Outro defeito ainda acho, em que comumente caiem, e vem aser, encher o discurso de alegasoens importunas, de pasos Latinos, de versinhos, e outras coizas que incontram. Podem as aluzoens, alegasoens &c. ter lugar, quando á necesidade de ouvir as palavras, na mesma lingua original; ou para mostrar a sinceridade, de quem as-cita; ou a elegancia, de quem as-escreveo: o que raras vezes sucede: tudo o mais é tempo perdido, e trabalho mui escuzado. Este dezejo de parecer erudito, com a repetisam de mil pasos de autores, tem alucinado infinita gente. Conheci um, que nam abria a boca, que nam repetise um verso de Marcial, de Juvenal &c. Examine V.P. este ponto, e achará, que o defeito é mais geral, doque nam parece. Conheso pouquisimos estudantes desa Universidade, falo principalmente dos-Opozitores, e dos-que tem prezunsam de literatura; cuja conversasam seja toleravel. Para dizerem, que agora é dia; sairám com um, e talvez muitos textos do-Digesto, ou Codigo &c. Nam deixam pasar coiza, que nam ornem com algum versinho moderno: e quem sabe mais disto, é mais ciente. Aquele, Erubescimus sine lege loqui, intendem-no tam nû e crû, que é uma piedade. Tambem entre os Religiozos, nam falta desta fazenda: aquele, tandem, item, a parte rei, cum hoc quod, hoc unum est; e outras destas palavras, sam mui frequentes nos-seus discursos: e tambem seus textos da-Escritura, e seus versinhos Latinos. Isto entra em todas as conversasoens, aindaque sejam de idiotas, e molheres: antes nese cazo melhor, porque se-grangeia fama sem embaraso.
Este mao modo de pensar, e discorrer, pasou ja das-conversasoens, para as compozisoens: e por-iso V. P. ve tantos discursos, ou sermoens, ou orasoens, que se-nam-podem sofrer. Tenho lido mil orasoens modernas * * * e rarisima achei, em que nam intráse Plinio o moso, claro ou oculto: mas pola maior parte entra claro: e às vezes a orasam tem mais palavras de Plinio, doque de quem a-compoz. Ouvîram dizer, que o Panegirico de Plinio, é o mais suportavel, que nos-deixou a Antiguidade; e sem mais exame, enchem tudo de Plinio. Outros pasam do-Panegirico às Cartas: um destes é o P. * * que no-elogio funebre de Julio de Melo, faz uma istoria, em que introduz muitos periodos, tirados de varias cartas de Plinio, que dizem o mesmo, que ele repete. Este modo de elogiar, é totalmente novo, e ignoto à Antiguidade: mas nem por-ser novo cuido que agradará, aos que intendem a materia. Nestes Panegiricos achará V. P. duas coizas comumente: uma, é Plinio, e algum autor semelhante: a segunda, é o Sol, com as Estrelas. Mais vara menos vara, aqui vem dar todos. Serîa porem melhor, que estes autores puzesem departe, Plinio; e disesem alguma coiza de sua caza: e nam dezenquietasem as Estrelas, trazendo-as para uma coiza, para a qual nam calsam bem. Nam é este, o modo de elogiar. disto se-rim todos os omens que sabem.
Até as aprovasoens dos-livros, andam cheias destes textos, às vezes arrastadisimos, e talvez tirados da-Escritura, para provar uma frioleira. Os que nam trazem textos, introduzem razoens bem desnecesarias, e difundem-se em elogios, tam excesivamente encarecidos, que ninguem os-pode ler sem nauzea. Aindaque disesem a verdade, e bem; sempre era um grande defeito, e impropriedade. Vi á anos a vida do-Infante D. Luiz, em 4.o escrita polo Conde de Vimiozo; da-qual as aprovasoens, sem encarecimento algum, compoem metade do-volume. E nam só fazem isto nos-livros; mas em papeis avulsos, e breves. Vi uma Egloga, escrita por-um certo Felipe Jozé da-Gama, no-nacimento de um neto de Joam Alvares da-Costa; cujas aprovasoens eram maiores, que a obra. O pior é, que tinha uma aprovasam do-Conde da-Ericeira, D. Francisco Xavier de Menezes, que caîa na mesma simplicidade. Com efeito, este era o carater do-dito Conde: que, para mostrar que sabia muito, carregava as suas pinturas, com tantos ornamentos, e doutrina, que pareciam ridiculas. Ele era um omem erudito: mas ignorava totalmente aquilo, a que chamam modo, metodo, e criterio. comtantoque falàse muito, nam lhe-importava se dizia bem. E naverdade na dita aprovasam da-Egloga, tem coizas indignas. Deixa logo o argumento, e pasa a descobrir entre Joam Alvares da-Costa e Asinio Pollio, grande uniformidade. despois, difunde-se sobre os louvores da-Poezia. finalmente faz uma selada tal, que nam vi coiza mais confuza. Eu nam disputo agora, se a dita Egloga merece eses louvores: concedo tudo de grasa: o que digo é, que se-explicava em duas palavras: e é grande impropriedade fazer uma censura eterna istoriada, para uma brevisima Egloga. Certamente o P. Estacio de Almeida, que em materia de Poezia Latina, cuido que sabe alguma coiza mais, que o dito Conde; mostrou o seu juizo na aprovasam, contentando-se com dizer, que era digna de s’impremir. E isto deviam tambem fazer os outros: deixando de fazer Panegiricos, a coizas que nam merecem, ou que merecem menos: e fazèlos de um modo, que merece mais rizo a erudisam que trazem, que a que lhe-falta. O P. D. Manoel Caietano de Souza, tambem seguia esta opiniam. Compoz o Sargentomór Manoel Coelho, uma Explicasam das-oito partes da-orasam: mas tam pequenina, que nem menos se-lhe-deve chamar livro, mas caderninho. (foi impresa em Lisboa, no-ano 1726.) Sucede que D. Manoel aprova esta obra: e aqui, tomando as coizas desde o principio, faz uma longuisima censura, e um catalogo dos-Gramaticos do-Reino &c. Tudo coizas desnecesarias! E sei eu, que, se ouvèse de impremir-se em outro Reino, se-contentariam com escrever, Imprimatur. Com esta advertencia observe V. P., as aprovasoens dos-livros, e verá, que ainda nam digo metade, do-que devia. Neste particular de aprovasoens, nam vi omem em Portugal mais moderado, que Fr. Manoel Guilherme: fugia quanto podia de mentiras e afetasoens; e claramente dizia, o seu parecer. Mas oje sucede o contrario: porque às vezes fazem-se empenhos, para determinar os censores: e estes tais, nam censuram o livro, mas agradecem a eleisam. E sei eu tambem, que quando o P. * * * impremio a sua obra * * tendo feito um Teologo, a censura difuza; foram-lhe pedir novamente, que se-dilatáse mais, e louváse a obra com maior extensam. E nam podendo livrar-se do-empenho, que era forte; acrecentou alguns sinonimos, para satisfazer às partes: o que sei da-mesma boca do-censor. Onde com estes exemplos, nam devemos admirar-nos, se incontramos os elogios tam frequentemente * * *
Mas, tornando à dita erudisam afetada, digo, que a este modo de ornar e discorrer, chamam os Retoricos, ornamentos falsos. Porque os outros, podem ter lugar no-discurso, e só se-procura a parcimonia: estes, de nenhum modo devem intrar nele. Ja gran tempo é, que os omens de juizo clamáram, contra este abuzo: principalmente porque, bem examinada a coiza, é uma solenisima impostura, e azilo de ignorancia: sendo certo, que estes tais nunca tem menos erudisam, que quando mostram ter tanta. Quem ouve aquela machina de textos, persuade-se que é um omem, de erudisam infinita: mas nada menos: e eu poso jurar de muitos, que nam abriram os livros que citam, aindaque sejam bem uzuais. Remedeiam-se com o Theatrum Vitæ Humanæ, Polyantea de Langio, e outros destes armazens, em que polo A. B. C. acham-se as materias, dispostas. De que vem, que os omens inteligentes nam podem menos, que rir-se de tais compozisoens. Lembro-me, que um leitor de certa Religiam, querendo persuadir-me, que um seu amigo sabia Latim perfeitamente; dizia-me, que lia sempre por-Plutarco: e carregava muito em Plutarco. Ouvi esta muzica algum tempo; e nam podendo sofrer mais, proguntei-lhe, se Plutarco era bom Latino. Aqui o omem: Poisque, iso tem duvida? na antiguidade nam acha V. P. um Latino, como Plutarco. O que daqui se-seguio foi, ficar eu formando mui mao conceito, dele, e do-seu amigo. De um, por-dizer o que nam sabia: pois se tivese aberto Plutarco, ou acharia o texto Grego com a versam Latina; ou tendo somente a versam, acharia no-frontispicio, o nome do-tradutor. Do-outro, porque aindaque a tradusam, nam seja barbara, contudo nam é livro para se-imitar: falo da-versam de Curserio, e Xilandro, &c.
Tambem nam é pequeno defeito, a grande repetisam de sentensas, sem necesidade. Persuadem-se muitos, que, falando por-sentensas, ficam graduados como sutilisimos, e fundadisimos letrados. Lèram em Seneca Filozofo, ou Lucano, ou Tacito, ou algum semelhante, uma quantidade destas sentensas; e, sem mais exame, nem advertencia, adotam aquele estilo; e deitam mais sentensas pola boca fóra, que uma carranca de xafariz nam deita agua. Verdadeiramente é um divertimento, bem digno de se-procurar em oras ociozas, ter uma conversasam com um destes. Eu gozei esta felicidade algumas vezes: e nam me-podia satisfazer de observar, aquela circunspesam magistral, com que proferem as palavras, em tom decizivo e com toda a magistralidade, de um Padre de Concilio. Ja eu lhe-perdoára a materia: o que nam poso sofrer é, o modo com que se-explicam. Se eles tivesem observado e intendido, que aquele mesmo Seneca foi o primeiro, que comesou a perverter, o bom gosto da-Latinidade, com tam enfadonhas sentensas: com as quais perdeo entre os seus, e entre todos os que se-seguîram de alguma estimasam; aquele conceito, que poderia aquistar, se fose mais parco de ornamentos; saberiam entam, com que olhos se-devem ler, certos autores. Mas eu falo em um suposto, que me-parece falso, e vem aser; que estes tais profiram, verdadeiras sentensas: falam como se fose por-sentensas; mas nam sei se o que dizem, merece este nome. Porque a Sentensa deve, em poucas palavras, dizer muito, e dize-lo com modo singular: o que raras vezes se-acha neles.
Note tambem V. P. outro defeito de eloquencia, no-mesmo frontispicio dos-livros. Estam estes seus autores, tam preocupados polas esquipasoens, que nam se-contentam, de pór o titulo do-livro claro: mas ou inventam um estrambotico, ou acrecentam algum epiteto, que oscurece o negocio. v. g. Cristais, d’alma, fraze do-corasam: Fenix renacida: Alivio de tristes, consolasam de queixozos: e outras coizas destas, que quando eu as-leio, me-vem à memoria, o Belorofonte literario, Clypeus Mundi, e outros titulos ridiculos, que só estavam bem, na boca de D. Quixote de la Mancha. E isto nam só achará V. P. entre os Antigos, mas entre estes Modernos. Traduz um Bacharel os Epigramas do-P. Reis, em verso Portuguez, e dá-lhe este titulo: Imagens conceituozas. Ora, falemos sem paixam, intende V. P. que, lendo-se estes titulos, poderá um omem advinhar, o que contem estes livros? Eu nam tenho dificuldade em apostar, que nam: e digo mais, que este autor nam intendeo, o que quer dizer aquele titulo: pois, a falar verdade, nam á maior despropozito, que a uniam daquelas duas palavras, para explicar a dita versam. E ponho agora de parte a loucura, de traduzir em Portuguez, epigramas destes Latinos, cuja galantaria nam consiste, em um conceito nobre; mas em palavrinhas, ou equivocos, que perdem o pico, na tradusam. Mas nam pára nisto o abuzo: antes chegou a termos, de se-nam-chamarem as coizas, com os seus nomes, porem com outros muito diferentes. Vi concluzoens de Logica, que se-intitulavam: Regnum Algarbiense in quatuor vicos distinctum: Vicus primus, de Signis: secundus, de Enunciatione &c. que se-podia intender, ser uma carta geografica. Outras de Filozofia intitulavam-se: Pigmenta Philosophica. Finalmente chamavam-lhe como queriam. E isto é mui frequente, nas escolas da-Companhia: e nam faltou ja quem me-disèse, que eram titulos ingenhozos. Estes titulos, Conclusiones, Propositiones, Theses, nam prestam ja para nada: sam coizas dos-antigos, e nomes mui ordinarios. E que chama V. P. a isto, senam jurar, de nam dizer as coizas direitas, mas de falar em Persiano, ou Chinez?
E se V. P. examinar este defeito, achará, que sam poucos os autores, que nam caiam nele. Outros acrecentam epitetos afetados. v.g. Regras da-lingua Portugueza, Espelho da-lingua Latina: deixando agora muitos outros, que podia acrecentar. Contudo eu intendo, que era mais natural, e nobre dizer: Regras da-Gramatica Portugueza, para introduzir os rapazes, na Gramatica Latina: ou ainda mais breve, e melhor: Introdusam para a Gramatica Latina: e falando asim, todos o-intenderiam. Que fizesem isto nos-dois ultimos seculos, paciencia: mas agora, que o mundo abrio os olhos, e todos procuram explicar-se bem; nam se-pode sofrer: e vale o mesmo que mostrar, que nam intendem em que consiste, a elegancia da-lingua, e a forsa da-eloquencia. Os seicentistas sam os que caîram, nesta ridicularia: os antigos doutos todos, a-evitàram: e se algum se-desviou dela, nam teve sequazes, e deve ser reprovado. Os titulos dos-Antigos, todos sam simplezes: Cornelius Celsus, de Re Medica: Caii Julii Cæsaris, de Bello Gallico &c. Ciceronis Orationes, Epistolæ, de Finibus bonorum &c. e outros a estes semelhantes. Estas palavras mostram bem, o de que se-trata: e aquela nobre simplicidade encanta mais, que todas as afetasoens, a quem intende, que coiza é Eloquencia. Os Modernos doutos, quando nam sam anonimos, que querem brincar; servem-se de titulos sezudos, breves, e claros: e nisto é em que oje se-cuida. Com efeito nos-titulos se-mostra, o juizo do-autor. Eles sam os que apontam a materia: e devem nam dizer mentiras, e falar em lingua, que todos intendam.
Pertencem a esta clase, os que nas Concluzoens publicas, poem por-questam principal uma coiza, que nam significa nada, e nam pertence à materia. Confeso a V. P. que quando a primeira vez, vi neste Reino estas concluzoens, fiquei pasmado: e quando vi, que a dita questam nam se-disputa, nem serve de nada, ainda me-admirei mais. Um destes imprime umas Concluzoens de Logica: dedica-as a Cristo Crucificado: (porque estes mosos tem tanta devosam, que em nenhum lugar a-podem encubrir) e poem por-questam principal: Se ficou mais gloriozo Cristo na cruz, que no-Tabor. Outro faz umas concluzoens de Materia Primeira, e poem por-questam: Utrum in Lunæ concavo degant homines? Finalmente é bem raro aquele, que poem questam principal, tirada das-concluzoens: mas ou da-dedicatoria, ou de outra coiza, que nam significa nada. E estarám às vezes semanas inteiras, lambicando o ingenho, para excogitar uma questam sutilisima, que calse bem à dedicatoria. E que chama V. P. a isto? senam dizer mentiras: servir-se de palavras que nam significam nada: improprias ao argumento: só para mostrar, que tem ingenho. Saiem eles logo dizendo, que é um costume antigo: E eu respondo, que é mao costume: e que se-deve emendar. Na minha Italia poem-se as concluzoens simplezmente, sem estes rodeios. Se as concluzoens sam dedicadas a Cardiais, ou Bispos, ou outras pesoas grandes; estes vam asistir em publico, asentados defronte do-Defendente: o qual porem está na cadeira: e ali faz ao principio um comprimento Latino, à pesoa a quem dedica, breve, e claro: e procura falar em lingua, que todos intendam, e mostrar a sua doutrina sem sutilezas, nem coizas que meresam rizadas.
Nem intenda V. P. que estes defeitos que aqui aponto, sam de um ou dois autores: nam senhor, sam gerais. Leia V.P. estas obras Portuguezas modernas, principalmente orasoens Academicas, em que fazem ostentasam, de toda a erudisam e advertencia; e confirmará o que digo. * * * Entre os modernos, o Conde da-Ericeira tem muito disto, como ja disemos. Comesa as suas coizas com uns rodeios, e umas oscuridades, que sem comentos nam se-intendem. Daqui pasa a acarretar, tudo quanto leo: e comumente dezempara o asumto, para dizer o que lhe-ocorre. v.g. No-elogio Funebre de Francisco Dionizio de Almeida diz, que tomava por-empenho, descrever o elogio de Tito Pomponio Atico, que morrèra no-dito dia. Mas sem falar em Atico, mete outras noticias estrangeiras, e diz mui pouco do-defunto. Promete encarecer a perda do-defunto: mas nada disto faz. O mesmo Conde no-elogio do-Papa Inocencio XIII. declara logo, que nam seguirá os preceitos da-Retorica, mas da-Istoria: e com efeito faz um catalogo difuzisimo e insoportavel, da-gerasam do-dito Papa: e deste nam diz nada. Devendo porem saber, que a obrigasam sua era, exaltar as virtudes do-seu eroe, e nam as dos-pasados. Pois asimcomo nenhuma molher feisima merece ser louvada, porque é filha, de uma molher mui bonita: antes polo contrario, a fermozura da-maen dá ocaziam, paraque nos-admiremos da-filha: asim tambem as virtudes dos-pasados, nam servem de panegirico aos prezentes: é necesario mostrar, que estes excedem os seus maiores, nas mesmas asoens. Do-que fica claro, que o dito Conde sabia pouco, elogiar. E nam se podia esperar menos, de um omem que protesta, de nam seguir a Retorica. E quantos parentes, quero dizer, apaixonados, nam vemos deste fidalgo! Mas sem nomiar mais ninguem, provarei tudo com outra orasam, feita na morte, de D. Manoel Caietano de Souza: da-qual porem nam sei quem é o autor, nem onde foi impresa; porque uma que achei em certa parte, e ainda conservo, nam tem as primeiras folhas, e comesa na folha 7. Mas seja quem for, é moderno: vistoque o Souza morreo á pouco tempo: e se V. P. a-tem lido, achará uma grande prova do-que digo.
Este omem faz uma orasam, que é um groso volume. Primeiro defeito do-panegirico. Confeso, que asisti a muitas e diferentes exequias, de Pontifices, Imperadores, Reis, Principes soberanos, Cardiais, e Senhores grandes: e nunca vi alguma, que chegáse à metade desta. Mas isto é nada. tudo o que ele diz do-tal Souza, podia-se reduzir à quarta parte, e ainda serîa longa. Consiste pois este grande volume, emque o tal Panegirista, para mostrar que era erudito, verteo nela, quanta erudisam tinha. Explicarmeei se diser, que ali se-acha o Teatro de los Dioses, e Theatrum Vitæ Humanæ, em corpo e alma. Nam diz coiza alguma, para que nam traga um bocado de antiguidade, comumente arrastada. v.g. Para dizer, que o Souza unia a piedade com a ciencia[52]; introduz a parentezis de uma pagina, em que entra Alexandre, Cezar, Cipiam &c. Para dizer, que o dito nam quizera mostrar a sua ciencia, senam em Lisboa[53]; nomeia Universidades sem tom nem som: saltando de Bolonha aos Paizes Baixos: de Pariz outra vez a Padua: de Espanha a Germania &c. e a cada paso mete fabulas, sem pés nem cabesa. E este justamente é o defeito, que eu asima condenava. Sobre o que me-lembro das-grasas, de um omem mui douto, que foi Monsenhor Sergardi: Este quando se-achava em alguma parte, em que algum destes, que tinham lido alguma fabula, ou istoria, a-queriam introduzir ou bem ou mal; dizia-lhe galantemente: Diga, meu senhor, diga tudo o que tem estudado, esta noite.