E daqui compreenderá V.P. que conceito se-deve formar, daqueles muitos epitetos, com que os apaixonados o-louvam. Chamam-lhe, Mestre do-pulpito: Principe dos-Oradores: Mestre universal de todos os declamadores Evangelicos: Aguia Evangelica: e mil coizas destas. Outros lem as suas obras de joelhos, em sinal de respeito: e á omens de tam pouca considerasam, que imprimem estas noticias[81]; e nam se-envergonham de dizer, Que o mundo sem contradisam, lhe-deo a coroa, de Principe dos-Oradores. Mas este censor, que nam fez maior jornada, que de Lisboa a Madrid; nam era juiz competente, nesta matéria: nam só, porque tinha visto pouco mundo; mas porque tendo somente conversado, com os que liam o Vieira de joelhos; e nam sendo a Eloquencia, e belas Letras profisam sua, segundo mostra; tinha impedimento dirimente, para votar com acerto. Isto pois que digo destes, aplico a todos os outros. Criados com o prejuizo, de que o Vieira foi, um grande Orador; e ouvindo sempre repetir isto aos velhos, que bebèram aquela doutrina; nam é maravilha, que digam tantas coizas dele, e que o-imitem tam cegamente.

V.P. pode fazer uma experiencia, que eu ja fiz, e vem aser: quando ouvir a um destes, gabar muito o Vieira, e louválo com alguns dos-ditos epitetos; fasa-me a merce de lhe-proguntar primeiramente, emque consiste ser grande Orador: despois, que lhe-explique, que qualidades oratorias sam, as que excedem no-P. Vieira. Se lhe-responder bem ao primeiro ponto, estou certo, que nam responderá ao segundo: mas a experiencia mostrará, que o primeiro nam terá resposta. Eu aindaque nam costumo ofender ninguem, e muito menos na sua cara; achando-me porem com certa pesoa, que me-dise maravilhas do-tal autor, rezolvi-me a fazer-lhe esta progunta. Leu V.M. bem as obras de Lysias, Isocrates, Iseus, Demostenes, Eschines, Teofrasto, e Cicero, e tudo o que á de bom na Antiguidade? observou miudamente as delicadezas, e singularidades daqueles; e a diferensa que se-acha entre eles, e Plinio, e alguns outros mais inferiores, como Nazario, Auzonio, Pacato &c.? leu os antigos Retoricos, Aristoteles, Cicero, Quintiliano &c. ou algum destes modernos, que deram belisimos preceitos, como Vossio, Cavalcanti, e Platina: e outros que nas suas orasoens os-executáram, como Policiano, Mureto, Vavaflor, Cuneo, Gravina, Paolino, Politi &c.? Diz, nam senhor. Pois sem tais preparasoens, conclui eu, nam entro em discurso com V. M. sobre estas materias, porque nos-nam-intenderemos. Onde vem V. P. a conhecer, que as aprovasoens destes omens, nam devem fazer forsa a ninguem, para reconhecer por-grande Orador, o P. Vieira.

Eu que tenho visto mais algum mundo: e falado com bastante gente douta: e conhecido em Roma omens, que tinham tratado, com os que ouviram o P. Vieira: nam achei nada doque ouso dizer dele. Bem sim, que foi um Religiozo estimavel, polas suas prendas, e virtudes: o que tudo pode estar, sem ser mestre dos-Oradores. Falei com muitos Religiozos da-Companhia, que tinham dele perfeita noticia; e me-faláram como de um omem, que era estimado em Portugal, mas nam em Roma. Acrecente V.P. a isto, que muitos opusculos do-Vieira, foram compostos em Italiano: e até os mesmos sermoens se-acham traduzidos nele, por-um seu apaixonado, ao menos um tomo que vi á anos: e asim pode-se julgar, com todo o conhecimento da-materia. Vejo sim, que os mesmos Jezuitas, e todos os omens doutos, reconhecem o merecimento, do-P.Paulo Segneri Jezuita, e de varios outros Oradores damesma, e de diferente Religiam; que sam reconhecidos e venerados, como Oradores da-primeira esfera: e que tanto se-distinguem dos-sermoens do-Vieira, como o dia da-noite. De que venho a concluir, que quatro Portuguezes, ou Espanhoes, que dizem o contrario, nam podem fazer mudar de conceito, ao mundo inteligente.

Ainda nas suas mesmas cartas, que louvo, acho coizas que reprovar. Deste numero é a afetasam, de repetir em cada regra, o tratamento da-pesoa, com quem fala. Pois aindaque nos-discursos familiares, posa ter às vezes lugar iso; nas cartas, é enfadonho: e as pesoas, e Nasoens cultas, fogem todas dese vicio. Nem vale o-dizer, que em Latim se-costuma: porque na tal lingua, nam ofende os ouvidos; vistoque o tratamento comumente nam se-distingue, das-diversas inflexoens do-Verbo. Os nosos Italianos, que participam mais do-Latim, uzam da-palavra Ella, para evitarem aquela repetisam: e ainda esta com moderasam. E oje os que escrevem melhor, despois de darem o tratamento, uma ou duas vezes, ou em carta particular, ou prologo de livro; servem-se da-palavra Vostra, que se-refere a Alteza, Eminencia, Santidade, Excelencia &c. nam só porque esta Elipsi, nam prejudica, ao respeito que se-deve, aos Senhores grandes; mas porque sendo mais simplez e natural, é tambem mais nobre; e se-evita a ridicula afetasam de alguns modernos, chegando-se mais ao estilo, da-Antiguidade. E, valha a verdade, este periodo: Excelentisimo senhor, a excelentisima pesoa de Vosa Excelencia guarde Deus, como Portugal, e os criados de Vosa Excelencia avemos mister: com que o Vieira fecha muitas cartas, ao Marquez de Gouveia, e outras pesoas; nam se-pode ler sem nauzea: achando-se muitas vezes, em quatro regras das-suas cartas, cinco vezes Vosa Senhoria &c.

O segundo reparo caie, sobre a fetasam de muitos periodos, e cartas inteiras. O que o mesmo coletor delas nam oculta, quando diz, que muitas nam publicára, por-nam serem tanto naturais. De que eu cuido, nam se-pode produzir melhor prova, que a carta que o P. Argote publicou, nas suas Regras Portuguezas; e que é escrita ao Cardial Lancastro: a qual é composta naquele estilo, que chamamos dos-Seicentos. Basta ler o primeiro periodo: Com melhor saude que o ano pasado; e com menos vida, porque ele pasou: a segunda parte do-qual, é noticia mui digna, de se-mandar a um Cardial, porque é coiza mui recondita. O que se-segue no-segundo paragrafo, sam, Sepulturas do-segredo: resurreisoens da-confiansa: exequias no-templo do-dezingano: estatuas da-ingratidam, e coizas semelhantes, que oje tem ranso. E nam sei se se-pode perdoar, a um omem douto como o P. Argote, o trazer a tal carta, para exemplo de construsam facil, e boa locusam. Conheso, que muitas vezes as cartas damesma pesoa, nam sam iguais: ou porque algumas escreveo, quando era moso, e sabia pouco; ou porque as-fez muito em presa. Conheso isto, e o-perdoo: o que reprovo é, que o coletor nam soubèse separar umas, das-outras, impremindo as melhores.

E aqui noto incidentemente, que o que fez o prologo da-colesam, que eu ignoro quem fose, dise uma falsidade, quando afirmou; Que nas linguas vulgares, tem todas as Nasoens escritores, mas nam em grande numero, deste estilo. Eu lhe-poso nomiar, somente na Italiana, nam digo duzias, mas centos: publicadas muitos e muitos anos antes, que saisem à luz, as do-Vieira: e entre estes escritores, muitos de purisima locusam, e estilo inimitavel. E o que mais é de admirar, omens que tratáram as Ciencias, mas principalmente todas as partes da-melhor Filozofia; com tal clareza, propriedade, e metodo, que envergonham os Filozofos da-Escola: os quais, empregados toda a sua vida nela, explicam-se muito mal. Na lingua Franceza, á infinitos tomos de cartas, em todas as materias; e alguns famozos. Deixo a Ingleza, e Olandeza, nas quais sei que se-tem seguido, este estilo. Onde, nam avendo coiza mais uzual, que estes escritores; mostra-se o tal coletor, mui pouco informado do-mundo.

O terceiro reparo que faso é, sobre a Ortografia, que nada me-agrada. Nelas acho mui praticado aquele estilo, que se-deve desterrar, da-lingua Portugueza; e vem aser, a duplicasam escuzada, de muitas consoantes; e mil outras, que na minha primeira carta mostrei a V. P. que nam deviam seguir, os omens doutos. Onde persuado-me, que neste particular, tam longe está de ser omem insigne, que eu o-nam-porei por-exemplar, a um principiante.

Ora eisaqui tem V. P. que as mesmas cartas do-Vieira, que eu julgo serem a sua melhor obra; aindaque tenham muita coiza boa, sejam facis, e as palavras nam sejam más; contudo, nam merecem aqueles cegos, e encarecidos louvores, que lhe-dam estes apaixonados: os quais ou estam preocupados, polas mesmas opinioens; ou julgam por-cabesa alheia; e nunca tiveram a paciencia, de examinar bem a materia. Defeito mui antigo nestes censores: que aprovam os livros comumente, sem os-lerem: e nam se-contentam de aproválos, mas os-elogiam, e tam encarecidamente, que perdem toda a fé. Deixo aos omens de melhor juizo, fazer a analize das-tais obras, com mais tempo, que eu nam tenho.

Mas eu ja vejo, que me-tenho aberto muito com V.P. o que fiz, confiado na nosa amizade. Certamente nam disera tanto com outro: pois sei certamente, que quem nam tiver examinado isto, me-terá quazi por-louco. Eu sempre fugi, desta sorte de conversasoens, com pesoas que sabem pouco: porque me-ensina a experiencia, que se-perde o tempo, e o conceito. Mate-me Deus com gente, que me-intenda: e que me-nam condene, sem perceber as minhas razoens, e responder a elas. Porque aquilo de reprovar um escritor, somente porque impugna os defeitos, de que eu gosto; sem ter o sofrimento de examinar, as dificuldades que propoem; aindaque seja uzo mui comum, nam sei porem se é concludente. Emfim com V.P. nam á este perigo: porque eu sei muito bem, que ao seu talento, nada se-encobre: e que mais para exercitar o seu juizo, doque para aprender alguma coiza nova, é que tem a bondade, de me-consultar.

Mas sempre devo declarar-lhe, que o juizo que formo das-obras, do-P.Antonio Vieira; deve ser intendido, com todo o respeito devido, à sua memoria. Eu estimo muito este Religiozo, polas suas virtudes, e capacidade. Vejo nas suas cartas retratado, um animo grande: um dezinterese nobre: uma viva paixam polos aumentos do-seu Reino: e ardente dezejo de se-sacrificar por-ele: e, para nam ocultar coiza alguma, vejo a suma ingratidam dos-seus nacionais, que conrespondèram a tantas finezas, com asoens indignas: e nam só nam souberam estimar, tam grande omem, mas pozitivamente o-opremîram, e a sua familia. Estas circunstancias todas mo-pintam, mais estimavel: e se eu vivèse no seu tempo, serîa o seu maior amigo. Deve tambem o que digo intender-se, sem a minima ofeza da-Religiam da-Companhia: a qual tem produzido, tantos omens grandes neste genero; que sem dor alguma pode ouvir declarar, que um dos-seus Religiozos, nam iguala, nem chega, à gloria de muitos outros: o que provèm menos do-talento, que do-infeliz estilo daquele tempo, que nam conhecia, outro gosto de Eloquencia. Damesma sorte que Plinio Cecilio, aindaque tivese talento, e indole insigne; nam pode menos que participar, do-estilo do-seu seculo; que degenerava muito, da-magestade da-primeira Eloquencia. Unicamente devo advertir isto a V. P., para justificar o meu proceder, contra aquela acuzasam, que me-podiam fazer aqueles, que, ouvindo-me falar d’eloquencia Portugueza, visem que nam citava, o P. Vieira.