O outro importante ponto, de excitar a atensam é, nam mostrar o objeto, que se-propoem, senam quando a atensam, ja nam é necesaria. Embebido o omem da-curiozidade, de saber o que se-propoem, vendo sempre coizas novas, e que prometem despois de si, outras maiores; vai seguindo com a considerasam o Orador, atéque lhe-explique, a inteira sustancia do-negocio. Asim se-conserva o ouvinte atento; e, estando atento, se-lhe-introduzem, as verdades que se-querem. Nos-Poetas de algum nome verá V. P. este artificio, bem executado: e tambem em muitos Prozadores. O mesmo Gracian no-seu Criticon, ingenha desorte a narrasam, das-figuras que introduz; que acaba o capitulo, quando se-á-de explicar, algum grande fato: e rezervando a solusam, para o seguinte, conduz o leitor, desde o principio até o fim, sempre com curiozidade de ler. Este tambem é o artificio mais comum, das-orasoens de Cicero, e de alguns Oradores modernos, que o-souberam imitar: como eruditamente adverte, um grande Retorico da-minha Religiam[65]. E nisto é que se-distingue o Orador, do-Filozofo. Ambos tem por-objeto, a Verdade: mas o Filozofo nam costuma, mover a vontade: contenta-se, de expor as razoens: porem se acazo nam acha um leitor, sem prejuizos e preocupasoens nam conclue nada. Mas o Orador move as paixoens: excita a curiozidade: mostra a verdade de tantos modos, com tanta clareza, com tanta eficacia: desfaz os prejuizos com tanto estudo; que finalmente convence o ouvinte.
O 3.o ponto importante é, saber ganhar a vontade, ou insinuar-se, no-animo dos-ouvîntes. A Verdade, diz o proverbio, é amargoza: e uma verdade nua e crua, proposta a uma pesoa, que as-nam-coze bem, é dura de digerir. Deve pois o Retorico, insinuar-se galantemente, no-animo dos-ouvintes: propondo-lhe a verdade, vestida de um tal modo, que ele a-admita, quazi sem advertir. V.P. ja sabe, que as pirolas de quinaquina, e outras tais amargozas, se-cobrem com marmelada, ou obreia branca, para se-engulirem sem dificuldade. Eu sei muito bem, que este negocio, nam está na esfera, de todos os Pregadores. Requer grande pratica do-mundo: grande-conhecimento dos-omens: do-modo com que obram, e com que se-excitam as paixoens: finalmente uma Filozofia particular, que descubra a origem de todos os movimentos do-animo: lisam de bons autores: e perfeita sagacidade: qualidades todas que pouquisimos chegam a conhecer, quanto mais posuîr.
Julga-se comumente, e nam sem razam, que o conceito que os ouvintes tem, da-virtude e merecimento do-Pregador; conduz muito, para se-persuadirem. Quem vai ouvir um omem, de quem é fama comua, ser muito santo, ou muito douto; vai meio convertido, ou persuadido. Em todas as Aldeias, á-de aver um barbeiro, que julgue de sermoens: o qual é estimado, como o omem mais inteligente. Os Aldeioens talvez nam ouvem, o que diz o Pregador; mas estam atentisimos aos movimentos, que faz o barbeiro: se este aprova o discurso, o Pregador é famozo. Asim se-vive nam só nas Aldeias, mas tambem nas Cidades. Sam poucos os omens capazes, de julgarem por-si: mas vem, ouvem, e julgam, polos sentidos dos-outros. A prevensam pois com que se-ouve um omem, é aquela que, entre a maior parte dos-omens, decide do-seu merecimento: e esta tal opiniam de merecimento, é a que faz receber com agrado, os discursos: os quais, quando nam acham opozisam no-animo, produzem todo o seu efeito. E asim deve o Pregador, mostrar-se digno de o-ser: deve pregar primeiro com as obras, que só entam os seus discursos, seram bem recebidos, e os seus ouvintes ficarám persuadidos, do-que lhe-propoem. Mas devem estas virtudes ser verdadeiras, porque sem iso, nada conclûem.
Em 4.ᵒ lugar, deve cuidar muito o Orador, em nam ofender com palavras, os seus ouvintes. Os Omens nam gostam, de repreensoens publicas: e parece que com razam. Tudo se-pode persuadir, com bom modo: e facilmente concordamos no-que nos-dizem, se ouvimos as razoens, propostas com amizade, e com brandura: e propostas por-um omem, que nam faz vaidade da-Eloquencia: que nam ostenta triumfos: mas que utilmente se-serve dela, para nos-inclinar, para onde devemos.
Em quinto lugar, é necesario tambem, mostrar aos ouvintes a utilidade, daquilo que lhe-propoem: mostrar-se parcial dos-seus intereses, para os-poder trazer, para a parte contraria. Nós facilmente damos orelhas àqueles, que intendemos obram, polo noso mesmo motivo; e estam persuadidos, da-mesma paixam. Por-iso é muitas vezes necesario, nam condenar tudo quanto eles dizem: louvar alguma parte, para podermos condenar a outra, com mais eficacia, e efeito. É necesario, saber dizer mal nas ocazioens, modificando a censura, com alguns elogios. Observei sempre, que um omem que nega tudo, ou concede tudo, nam conclûe nada. Devemos dar lugar à prevensam; e algumas vezes dar tempo à colera: esfogada a qual, entam é que pode ter lugar, a persuazam. Para isto requer-se doutrina, prudencia, afabilidade, e outras muitas virtudes.
Deve em 6.ᵒ lugar, saber excitar propriamente, as paixoens; e inspirar aquelas que sam proprias, para mover o Omem. Sam as paixoens as que nos-movem: e nam á coiza, que nam posa fazer um omem, se-acazo se-lhe-excitou, a paixam proporcionada. Nisto pois é que deve estudar o Orador: inspirando aquelas, que sam necesarias, para abrasar a verdade que propoem. Para isto é necesario, estudar bem as paixoens do-animo; porque, sem estas machinas, é certo, que nada obram os Omens. Isto que até aqui temos dito, abrasa todo o genero de orasoens, e sermoens: mas especialmente se-devem notar algumas coizas, para a eloquencia do-pulpito: que compreende duas sortes de orasoens, Panegiricas, e Morais.
Em primeiro lugar é uma ridicularia e impropriedade, tomar um texto da-Escritura, para fazer um panegirico Funebre. Nam é o asumto, explicar a Escritura: mas sim engrandecer, as virtudes todas daquele omem; paraque todos o-imitem: e consolar o auditorio da-sua perda, com a vista dos-monumentos, das-suas singulares prerogativas. Onde deve-se descrever a vida dele; tomando as asoens mais famozas, e deixando menudencias ridiculas, que nam dam maior ideia, da-dita pesoa. Devem-se narrar, e engrandecer as asoens: deve-se na exagerasam empregar todo o artificio da-Retorica; sem degenerar naquelas ridicularias, que todos os momentos vemos: a Istoria, o exemplo pode dar novo lustre, às mesmas virtudes. Mas sempre devemos ter diante dos-olhos, que uma coiza é orasam, em que se-persuade, a execusam da-virtude; e outra panegirico: naquela tem lugar, os textos da-Escritura; nesta de nenhuma sorte. Em uma palavra, todo o artificio que se-deve praticar, em todas as orasoens exornativas, que ou louvam, ou vituperam; consiste em narrar, e amplificar. Desorteque, para nam fazer istoria, deve nam só narrar; mas de tal sorte distribuir a narrasam, que despois de narrar um fato, ou uma serie de fatos, que pertensem ao mesmo ponto; os-amplifique: e asim mostre o seu juizo, na narrasam; e a sua eloquencia, na amplificasam[66]. Como todas as orasoens do-genero demonstrativo, tenham estado de comparasam, porque nam se-disputa, an res sit, mas quanta sit: deve ser o principal artificio do-Orador, introduzir a controversia conjetural; com que manifeste, a grandeza da-asám, considerando miudamente todas as coizas, que a-podem relevar. Despois, conjeturar das-virtudes pasadas, o que ele faria nestas, ou em outras circunstancias &c. Podem tambem nestes panegiricos ter lugar, diversos outros artificios, de controversia Definitiva, Translativa, e Judicial; praticados polos antigos Retoricos: os quais conduzem muito, para este mesmo fim.
Quanto à dispozisam dos-argumentos, aconselha Cicero, que primeiro se-toquem, os bens externos, quero dizer, da-gerasam: despois, os do-corpo, e os do-animo. Quanto às asoens, que ou se-siga a ordem dos-tempos, ou se-reduzam a diversos titulos de virtudes[67]. Desta sorte narrando, e amplificando, se-poderá formar, um panegirico perfeito.
Pasando daqui aos panegiricos de Santos, em quanto se-puderem evitar temas, será mais arrezoado: mas quando ou o costume, ou o genio obrigue, a tomar algumas palavras da-Escritura; nam é necesario, esquadrinhar profecias, nem procurar de acomodalas literalmente: basta que as ditas tenham alguma analogia, com a materia de que se-trata. Pode-se seguir a sentensa da-Escritura, para comesar o sermam; sem a-introduzir novamente, no-corpo dele. Isto tenho visto fazer, a omens muito grandes: e parece-me que um tal exemplo, se-deve preferir aos outros. No-corpo da-obra, deve-se seguir o mesmo estilo, das-outras orasoens laudatorias; narrar, e amplificar. Mas como a vida dos-Santos, principalmente antigos, é ja nota a todos; para evitar o fastio a estes delicados, pode escolher uma, ou duas asoens mais famozas, e delas formar o seu panegirico. E este metodo é o mais frequente, quando se-fala em Santos antigos: cujas asoens todas ou sam bem notas, ou deles somente sabemos, uma ou outra virtude, mas publica a todo o mundo: ou algum grande privilegio, concedido por-Deus ao dito omem: e este o-engrandecem, com todo o artificio da-Retorica. Mas nos-modernos, cuja vida nam é mui notoria; é melhor, seguir a ordem dos-tempos, ou virtudes, e explicar toda a vida do-Beato. O grande Orador Paulo Segneri, pregando de S.Estevam, engrandece a virtude deste Martir, com varias considerasoens. 1.ᵃ ser S.Estevam o primeiro, que dèse a vida pola Fé. 2.ᵃ tela dado por-uma fé, que entam comesava, e era ainda desconhecida. 3.ᵃ tela dado nam só sem esperansa, de receber aplauzos, mas com certeza moral, de experimentar oprobrios e derrizoens. 4.ᵃ ter dado o proprio sangue por-um, de quem nam tinha recebido, tam privilegiados favores, como recebèram os Apostolos. 5.ᵃ porque uma tal asám mereceo, comunicar a Paulo, e outros que o perseguiam, a sua mesma fé. Com este exemplo, se-podem tecer mil panegiricos: advertindo muito, que estes pontos, nam se-devem provar separadamente, como fazem neste Reino; porque este metodo destrue, a uniformidade do-sermam, e impede o exercicio oratorio: mas de um se-deve pasar a outro, de modo tal que, sem advertir o ouvinte, se-veja introduzido na considerasam, de uma nova prerogativa; com que o Pregador vai requintando, as virtudes que narra; e seguidamente o-conduz ao fim, de o-persuadir, que é grande o sugeito, de que se-trata. E nisto se-compreende tudo, o que pertence ao genero laudatorio, quero dizer, aos sermoens em que se-louva alguma pesoa, ou alguma asám de piedade.
A outra especie de sermoens, a que chamam Morais, podem em certo modo pertencer, ao genero demonstrativo: o qual nam só compreende, os que louvam alguma asám, mas os que vitupèram outras: como sam os morais, que pintam o Vicio mui feio, para mover os Omens, a que abrasem a Virtude oposta. Mas como nisto entra a persuazam, e admoestasam, que sam proprias do-genero deliberativo; podemos chamar-lhe, mixtos de ambos os generos. Mas chamem-lhe como quizerem, o mesmo artificio, que asima disemos, se-pratica nos-outros; deve praticar-se nestes, com sua proporsam: quero dizer, que se-tome um asumto singular, e proprio do-que se-quer dizer; e que se-busquem argumentos, e se-dilatem demaneira, que sempre se-vá subindo; para chegar a persuadir-se, o que se-quer. Isto suposto deve o Pregador, fugir de dois extremos: um, de querer agradar muito, dizendo galantarias, e enchendo a orasam de pensamentos sutis, de aplicasoens chimericas, e outras coizas destas: outro, de nam querer agradar coiza alguma, como fazem certos misionarios, que propoem as verdades tam nuas e cruas, que infinitamente dezagradam. Contra os primeiros, ja asima dise alguma coiza, repreendendo as afetasoens, onde nam entram: sendo certo que nam entram tais coizas, em materias tam sezudas e graves. Mas porque á muita gente, que, querendo fugir do-primeiro defeito, caie no-ultimo; e para cubrir a propria ignorancia, despreza todos os ornamentos da-Retorica; é necesario mostrar a estes, o seu ingano, com o exemplo dos-omens doutos, e pios.