Deve porem unir-se com isto, o exercicio. Onde o mestre comporá, uma breve orasam Portugueza, segundo as regras da-arte: e mostrará nela aos dicipulos, o artificio e galantaria dela. Fazendo-se isto em Portuguez, facilmente se-aprende: e só asim podem eles, intender bem os preceitos, e executálos. Isto nam fazem em Portugal os mestres, e quazi se-envergonham, de escrever em Portuguez: sem advertirem, que a Retorica nestes paîzes, mais se-exercita em Vulgar, que em Latim. Mas por-esta razam sucede, que saiem todos da-Retorica, sem saberem dela mais, que o nome. Porem, tornando ao estudante, tendo-lhe proposto um modelo, de fazer uma breve orasam; será necesario exercitálo. Isto facilmente se-faz, propondo-lhe na escola um asumto, e proguntando-lhe, o que eles diriam em tal cazo, para defender v.g. ou acuzar aquela pesoa. Certamente um rapaz com a logica natural, dirá algumas razoens, que lhe-ocorrem: pois vemos, que a nenhum rapaz faltam razoens, para se-desculpar dos-erros que faz, quando o-querem castigar. A um rapaz pode dar, a incumbencia de acuzar, e a outro de defender. Despois que ambos tem dito o seu parecer, deverá o mestre, suministrar alguma razam mais; e ordenar aos rapazes, que as-escrevam, e fasam as suas orasoens, do-melhor modo que puderem. Isto feito, deve o mestre emendar os erros, tanto de lingua, como de Retorica; dando-lhe razam, de tudo o que faz: e variando sucesivamente os asumtos. Desta sorte aprende-se mais Retorica, em uma semana; doque polo metodo vulgar, em dez anos.

Quando o estudante sabe bem, que coiza é Retorica, no-resto do-ano se-pode empregar, em compor Orasoens Latinas: ou traduzindo, as que compoz em Portuguez, o que é mais acertado ao principio: ou compondo outras novas. Para quem ja intende Latim, e sabe compor bem em Portuguez, isto é um divertimento, sem ter dificuldade alguma. Terá pois o mestre cuidado, de lhe-encomendar, que leia os trez livros de Oratore de Cicero, e Orator ad M. Brutum, como tambem o de Oratoriis Partitionibus: os quais dois ultimos sam a quinta esencia, de toda a Retorica. Encomende-lhe que se-familiarize, com as Orasoens de Cicero, para aprender os seus modos de explicar. As outras reflexoens sam iguais, em ambas as linguas, com sua proporsam: e tambem o modo de emendar os defeitos, que os estudantes cometem. Desta sorte é sem duvida que em um ano, podiam saber muito facilmente Retorica, e mui solidamente.

Quanto aos mestres, sou de parecer, que leiam atentamente, nam só os ditos livros, que apontamos de Cicero, e alguns outros, pertencentes também à Retorica; mas os de Quintiliano, em que faz belisimas reflexoens, sobre ela. Valla diz[71], que ninguem pode, intender bem Quintiliano, sem primeiro saber bem Cicero: nem menos seguir perfeitamente Cicero, sem obedecer aos preceitos, de Quintiliano. O certo é, que Quintiliano é um Retorico insigne, e um grande Critico, que toda a sua vida empregou em refletir, e ensinar: e tem maravilhoza eloquencia: e dele podem tirar os mestres, as necesarias reflexoens, para comunicar a seu tempo, aos rapazes. Se o mestre quizese, mais alguma noticia particular, e ver as fontes, de toda a Retorica; devia ler os livros Retoricos de Aristoteles, que é o mestre nesta materia, e os ditos sam a sua melhor obra: nela bebèram todos. Podia servir-se da-versam Latina, se nam intendèse o Grego. A este ajunto um famozo Critico, e Retorico, que é Dionizio Longino, no-seu tratadinho de Sublimi stilo: em que faz admiraveis reflexoens, servindo-se tambem da-Versam[72]. E quem quizese mais, podia ler o Demetrio Falereo: aindaque nos-outros acha-se tudo. A estes quatro, Aristoteles, Cicero, Quintiliano, e Longino, se-reduz tudo o que á melhor na Antiguidade, sobre a Retorica. Aconselharia tambem ao mestre, que lese os panegiricos Latinos, que temos dos-Antigos, comesando em Plinio, e pasando aos outros que se intitulam, Panegyrici Veteres; que cuido sam uns quinze, compostos no-quarto, e quinto seculo: nam para os-seguir em tudo: mas para os-conferir com os antigos, ver em que diferem, e aproveitar-se deles, em alguma coiza menos má. Advertindo nestes ultimos, que o que aconselhamos nam é a lingua, que tem seus defeitos; mas algum pensamento &c. Retoricas modernas nam aconselho nenhuma, nem a dicipulos, nem a mestres: tirando o Vossio, nas suas Instituisoens Oratorias, que é famozo: o qual podiam ler uns, e outros, quando quizesem particularizar, alguma noticia. Aindaque quem le, e intende bem, o livro Orator de Cicero, nam necesita mais: mas como é breve, pode-se permetir, ler alguma coiza mais.

Aconselharia tambem, que aprendesem bem a lingua Italiana, para lerem as famozas tradusoens que se-acham, dos-Antigos Oradores Gregos, e Romanos, feitas por-omens insignes: como tambem para lerem as belisimas obras, em materia de Eloquencia; que os nosos Italianos tem produzido, e produzem todos os dias. Ninguem nos-disputa a prerogativa, de que a Eloquencia sempre se-conservou, em Italia. Os Francezes, que nam cedem facilmente, no-particular de literatura, fazem-nos este elogio. E aindaque eles abundem de omens doutos, nesta faculdade; vemos que na Italia se-conservou sempre, com mais extensam, e pureza. Quem le o P. Paulo Segneri Jezuita, o Cardial Cassini Capucinho, e ainda o mesmo Monsenhor Barberini, tambem Capuchinho, e mil outros de diversas Religioens, e Seculares sem numero; parece-lhe que conversa, com o mesmo Cicero: porque formados sobre estes antigos modelos, em nada se-distinguem, dos-originais. Acrecenta-se a isto a lingua, que, despois da-Latina, é a mais bela, e armonica, para a Eloquencia. Tem mais os Modernos, outra circunstancia; vem aser, que tendo-se aplicado a diversas materias, nam só profanas, mas sagradas, de que nam á vestigio, nos-antigos Retoricos; fizeram aos nosos olhos mais familiar esta faculdade, e mais facil de se-imitar: porque dam belisimos exemplos, em tudo. Desta sorte familiarizando-se muito, com os Antigos, e Modernos; observando em que diferem, e em que sam louvados; se-pode conseguir, a verdadeira Eloquencia.

Conheso, que se eu faláse com outra pesoa, que nam fose V. P. se-escandalizaria muito, que eu nam aconselháse aqui, a leitura do-P. Vieira, do-Baram Conego Regular, do-Bispo de Martiria, do-Arcebispo de Cranganor, e de alguns outros, que nam aponto; persuadindo-se, que estes omens sam originais, de toda a estimasam. E nam sei se V.P., aindaque superior no-criterio aos outros, intende, que algum deles podia ter lugar, entre outros que louvo. Mas eu, meu amigo e senhor, nam tenho nisto parcialidade alguma; e julgo, segundo o que intendo, na minha conciencia. Verdadeiramente é coiza indigna, de todo o omem ingenuo, quanto mais de um Religiozo; desprezar autores, que o-nam-meresam, e sejam em simesmos dignos, de todo o louvor: mas nam é menos indigno, aprovar um escritor, contra aquilo que intendo. Eu ja fiz a minha solene protesta, na primeira carta, e nesta da-Retorica tambem; que nam pertendia defraudar ninguem, da-sua justa estimasam: e novamente aqui repito, que estimo infinitamente qualquer destes Religiozos: mas eu os-distingo muito das-suas obras, que nada estimo.

E comesando polo mais famozo, o P. Vieira teve mui bom talento; grande facilidade para se-explicar; falou mui bem a sua lingua; e nas suas cartas é autor, que se-pode ler com gosto, e utilidade. Quanto aos sermoens, e orasoens, deixou-se arrebatar, do-estilo do-seu tempo; e talvez foi aquele que com o seu exemplo, deu materia a tanta sutileza, que sam as que destruem a Eloquencia. Nos-seus sermoens, nam achará V. P. artificio algum retorico, nem uma Eloquencia que persuada. Muitos, que gostam daquelas galantarias, lendo-o sairám divertidos: mas nenhum omem de juizo exato, sairá persuadido delas. Sam daquelas teias de aranha, bonitas para se-observarem, mas que nam prendem ninguem. Eu comparo esta sorte de sermoens, aos equivocos: que parecem bonitos, quando se-ouvem a primeira vez; mas quando se-examinam de perto, nam concluem nada. Porque finalmente se V. P. le os tais sermoens, e examina as provas e artificio delas; verá muitas coizas, que cheiram a Metafizica das-escolas: mas nam achará alguma, das-que asima aponto, como necesarias. Os exemplos que asima apontei, sam comumente tirados, dos-seus sermoens: e com eles à vista, poderá V. P. conhecer, quantas coizas eu deixei, que podia apontar. Se pois isto se-chama pregar, e pregar bem, eu o-deixo considerar, aos dezapaixonados.

O dezejo que o P. Antonio Vieira, em quazi todos os sermoens mostra, de agradar ao Publico, ainda quando às vezes o-critica; deixa bem compreender, que se-conformava muito, com o estilo corruto do-seu seculo. Tinha ingenho, imaginasam fecunda, e deixando-se conduzir, do-impeto do-seu fogo, ou talvez procurando de excitar em si, uma especie de entuziasmo; rompia nas primeiras ideias, que lhe-ocorriam; que sempre eram sutis, polo costume que tinha, de ideiar asim. Eu falo com V.P. que tem grande noticia dos-ditos sermoens, em virtude da-qual conhece, com que razam eu-digo isto: que se-faláse com outro, serîa mui facil, provar tudo quanto escrevo. Mas nam poso deixar de insinuar, que a maior prova do-que proponho, é a sua decantada obra, Clavis Prophetarum: de que nos-dá uma ideia, no-livro que intitula, Istoria do-Futuro. Neste livro acha V.P., uma chimera mui bem ideiada, e que a ninguem mais ocorreo. Promete provar primeiro, que á-de aver no-mundo, um novo Imperio: mostrar, que Imperio á-de ser: determinar, as suas grandezas e felicidades: explicar, por-que meios se-á-de introduzir: individuar, em que terra, em que tempo, e em que pesoa á-de comesar este Imperio[73]: o qual á-de ser tam grande como todo o mundo, sem iperbole, nem sinedoche[74]. Prova isto, segundo diz, com uma profecia de S. Frei Gil: com o juramento d’El-Rei D. Afonso: e com outras provas deste calibre. Diz tambem, que a maior parte, á-de sair da-Escritura; na qual estam reveladas, todas estas coizas. Quanto ao Imperador, aindaque claramente o-nam-explica, dá muito bem a intender, que sairá de Portugal; porque aos Portuguezes é que propoem, estas felicidades. Alem disto em outra parte[75] declara mui bem, que este Imperador será o filho primogenito, do-Serenisimo Rei D. Pedro II. e pretende proválo com os mesmos fundamentos, com que prova o Imperio, na Istoria do-Futuro. E nas cartas que escreve, a algumas pesoas, lhe-explica, que as felicidades de Portugal, estam muito vizinhas.

Eu nam entro aqui a disputar, se estes fundamentos, (nam falo das-Escrituras, pois é loucura persuadir-se, que falam em tal materia) sejam bastantes, para afirmar tal paradoxo: é bem claro, que isto tem aparencias de comedia; e bem parece obra feita, para divertir o tempo. Mas aindaque fose verdade, que as conquistas feitas, estivesem tam distintamente profetizadas, na Sagrada escritura; e despois do-suceso se-intendesem; fica em pé a dificuldade, de tirar da-Escritura, as conquistas futuras, deste novo Imperador. E quanto aos expozitores que ele aponta, e às profecias destes modernos, em que se-funda; creio nam faremos injuria ao P. Vieira, se nos-rirmos de todas estas provas, esperando, que as-procure mais fundadas. Mas o que digo a V.P. é, que na dispozisam deste livro preambulo, se-ve o estilo do-P. Antonio Vieira: porque tudo prova com a Escritura. Ainda as coizas mais triviais, as profanas, e a mesma justisima exaltasam de D. Joam IV. ele as-quer provar aos Espanhoes, com as Escrituras. O pior é, que pola major parte, funda-se em palavrinhas da-Vulgata. E este é mui mao modo de interpretar: porque nam tendo Deus falado em Latim, mas em Ebraico, Caldaico, e alguma coiza em Grego; é necesario saber estas linguas, para alcansar, a verdadeira inteligencia do-original. Sem estas preparasoens, nenhum interprete se-mete a dizer, coizas novas: mostrando a experiencia, que comumente se-inganam, e só podem dizer, sutilezas pouco sofriveis.

E eu creio que nam sam mui toleraveis, as que ele aqui escreve: observando-se suma contrariedade, na interpretasam que dá, aos seus mesmos fundamentos. Umas vezes, a decimasexta gerasam, é o Cardial Rei D. Enrique:[76] e ainda lhe-faz a merce, de nam contar a vida d’El-Rei D.Alfonso I. que cuido devia ser o primeiro, no-catalogo. Outras vezes, a decimasexta gerasam é D. Joam IV.; e D. Pedro II. é a prole atenuada[77]: e como ao dito Rei nam se-pode aplicar, a palavra atenuada; procura aplicála a seu filho, o Principe entam nacido. Eisque morre o tal Principe ainda menino: Neste cazo o noso interprete excogita a saida, de lhe-ir dar no-Ceo, a investidura do-Imperio[78]: e comesa com outra metafizica pior, que a primeira. Finalmente despois de muitas observasoens, fica desmentida a verdade, do-juramento d’El-Rei D. Alfonso: e o Imperio do-mundo, que tam claramente estava profetizado, e prometido ao tal Principe, lá vai polos ares: e nem menos á aparencia, que se-torne outra vez a restablecer: pois do-tempo em que ele escrevia até este, vam bons 80. anos; e ainda nam vemos aparencias diso. Eisaqui tem V. P. o que sam todas estas chimeras, da-Istoria do-Futuro; e das-coizas que tem parentesco, com ela.

Ora estas sutilezas do-P. Vieira, cuido que tem arruinado, muita gente: porque formando grande conceito, do-seu talento; o-imitáram tanto à letra, que nada agradou, que nam cheiráse ao mesmo estilo. Ja é coiza muito antiga, que em materia de literatura, um omem seja o treslado, para que olhem os outros do-seu tempo. Quando em uma Cidade um sugeito consegue, fama de eloquente, os outros o-imitam; e às vezes por-seculos inteiros, se-conserva o mesmo estilo[79]. Aquele Seneca a quem chamam o Filozofo, nam se-duvida, que tinha grande ingenho, e doutrina: mas querendo-se singularizar; entre os antecedentes, comesou a fazer um estilo tam florido; que foi a primeira cauza, de se-perder o bom gosto da-Eloquencia, que reinára no-tempo de Augusto. Multæ in eo claræque sententiæ: (diz um Orador grande) multa etiam morum gratia legenda: sed in eloquendo corrupta pleraque: atque eo perniciosissima, quod abundant dulcibus vitiis. Vettes eum suo igenio dixisse, alieno judicio. nam si aliqua contempsisset, si parum concupisset, si non omnia sua amasset, si rerum pondera minutissimis sententiis non fregisset; consensu potius eruditorum, quam puerorum amore comprobaretur[80]. Palavras que me-parecem cortadas, para o P. Antonio Vieira: do-qual creio que se-pode dizer, que se, servindo-se do-seu ingenho, seguise outro estilo; serîa um grande omem: quando porem nam se-ocupáse com o argumento, da-Istoria do-Futuro.