Nam falo ja em alguns erros de istoria: como dizer, Que a barca de S. Pedro navegou polo Tibre: Que por ele tambem intráram, as Troianas galés de Eneas: e outros semelhantes[54]. Um bocadinho que estudáse mais de Istoria, e Geografia, lhe-mostraria, como as coizas ou foram, ou nam foram: e lhe-ensinaria, que o lugar em que dezembarcou Eneas, nam foi o Tibre, polo qual nunca navegou. Chama aos Romanos, decendentes de Eneas, e Ascanio. como se Eneas fose o Noé dos-Lavinios, Albanos, e Romanos! Mas a isto chamo eu venialidades: o que nam poso sofrer, sam outras falsidades, que diz naquele panegirico; principalmente quando quer saîr, fóra de Portugal. Neste cazo o omem transforma tudo. Um comprimento feito a D. Manoel Caietano, uma carta escrita mais cortezmente, sam autenticas provas, da-sua imensa literatura. Que pouco informado é, da-politica dos-outros Reinos, este Panegirista! e quam pouco sabe distinguir, o encarecer uma coiza, e o inventala! Pode o Retorico dilatar, e exagerar muito um argumento: mas sempre dentro dos-limites da-verosimilidade. Ora é uma parvoice manifesta dizer, Que o Souza foi a Roma, para espantar todo o orbe literario: Que em todo o mundo se-ouviam, os brados da-sua fama: Que a Europa suspensa e admirada confesou, que excedia a sua mesma fama &c.[55]: Que a Europa confesou, que a sua erudisam era maior, que todos os encarecimentos, com que o-celebravam no-mundo, as mesmas cem bocas da-Fama[56]. Isto sam mentiras mui manifestas: e a isto chama-se satirizar, e nam, elogiar. Nam pára aqui a galhofa: diz, Que nam se-sabe em Portugal, que os Reinos estrangeiros desem, nestes ultimos tempos, um omem, que se-posa comparar ao Souza[57]. Que o-nam-saiba ele, concedo: vistoque pola sua orasam, mostra saber muui pouco: mas que o-ignorem outros Portuguezes, nego redondamente. Conheso eu omens, que sabem distinguir muito bem D. Manoel Caietano, de infinitos omens, muito mais doutos que ele.
Eu creio que D. Manoel Caietano foi douto, e soube mais, doque o comum dos-Portuguezes: aindaque eu nam poso julgar por-experiencia, porque nunca o-tratei: mas polas suas obras o-discorro: mas nam sam elas tais, que ponham um omem, na primeira esfera dos-doutos. E sei eu muito bem, que a sua Expeditio Hispanica, é mui pouco estimada em muitas partes: e que nam pode obrigar, os omens mais doutos, e de uma critica purgada; a que mudasem de opiniam, sobre a vinda de Santiago: e eu sou um daqueles, que ainda nam se pode persuadir, das-suas razoens. Mas querèlo comparar, com outros grandes omens da-Europa, é mostrar, que nam intende este oficio. Que semelhansa tem o P. Souza, com Petavio, Sirmondo, Launoi, Arnaud d’Andilly, Valois, Morin, Huet, Bossuet, Tomassin, Noris, Calmet, Mabillon, e outros muitos Catolicos? ou com algum dos-Erejes, como Grotio, Scaligero, Usserio, Selden, J. Gerardo Vossio, Daniel Heinsio, Dallé, Samuel Petit, Saumaise, Bochart, Lightfoot, Hottinger, Joam Gronovio, Luiz de Dieu, e outros muitos que deixo? os quais todos vivèram no-seculo pasado, e muitos deles alcansáram D. Manoel Caietano, e morrèram neste seculo? Que semelhansa, torno adizer, em vastidam de noticias, em antiguidades, linguas orientais, Teologia &c.? tanta como o dia com a noite. Estes é que foram conhecidos, em todo o mundo douto, e seram eternamente venerados. Bem mostra este Panegirista, que nam sabe que coiza é erudisam, quando fala desta sorte. Nam falo na Filozofia, pois todos sabem, que omens florecèram, no-fim do-seculo pasado, e no-prezente: dos-quais a D. Manoel Caietano, (que dizem era Peripatetico, ou aindaque o-nam-fose) á bem legoas de distancia. Em tudo se-mostra o Panegirista, pouco informado do-mundo: e, polo que vejo, cuido que era algum pobre Religiozo, que nunca saîra de Portugal; e asim vivia mui satisfeito da-sua terra: pois chega a dizer, que as Universidades de Portugal, até no-edificio, excedem muito, as dos-outros Reinos[58]. No-que mostra intender tanto de Architetura, como de erudisam. Mui diferentemente me-falou um Portuguez, que estivera em Roma, e tinha outros conhecimentos: o qual confesou limpamente, que em materia de bom gosto, valia mais uma só janela da-Sapiencia, ou Universidade Romana, ou do-Colegio Romano dos-Jezuitas, que todas as Universidades, e Colegios de Portugal: e nam era encarecida a propozisam. Este é o motivo, meu amigo e senhor, porque os Estrangeiros nam crem, em nenhum destes panegiricos: porque dizem, que os Portuguezes, namobstanteque comumente sejam invejozos, e digam mal uns dos-outros; quando porem tomam o empenho de elogiar, mentem dezencaixadamente, e tudo transformam: e até dizem mal dos-outros todos, para elogiar o seu eroe. Se louvam um Santo, nam só nam á Santo igual ao seu; mas quazi chegam a dizer mal, dos-outros todos. O mesmo faz o noso Panegirista.
Que um omem fasa uma orasam mui mal: que se-explique infelizmente: que introduza na-orasam, quantas coizas leo: que ignore o estilo de elogiar, e amplificar os argumentos: que seja languido e sem grasa na compozisam: que nam saiba, manejar a sua lingua: que ignore a colocasam das-palavras, e armonia dos-periodos: como faz este Panegirista; nam serîa grande coiza: o que nam poso sofrer é, que tenha prezumsam desmedida, e que diga mal dos-outros, e d’aquilo que nam intende. O que se-faz nestas orasoens, e com especialidade o autor desta. Para dizer, que o Souza estudou em Portugal, e nam fóra dele; emprega quatro boas paginas[59], dizendo mal, dos-que vam estudar fóra de Portugal: porquanto cá em Portugal, segundo ele diz, tudo se-acha, e muito melhor, que nos-outros Reinos. Os mesmos livros: omens mais doutos: Universidades melhores, e mais florentes da-Europa: Portugal é o Reino da-Sabedoria; do-qual os Estrangeiros podiam participar com mais razam, doque os Portuguezes deles: e outras semelhantes. E que diz V. P. a esta propozisam? á coiza mais estupida! E concedem-se licensas, a semelhantes escritos! Senhor Panegirista, responderia eu, nam basta ter os livros, é necesario intendèlos: e iso é o que os praguentos dizem, que muitos cá nam sabem. Todos os Latinos nas escolas lem Cicero; e poucos o-intendem; e muito menos o-imitam. Mas, suponhamos que o-sabem alguns; Porventura, sabem-no ou ensinam-no nesas Universidades? nam senhor, que eu prezenciei tudo o contrario. Alem diso, aqui nam á exercicio de linguas, Filozofia boa, Matematicas, Teologias Pozitivas &c. Istoria, Medicina verdadeira, e outras faculdades: se me-nacer alguma duvida, a quem o-ei-de proguntar? Alem diso, esa falta de exercicio é cauza, de que se-ignorem muitos livros: pois é certo, que em Portugal, nam se-conhecem livros bons, que sam bem vulgares em outros Reinos: e o Panegirista é um deles; que por-nam conhecer os autores, diz muita falsidade, no-seu Panegirico. Despois que se-fundou a Academia da-Istoria, quantos livros nam se-conhecem, que antigamente se-ignoravam? Concedo, que se em Portugal se-introduzisem outros estudos, com o andar do-tempo fariam o mesmo, que nos-outros paîzes: mas como ainda estamos mui longe d’esa epoca, nam é maravilha, que muitos vam estudar fóra, o que cá se-nam-sabe. Prouvera a Deus, que fosem muitos mais: e que estudasem bem: e viesem introduzir ese bom gosto, em Portugal.
Quanto ao que diz o Panegirista, que os Estrangeiros podiam aprender, dos-Portuguezes; tem muita razam: mas deixo a V. P. o-determinar, se á-de ser em armas, ou letras. Se ele soubèse o conceito, que aqueles tem dos-Portuguezes, ficaria mui admirado. E para nam buscar exemplos remotos, direi a V.P. que eu falei em certa Cidade, com um Religiozo, que viera instruir em Rilhafoles, os ordinandos: e me-dise, que ficára pasmado, de ver a ignorancia destes paîzes, principalmente dos-Clerigos: muitos dos-quais, nam obstante terem fama de doutos, necesitavam aprender, os primeiros rudimentos da-Fé. Este falava por-experiencia; pois estivera dois anos em Portugal: era alemdiso um omem de virtude, e mui moderado no-falar. Veja V. P. que conceito eles tem disto. Pode-se notar no-mesmo Panegirista, a incoerencia: Quando lhe-tem conta, para avultar a ciencia do-Souza; Roma é uma Cidade cheia de omens doutos: a Arcadia é uma coiza famozisima: é um congreso de Virgilios, e Oracios. Quando nam lhe-tem conta, os Estrangeiros nam sabem nada: e tudo podem aprender, dos-Portuguezes: quem intenderá tal omem! Em uma palavra, este omem cuido nam fez coiza pior, na sua vida. Todas as comparasoens que faz, sam arrastadas, e inverosimeis: as exclamasoens, que frequentemente introduz, fóra do-propozito, e do-lugar: as parentezis longuisimas, superfluas, e insoportaveis: a fraze afetada, mas sem elevasam ou nobreza; repetindo em cada regra a Ilustrisima, a um Religiozo, e a um morto. Finalmente nam sabe dar forsa, aos argumentos que traz, dilatando-os com artificio retorico.
Mas nam quero falar mais nesta materia, porque parece que faso grande cazo, de uma coiza que o-nam-merece. é fazer grande favor ao autor, criticar-lhe os defeitos, que sam infinitos. Antes devo pedir a V. P. perdam, de o-ter demorado, com semelhante orasam: o que fiz por-duas razoens: Primeira, paraque V. P. vise, a infinita distancia que poem, entre sermam funebre na igreja, e orasam funebre na academia: como se os preceitos da-Retorica fosem diferentes! Segunda, paraque vise pintados em uma só orasam, todos os defeitos que lhe-tenho apontado, reinarem nestes paîzes: pois sendo este um dos-modernos, caie em todos eles, nam dizendo o que deve; e dizendo o que nam deve. Os quais sam mui consideraveis defeitos, de Retorica.
O que até aqui tenho exposto a V. P. bastantemente mostra, o que eu tinha proposto: e dá uma verdadeira ideia, do-que é Retorica, em que se-deve uzar, e como se-deve uzar. E com efeito menos ainda basta: poisque tendo V. P. grande compreensam de materias, e mais que tudo, formando juizo exato das-coizas; nam lhe-podem ser ocultas, estas que aponto; e nam pode deixar de falar, com belisima Retorica. Mas á juizos tam sepultados na materia, que nam podem considerar outras coizas, senam aquelas que uma vez vîram: nem receberám a verdade mais clara, e demonstrada, se nam é proposta com aqueles termos, e por-aquele metodo, que uma vez ouvîram. Isto me-obriga a fazer alguma reflexam, sobre as partes da-Retorica, ou sobre estas Retoricas uzuais, e principalmente sobre o estilo do-pulpito: vistoque nestes paîzes, para isto inclinam mais: e nisto é que necesitam, de melhor diresam; para os-livrar daqueles ridiculos prejuizos, de que estam cheios.
METODO DE PERSUADIR.
Manifesta loucura é persuadir-se, que é necesario saber tudo, o que dizem as Retoricas, para ser Orador[60]. Ja adverti a V. P. que estas Retoricas comuas, eram pola maior parte uma lista de nomes, e divizoens, impertinentes de se-aprenderem, e dificultozas para se-conservarem: mas tudo isto podia suceder, aindaque a materia fose boa. Porem eu nam paro aqui, mas digo, que nam só polo modo com que o-dizem, mas iso mesmo que dizem, tem pouquisima ou nenhuma utilidade; e nada conduz para o fim, de falar bem, e persuadir. E digo da-maior parte delas, o que lá dise Cicero de outra Retorica, que escrevèra Cleantes, Que para nam saber falar, nam avia coisa melhor[61]. Sam sinco as partes da-Retorica: Procurar meios de persuadir: dispolos: falálos bem: estudálos de memoria: e pronunciálos com as asoens que se-devem. A isto ajuntam, os trez meios de persuadir, que sam as provas, os costumes, e as paixoens dos-ouvintes. Dizem alem diso, que qualquer discurso oratorio deve ter exordio: despois, narrar o fato: despois proválo, e responder aos motivos contrarios: finalmente perorasam, na qual se-faz um epilogo dos-motivos, e se-excita novamente, o animo dos-ouvintes. Tudo isto é verdade: mas se pararmos aqui, pouco saberemos de Retorica. Eu direi alguma coiza da-Invensam: sobre as outras, reporto-me a eses livros comuns; e só tocarei, o que me-for necesario.
Para buscar argumentos ou provas, que persuadam, o que pertende o Orador; propoem os Retoricos uma lista de nomes, aque chamam, lugares comuns: os quais ensinam, considerar o argumento de tantas partes, e voltálo de tantas maneiras, que seja facil, dizer muita coiza do-tal sugeito. Confeso, que estas considerasoens genericas, dam materia para falar muito; e em tal ou qual cazo, podem nam ser inutis: mas, seguindo o parecer dos-omens de exata critica, constantemente digo, que estes lugares nada menos ensinam, que a falar bem: suministram ideias gerais, palavras sem sustancia, narizes de cera, que se-aplicam a tudo, e nam persuadem nada em particular. Um destes que cre muito nos-Topicos, falará uma ora inteira, sem dizer coiza alguma com propozito: justamente como os Logicos da-Escola. Estes escrevem longuisimos tratados de Syllogismo, dam mil regras, para discorrer com propriedade, e sem falencia; e para provar tudo o que ocorrer. A ouvilos na cadeira, julgará um omem, que sam letrados universais: mas introduza-os V. P. em um discurso particular, e verá, que tudo aquilo é palhada: concluirám um discurso pior, doque nam fará, um oficial ignorante. Muitas vezes nam sabem nem comesálo, nem acabálo: e se lhe-metem a pena na mam, é lastima ver, como escrevem as suas razoens. O mesmo Cicero, que tam apaixonado era pola Retorica, e seus preceitos, que escreveo um livro dos-Topicos; contudo reconhece, que é necesario muito juizo, para se-servir destes lugares, em modo que nam digamos parvoices[62].
Quem pois reflete nisto, intende o conceito que se-deve fazer, de semelhantes lugares. Se nam fose permetido falar, senam naquilo que se-sabe, a maior parte destes, que fazem profisam de falar em publico, ficaria calada. Ninguem é capaz de discorrer em uma materia; se é que a-nam-tem estudado fundamentalmente: e nunca poderá deduzir, boas consequencias, se acazo nam posûe bem, os principios. Pode um Fizico estar cheio de silogismos, até os olhos; ter lido quantas ridicularias se-tem dito, sobre os apetites da-Materia; se acazo nam tem bem examinado, as experiencias: nam poderá explicar, qualquer uzual fenomeno. Pode um Teologo saber, a quinta esencia da-fórma silogistica; mas se nam sabe bem, em que textos se-fundam os Dogmas, nam será Teologo senam de nome.