz um Retorico) agradar, e elevar o animo dos-ouvintes, com coizas extraordinarias e maravilhozas: e nam podendo chegar ao fim que se-propoem, senam sustentando a sublimidade das-coizas que dizem, com o sublime das-palavras que uzam; daqui vem, que nam se-sugeitam às leis do-uzo comum; mas formam, para se-explicar, um idioma novo. Tudo neles é grande e extraordinario; imaginasam, conceito, e palavras. Daqui nace, que as figuras devem ser, as suas mimozas, Alem diso, como as verdades abstratas nam agradam, porem sim as coizas, que entram polos sentidos; fica claro, que querendo o Poeta agradar, deve procurar metaforas, com que reprezente as coizas sensiveis, e quazi palpaveis: porque asim é que imprimem, uma particular comosam. Este é o principio, que obrigou os antigos Poetas, a romperem com certas ideias, que nos-parecem chimeras. Cada Virtude, e cada Paixam na Poezia, é uma Deuza: porque a descrisam destas Deuzas tam medonhas, ou tam engrasadas, faz outra impresam no-animo, doque a simplez palavra de Virtude, ou Vicio.

Est Deus in nobis, agitante calescimus illo.

Quando uma vez s’esquenta, a imaginasam do-Poeta, nam fala como os demais omens: e asim nam é maravilha, que encha o discurso de Figuras, e ingenhe tantas fabulas e fingimentos. Isto é tam proprio dos-Poetas, que até os sagrados Poetas, para se-explicarem, servem-se de todo o genero de metaforas. Isto porem deve intender-se dos-poemas, que tem por-objeto, materia grande: os divertimentos dos-pastores, que compoem as Eglogas; as istorias que dam materia às Comedias; e mil outras poezias, que se-podem considerar com menos paixam, devem ser tratadas, por-outro estilo. A regra geral, que ao principio demos, é infalivel, e consiste nisto: A qualidade da-materia deve determinar o estilo, aindaque posa ser mais ou menos ornado: o que s’intenda tanto da-Proza, como do-Verso. Isto quanto ao estilo. quanto pois às regras do-Poema, nam é aqui, o proprio lugar, de as-explicar: porque eu nam faso tratado, mas reflexoens.

Dirmeám alguns, que estas advertencias conduzem, para fazer uma obra solida, mas nam para a-fazer bela, e ornada: que é o principal emprego da-Retorica. E com efeito esta é a costumada cantilena, destes vulgares Oradores, que ignoram as belezas da-arte. Em algumas partes, temos notado este defeito: e aqui, para o-confutar melhor, faremos outra advertencia. Digo pois, que este ingano comum, fica suficientemente asima convencido: sendo certo, que nam se-requerem outras regras, para falar com elegancia, e ornato, doque as que asima démos, para falar com propriedade. A mesmisima coiza se-pode expremir, com diversos nomes, segundo o modo com que se-considera. A maior beleza e ornamento de uma compozisam, aquilo que eleva um leitor racionavel e judiciozo, (que sam os que podem fazer lei) é a exasam, e propriedade com que se-acha disposta, e executada uma-obra. Quem nam intende este ponto, é noviso na Retorica. Mas, declarando isto melhor aos principiantes:

Tem a Retorica ornamentos naturais, e artificiais: aqueles entram necesariamente em qualquer obra: estes com parcimonia. O primeiro ornamento é a verdade, ou semelhansa das-palavras com as ideias, e objeto delas. A mais medonha cobra pintada, agrada: as coizas mais ordinarias, quando sam bem explicadas, nam podem dezagradar. Deve o discurso ter primeiramente, clareza nas expresoens, para poder insinuar-se no-animo; armonia, e facil pronuncia. Estes sam os naturais. Entre os artificiais, poem-se as Figuras todas, os Tropos, as magnificas expresoens, as aluzoens, alguma ingenhoza aplicasam &c. as quais sam às vezes tambem recebidas, como a mesma verdade: e elevam a alma com o encanto oculto da-grandeza, para a qual ela tem propensam natural. Nestes é em que se-deve empregar o juizo, distribuindo-os com muita parcimonia, e boa eleisam. Nenhuma coiza orna, que nam seja racionavel: quando os ornamentos sam repetidos, ou estam muito juntos, sam importunos, e dezagradam muito: confundem a vista, e cobrem toda a beleza do-sugeito. Ja nisto falámos larguisimamente. Finalmente quando o ornamento, nam se-funda em verdade, aindaque um pouco encarecida; é uma afetasam ridicula, que mostra nacer, de um ingenho mui trivial. Os ignorantes sam, os que procuram com cuidado, estas ridicularias, para aquistar fama de doutos por-esta via, visto que a-nam-podem por-outra.