Assim brada uma voz, e vigorosos Montam nove o batel, que a sombra escura Dos salgueiros encobre, que viçosos A orla adornam da corrente pura: Oito aos remos se lançam pressurosos, Em quanto o Chefe empunha a cana dura, Guiando a barca, que qual seta vôa Ao mourisco batel, que tem na prôa.

«Nazarenos!... na lingua arabia grita A gente do batel sobresaltada. «Nazarenos» bradando, esforça, excita O maioral a gente ao remo usada. «Leva remos p'ra já, raça maldicta, «Rendei-vos, perros, ou ireis á espada, Gritam da barca, que veloz singrando Vai o batel dos mouros alcançando.

«Lança o croque, a fateicha, afferra, atraca, «Que não possa escapar-se a gente infida, Brada o Chefe Christão, que prompto ataca O batel que desiste da fugida. Por defende-lo o mouro a espada sacca, Trava-se atroz peleija tão renhida Nos barcos afferrados, qual na terra Soe tenaz mostrar-se a horrivel guerra.

Do christão bando ao impeto primeiro Dos infieis o barco fôra entrado, Não sem que tres christãos o derradeiro Termo houvessem nas aguas encontrado; Mas logo, atraz dos bancos do remeiro, Peleija o bando mouro intrincheirado Como quem não curando já da vida Antes do que captiva a quer perdida.

Brilha no ár vibrando a espada núa, Penetra pelas armas a estocada, Céva no roxo sangue a raiva crúa Do talhador alfange a cutilada. Nenhum pensa em ceder, nenhum recúa Em quanto a força em sangue derramada Ao braço não fallece, e a mão pendente Não deixa o ferro matador jacente.

Já dos nove christãos que accommetteram Tres a morte nas aguas encontraram, Cinco do peito aberta a vida deram Que á estocada os mouros lhe arrancaram; Mas as vidas bem caras lhes venderam Que oito tambem dos perros expiraram, E dos sete que restam, tres feridos Vão a vida exhalando entre gemidos.

Mas o Chefe Christão só no perigo Crescer sente o valor co'horror e estrago, Qual raio abrazador sobre o inimigo Cahe, bradando em voz alta «San-Tiago. Morte, espanto, e terror leva comsigo, Faz-se o batel de sangue um bruto lago, Onde o maioral mouro acaba a vida E o Christão Chefe a dextra tem ferida.

Dos mouros uns ao ferro a vida entregam Outros da barca pavidos saltando Escapados á morte á margem chegam Com o sangue as puras aguas maculando. Assim ao só Ruy a barca legam, Que era elle o que indomito pugnando Tinto no proprio sangue generoso De tantos triumfára valoroso.

Ruy, que junto aos muros de Leiria, Principal instrumento da victoria, O que perdêra em paz, e em alegria Co'indomito valor ganhára em gloria, Que Affonso prezador da valentia, Conservando seus feitos na memoria, Quando á mão de Mafalda a mão ligára Com pompa augusta Cavalleiro armára,

E depois, quando o genio seu guerreiro A empreza concebeu agigantada De surprehender com bando aventureiro, Com imprevista, subita escalada, O sitio forte, erguido, e sobranceiro, Onde a Virgem Irene sepultada Do Téjo, que soberbo aos mares vem, Por milagrosa campa as aguas tem,