O Pregador Evangelico deve instruir, e mover: e nam se-insinuando, no-animo dos-ouvintes, nam conseguirá o persuadilos. Onde, diz com muita razam S. Agostinho[68], que o Orador Cristam, deve saber uzar, dos-livros dos-Etnicos; principalmente dos-Retoricos, para agradar, e persuadir: o que prova com exemplos, de muitos Padres, que fizeram o mesmo. Semelhante pensamento expoem S. Jeronimo, escrevendo a Magno Orador Romano: e S. Gregorio Nazianzeno diz mui claramente[69], que todos os seus estudos profanos tinha deixado, menos a Retorica: na qual experimentava todos os dias, infinitas utilidades; e que dela se-servîra, e servia sempre. S. Bazilio, S. Ambrozio, e outros SS. mui doutos nas letras profanas, praticáram o mesmo: e nas suas obras conhecemos nós, como podemos uzar, dos-tais autores. Onde deve o Pregador, ter sempre na memoria, aquelas palavras de S. Agostinho no-lugar citado: Volumus non solum intelligenter, sed libenter audiri. e em outra parte: Nolumus fastidiri etiam quod submisse dicamus ..... Illa quoque eloquentia generis temperati, apud eloquentem Ecclesiasticum, nec inornata relinquitur, nec indecenter ornatur. Deve alem diso o Pregador, nam só instruir, e agradar; mas principalmente mover: o que conseguirá por-meio do-genero sublime, e patetico, quando se-trata de persuadir, as obras boas: porque no-saber mover é que consiste, o verdadeiro triumfo da-eloquencia. E para fazer isto, nam se-requerem, como jà dise, sutilezas, mas razoens fortes, e bem dispostas, e exageradas. &c.

Isto é obrigasam. Quanto ao meio de o-conseguir, deve, despois de bom fundamento, nas letras umanas, ter grande lisam da-Escritura, e dos-Padres que apontamos: cujas homilias ensinam, como se-deve pregar, para tirar fruto. Nam creio, que aja Pregador ou Misionario, que queira ser mais santo, mais douto, e mas zelante, da-onra de Deus; que os que apontamos, e outros semelhantes, como S. Joam Crizostomo &c. e tendo eles praticado isto, com tanto louvor; eles tambem devem ser, os nosos mestres. Especialmente se-deve ler S. Agostinho, nos-livros de Doctrina Christiana, onde explica bem a materia.

Mas porque a maior parte destes, prezados de Criticos, e Retoricos, que nam sabem a istoria Ecleziastica, nem Literaria; intenderám, que estes Padres só cuidavam na virtude, e nam sam bons para se-imitarem, na eloquencia &c. será necesario explicar-lhe em breve, quem eles eram. Bazilio Cesareense, ou Magno, de quem aqui falamos, estudou muitos anos, na mais famoza escola, que era Atenas. foi um dos-mais famozos Filozofos, Gramatico, e Retorico insignisimo. as suas homilias sam um perfeitisimo modelo de eloquencia: e o grande Photio chega a dizer, que se-podem igualar, a Demostenes. Leva a palma principalmente, nos-Panegiricos. Gregorio Nisseno seguio as pasadas, de seu irmam Bazilio. foi publico profesor de Retorica, e insigne Filozofo: e tam amante das-letras profanas, e especialmente da-Retorica, que S. Gregorio Nazianzeno, amigo comum de ambos, na carta 43. condena, este seu nimio estudo. O estilo dele é sublime, e juntamente agradavel. S. Gregorio Nazianzeno foi condicipulo, e amigo de S. Bazilio. Na eloquencia querem muitos, que exceda ao mesmo Bazilio. finalmente é tam sublime na pureza, e elegancia; que o grande Erasmo diz, que nam se-pode traduzir bem em Latim, por-cauza da-magnificencia &c. S. Ambrozio era eruditisimo em Grego, e Latim, mais doque comumente se-nam-cre. o seu estilo é concizo, e agudo, e quazi semelhante ao de Seneca; aindaque melhor. Nam era grande Retorico: mas é fluido, e proprio para convencer os erros com doutrina, piedade, e gravidade. S. Jeronimo todos sabem que era um omem eloquentisimo, em Latim, e Grego &c. e mui versado nos-livros dos-Etnicos, e na Filozofia Grega, e Istoria; e sumamente veemente: Onde pode-se aprender nele, muita coiza boa. S. Agostinho aindaque nem na pureza da-lingua, nem no-estilo seja igual a Jeronimo, e outros asima; contudo na sutileza, e no-mesmo tempo na profundidade do-juizo, talvez o-excede. Certamente que aindaque fose, profesor de Retorica, nam fez grande aproveitamento; nem chegou à erudisam dos-outros. Mas dele se-pode aprender muito: principalmente nos-ditos livros de Doctrina Christiana, emque ensina que dotes se-requerem, para interpretar bem as Escrituras; e fazer as outras obrigasoens de um Ecleziastico. Asimque dele se-podem aprender, muitos ditames. S. Joam Crizostomo tambem era doutisimo. Alem da-pureza da-lingua, que parece um verdadeiro Atico, une trez coizas admiravelmente; que sam a facundia, a erudisam, e a facilidade: desorteque ninguem tratou as materias, com mais clareza, e naturalidade. Alem diso é singular nisto, que acomodou a sua doutrina, à capacidade dos-ouvintes; e por-iso agrada a todos: em modo que para pregar ao povo, as suas obras ensinam muito. Estes sam os Santos, que propomos ao estudante; e nam só porque sam santos, e mui versados nas doutrinas sagradas; mas especialmente porque o-sam nas profanas: com as quais formáram o bom gosto, e intendèram melhor as sagradas. Porque muitos nam tem, estes principios de letras umanas, aplicadas às divinas; por-iso vemos tantos Pregadores, que nam sabem abrir a boca. E porque nas mesmas letras umanas, muitos as-nam-estudáram como deviam, nem chegáram a conhecer, qual era o bom gosto, da-Eloquencia; por-iso tambem V.P. ve todos os dias omens, que nam só nam sabem, fazer um papel sofrivelmente; mas nem menos conhecer nos-outros, as delicadezas da-Oratoria. Desorteque se acazo lhe-mostram, uma orasam bem feita; nam lhe agrada: ou só vam buscar nela, as coizas menos sofriveis; palavrinhas, e coizas semelhantes: sem olharem para o todo da-orasam, para a proporsam, e dispozisam das-partes, o modo de dilatar os argumentos, de aclarar uma verdade; a verosimilidade dos-mesmos argumentos, e outras particularidades, em que consiste a eloquencia. A este modo pois de examinar, como eles fazem, chamo eu, julgar com os cotovelos: e tudo isto nace, de terem estudado mal.

Tambem outra coiza importante, deve advertir o Pregador, que sam as asoens. parece isto nada, e é uma principal parte na Oratoria. Nisto pecam bastantemente em Portugal. Vemos Pregadores, que peneiram no-pulpito, movendo os brasos e maons orizontalmente, com afetasam vergonhoza. vemos outros, que amasam, e dam estocadas com os brasos, arregasando as mangas, e fazendo mil coizas e posturas improprias. Nam pode V.P. crer, quanto isto desfigura o Orador, e esfria o animo dos-que o-ouvem. Um papel bom, quando é mal reprezentado, nam vale nada: o que todos os dias experimentamos. Bem nota é a istoria de Demostenes, o qual tendo ja dezesperado, de poder orar em publico, pola infelicidade da-sua pronuncia; um Comediante o animou, com a esperansa de reprezentar bem: e deo-lhe tais lisoens, que foi a cauza principal, do-grande nome, e aceitasam que ao despois teve.

Os Romanos, que sabiam quanto importava, reprezentar bem o seu papel, desorte se-exercitavam nisto, que tomavam lisoens dos-Comediantes; como o mesmo Cicero de si confesa. E com efeito, nam podiam tomar melhores mestres: porque os Comicos eram tam insignes nisto, que falavam somente, com as asoens. Nos-ultimos tempos da-Republica, se-introduzîram nos teatros, os Pantomimos: que era uma especie de Comediantes, que com as asoens somente explicavam, o que outro, que estava imovel no-fim do-teatro, dizia. Desorteque um falava; e o Pantomimo animava com a asám, a expresam do-outro. Tal era a diligencia, com que sabiam com a asám, acompanhar os movimentos do-animo! Isto faziam aqueles que sabiam, que coiza era Retorica: e isto deve fazer qualquer omem, que á-de orar em publico.

Os nosos Italianos sam os unicos, entre todas as Nasoens, que melhor exprimam com a asám, o que dizem: e nam só quando oram, mas tambem quando recîtam versos. Os Inglezes nam se-movem, quando recîtam: os Francezes esfogueteiam, e cantam: os Espanhoes choram: outros tem outros defeitos. Mas pola maior parte convem todos, que os Italianos, sam os mais expresivos: e um grande ingenho Francez, do-seculo pasado, chegou a dizer, que os nosos Italianos naturalmente eram, Comediantes. Porem em Portugal, á muita falta disto. Dos-Pregadores é notorio, que nam só lhe-falta a asám, mas até o tom da-voz, que nam acompanha com a asám. Confeso a V.P. que nunca pude sofrer a afetasam, com que muitos pregam a Paixam, ou as Lagrimas. Estudam uma voz flebile, mas com modo tal, que em lugar de fazer chorar, provoca o rizo: muito mais se consideramos o que dizem, com a dita voz flebile. Eles circunscrevem o estilo patetico, na dita voz: e asentam que ela basta, para mover. Loucuras! O mesmo digo, quando fazem a exclamasam para o Sepulcro, nos-sermoens de Quaresma. todo o ponto está, em gritar muito: pedir mil mizericordias: e com isto se-contentam. Mas a falar a verdade, estes nam sabem o seu oficio. O estilo patetico, é a coiza mais dificultoza, da-Retorica, como confesa Cicero[70]: e nele é que consiste o triumfo, e aplauzo da-eloquencia. Nam é pequena dificuldade, ou para melhor dizer, é coiza admiravel, que as palavras que profere um omem, ajam de mover em mil ouvintes, os mesmos sentimentos, que quer o Orador: amor da-Virtude: odio do-Vicio: aborrecimento de si mesmo! Que cuida V.P. que será necesario, para conseguir isto? É necesaria doutrina admiravel: particular conhecimento das-paixoens umanas; como se-excitam, e adormecem: asoens proprias: e em uma palavra, saber uzar das-Figuras, na ultima perfeisam: e isto nam se-faz com voz flebile, nem com gritarias, mas com outras virtudes oratorias. Nam digo, que quem prega estes sermoens, esteja rindo: digo sim, que deixe aquelas afetasoens, e reconhesa em que consiste, o mover os animos: qual é a asám, qual a voz proporcionada.

Mas pior que tudo é, quando recîtam versos: rarisimo vi, que pronunciáse verso bem. Comumente vam detraz do-consoante, e fazem pauza, nam no-fim do-sentido, mas no-fim do-verso: o que é erro manifesto. Parece isto pior, quando recîtam versos Latinos, nos-quais nam á consoante: de que vem, que um carmen pronunciado por-um deles, e por-outro que o-saiba animar com a voz, e asám, parece diferente. Este defeito deve emendar o omem, que quér ser perfeito. deve exercitar-se em caza, diante de algum amigo bem informado; para ver, se expremio bem, a asám que quer. Só asim conseguirá, ser ouvido com gosto.

Mas eu quero parar, neste ponto: porque se deixo correr a pena, em lugar de reflexoens, escreverei um tratado de Retorica. Reconheso que já caî, no-mesmo defeito que condeno: mas a materia é tam fecunda, e as reflexoens ocorrèram-me, com tanta promtidam, que nam pude deixar, de as-admetir. Direi porem a V. P., que lendo o que tenho escrito, acho que é suficiente, para introduzir um moso no-estudo, da-verdadeira Eloquencia. e quem se-capacitar bem destas reflexoens; e comesar a ler os bons autores, tanto Latinos, como Vulgares; e observar neles, o artificio das-orasoens; sem ler mais outra Retorica, pode sair gravisimo Orador. Esta prezunsam nam nace de mim, mas damesma qualidade dos-preceitos: os quais sam tam antigos, como os Oradores: que é o mesmo que dizer, sam os mesmos que executou Demostenes, e Eschines, e Isocrates: que nos-deixou escritos Aristoteles, Demetrio, e Longino: que praticou e ensinou com tanto louvor Cicero, M. Seneca, e Quintiliano, e outros autores antigos. As Retoricas comuas nam apontam, senam alguns nomes, que eu aqui nam quiz apontar: sem saber os quais, pode um omem ser, muito bom Retorico, se souber imitar estes treslados. Como tambem pode um omem, com exata lisam de bons livros, discorrer bem, sem saber as especies de silogismos, que apontam os Logicos.

Neste pouco que tenho proposto, cuido que cheguei, ao verdadeiro principio da-Eloquencia. Nam apontei o artificio, dos-diversos estados de controversias oratorias; porque nam era ese o meu argumento; nem tambem se-acha, nas Retoricas ordinarias: e somente se-pode aprender, nos-mesmos autores originais. O meu Religiozo que asima aponto, explica muito bem estes artificios, dando os exemplos originais: mas tambem se-demora com minucias: e como escreve em lingua estrangeira, nam é para o cazo. Outros, de que eu me-aproveitei mui bem, tambem escrevem em linguas estrangeiras, ou sam difuzisimos. Neste cazo para dizer a V. P. o meu parecer, aconselho ao estudante Portuguez, que nam tem alguma boa Retorica Portugueza; que, despois de intender bem, o que aqui lhe-aponto, tome alguma ideia, da-distribuisam da-orasam; a saber, exordio, narrasam, provas, epilogo: que leia brevemente, o nome das-figuras das-palavras, e do-animo: o que o mestre facilmente podia explicar. Posto isto, segue-se ler um autor Portuguez, no-qual posa fazer, as reflexoens necesarias. Mas aqui esta a dificuldade: e eu que nam costumo inganar ninguém, devendo dizer-lhe sinceramente o que intendo; digo, que nam acho algum, que posa ser modelo.

Dos-sermoens nam tenho que dizer, sendoque ja expliquei, o que eram. As orasoens Academicas, que se-lem nos-Anonimos &c. nam merecem que se-leiam. Algum elogio da-Academia Real, que é mais toleravel, peca por-outro principio: porque é mera istoria, sem artificio algum retorico. * * * E aos que respondem, que tambem os Francezes praticam o mesmo, nos-elogios dos-seus Academicos; respondo o mesmo: que os ditos elogios sam istorias, e nam panegiricos: e asim o-julgam todos, os que tem voto na materia. Li nam á muitos dias o do-Cardial de Polignac, que teve ultimamente seus aplauzos: e achei que o autor, se ouvèse de escrever a istoria do-dito, nam se-serviria, nem de outras palavras, nem pensamentos, nem frazes. Com efeito eu julgo, que aqueles omens nam querem fazer outra coiza, que explicar em breve, a vida, e merecimentos dos-seus Academicos. Onde como eles nos-dispensem, de lhe-chamar orasam, ou panegirico; concedemos-lhe tudo o mais: mas devemos porem reconhecer, que nam sam obras no-genero Oratorio: e que nam sam para se-imitarem. Onde neste cazo deve o mestre, tomar sobre si o trabalho, de explicar tudo em Cicero: servindo-se para isto do-P. Cigne Jezuita: o qual, seguindo o metodo de um certo Inglez, faz a analize das-orasoens de Cicero. E asim nelas deve o mestre, mostrar o artificio da-Oratoria, fazendo as seguintes reflexoens. Notar primeiro a forsa das-razoens, dispostas com boa ordem, unidas naturalmente, e amplificadas com artificio. Notar a verosimilidade das-ideias: a pureza e elegancia das-palavras: a moderasam e propriedade dos-epitetos: o numero oratorio, que consiste em certa colocasam armonioza de palavras, mas que nam degenere em verso: a introdusam das-figuras, quando é necesario excitar as paixoens: as precausoens que observa, para nam dezagradar. Observando bem isto, na lisam dos-autores, bastava para conseguir, o bom gosto da-Eloquencia.