Isto suposto, a primeira e importantisima regra da-Invensam é, intender bem a materia, que se-trata[63]: porque só asim facilmente se-incontram, os argumentos proporcionados ao sugeito: e tam facilmente se-incontram, que naturalmente se-aprezentam, caiem da-boca, e da-pena. Este é o grande defeito, destes Pregadores Portuguezes. Propoem-lhe uma materia, que eles ignoram: e em lugar de estudarem o que devem, formam logo ideia, do-que querem dizer; e despois procuram os textos, que fasam ao intento: e se os-nam-acham, violentamente os-arrastam: porque finalmente, seja como for, deve-se provar, o que se-propoz. Ora a Escritura nem sempre dá textos literais, para confirmar todas as chimeras, que os Pregadores propoem: e asim é necesario recorrer, a algum destes comentadores Peripateticos: muitos dos-quais adotam nos-comentarios, as sutilezas: e, se falta este, nunca falta um destes Asceticos, que provam tudo o que querem: e temos o sermam feito. Se o Pregador tivese estudado a materia, conheceria, que verdades importantes, como sam as da-religiam, nam se-podem provar com sutilezas, mas com razoens solidas: razoens solidas nam se-podem achar, para provar conceitos ridiculos: de que vem, que necesariamente um omem que sabe a materia, deve desprezar estas puerilidades; e considerar todos os sermonarios, talhados por esta medida, como livros que nam se-devem ler.
Que seria do-mundo Retorico, se todos os omens um dia, abrisem os olhos! Eu seguro a V. P. que de cemmil livros, que se-acham nesta materia, pouquisimos se-poderiam conservar; e alguns deles, só por-fazer favor, aos seus autores. Pois aquilo que entam fariam todos, devem oje fazer os omens, que se-querem aproveitar a si, e aos outros. Quando eu era rapaz, e somente conhecia os autores polo sobrescrito, considerava mais felizes, e doutos aqueles omens, que posuiam mais livros, doque os que tinham menos: porque, dizia eu, aqueles gozam a lisam, de mais autores, e de mais omens insignes. Naquele tempo, Escritor, e Doutor, eram sinonimos no-meu Vocabulario. Eu era um daqueles, (que por-nosos pecados, ainda vemos oje tantos) que medîa a Ciencia a palmos: quanto mais livros, mais ciencia: e o livro maior sempre me-parecia, tezoiro mais preciozo. Mas despois que me-familiarizei, com aqueles mortos: que revolvi muitas, e grandes livrarias: que consultei omens doutisimos: que li atentamente os Criticos: e finalmente que tomei o trabalho de examinar, com os proprios olhos, o merecimento de muitas das-ditas obras: transformei-me neste particular: e formo tam diferente conceito do-mundo; que se explicáse tudo o que intendo, nam conservaria tam boa conrespondencia, com tanta gente. Ora isto que se-pode dizer, de toda a sorte de livros, aplico eu oje aos sermonarios, e outros que tratam de Retorica: e conclûo, que pouquisimos destes livros se-podem ler, e ainda eses com cuidado.
É coiza digna de observar, que nestes paîzes, a maior parte dos-que estudam, confundem o Ingenho, com o Juizo: o Juizo, com a Doutrina: esta, com o Criterio: sendo coizas na verdade bem diferentes. Pode um omem ser ingenhozo, porque pode unir diferentes ideias que elevem, ao que chamamos Ingenho; e nam ter uma oitava de Juizo: porque finalmente o Juizo é aquela faculdade da-alma, que sepára uma coiza da-outra, e conhece cadauma, como é em si. Pode este omem ter Juizo, e nam ter Doutrina, porque nam tem estudado. Pode ter alguma Doutrina, e nam ter aquela que é necesaria, para formar bom Criterio. Isto parece-me bem claro. Mas nam o-intendem asim aqueles, que por-verem um, que ideiou varias chimeras, e formou algumas ideias sutis, mas ridiculas; logo o-batizam, por-omem de juizo, e grande doutor. E daqui entam nace, que as ideias daquele tal omem, sam recebidas com mais respeito, doque nam eram as respostas, em Delfos. Mas, tornando ao argumento.
Para persuadir, quer-se em primeiro lugar, boa Logica, que dè os verdadeiros ditames, para julgar bem[64]: em segundo lugar, um juizo claro, que os execute. Sem estes primeiros principios. sam superfluos todos os ditames. Da-Logica em seu lugar falaremos. Decendo pois ao particular digo, que só a verdade ou verosimilidade, é a que pode persuadir um omem; e é aquela valente arma, com que nos-acomete a razam. Ninguem deixa de se-persuadir, de uma verdade clara. Verdade é que muitos se-persuadem, da-aparencia: mas tambem é certo, que os-move a verdade, que nela imaginam. Asimque só a verdade é a que persuade, quando se-lhe-dá atensam. A forsa que os omens fazem, para divertir os olhos do-intendimento, para outra parte; é a que impede, que a verdade nam triumfe, produzindo o seu efeito, que é a persuazam. Nisto é que está o empenho do-Orador, em descobrir a verdade: mostrála em toda a sua clareza: e manifestar o erro oposto. Nisto se-distingue o verdadeiro Orador, do-Declamador. Este, contentando-se das-aparencias, veste o erro com a mascara da-verdade: o Orador porem descobre e manifesta o erro, e poem a verdade em toda a sua luz.
Orar nam é inganar, é sim introduzir no-animo, alguma verdade importante. Mas muitas vezes os Oradores, tem mais necesidade, de convencer o erro, doque establecer alguma verdade notoria. Ninguem toma o trabalho de persuadir, que Deus castiga, e premeia: isto sabem todos os ouvintes: o ponto está em mover os omens à penitencia, mostrando o grande erro, de a-deferir para a ora da-morte. Em descobrir o erro, é que deve cuidar muito o Orador. Os omens nam se-inganam nas consequencias, porque comumente deduzem-nas muito bem: o em que se-inganam é, nos-principios; porque, por-falta de exame, recebem uns falsos, como se fosem verdadeiros. Deve pois o Orador, mostrar a falsidade destes principios. deve mostrar-lhe em que diseram bem, e em que faláram inganados. Desta sorte mostrando-lhe a verdade, se a materia o-pede; ou, se é notoria, descobrindo-lhe bem o erro, se-consegue o fim da-persuazam.
Mas nam basta isto, para persuadir: e sam necesarias outras circunstancias, para introduzir no-animo, a verdade. A primeira é, a atensam. Que importa, que o Sol alumeie o Mundo, se eu depropozito me-retiro em uma caza oscura; ou polo menos, nam dou atensam aos objetos, que se-me-propoem? Damesma sorte importa pouco, que a verdade seja notoria, e o erro muito bem convencido; se eu nam faso atensam para uma, nem para outra coiza. Deve pois com cuidado o Orador, excitar a atensam: e como as coizas ordinarias, nam conseguem isto, mas sim a singularidade e novidade; deve o Orador, vestir iso mesmo que diz, de uma certa novidade, que o-reprezente singular. As Figuras dam esta novidade às coizas: e por-iso elas sam, as que movem muito a atensam: dando a intender, que o objeto é novo, é grande, é singular. Certo amigo meu, descrevendo a cara de uma molher, igualmente feia, e desvanecida; soube dar tal novidade a este asumto, que é bem umilde, e esteril; que com gosto se-lia a descrisam, do-principio até o fim. Porei aqui um soneto, que fez ao dito asumto, e que tem o mesmo artificio.
Es feia: mas desorte, que orroroza
À tua vista é bela a feialdade.
Mas tens fortuna tal, que a enormidade
Te-consegue os tributos de formoza.