Para que gente moura, ou rica preza Com mais difficuldade lhe escapasse, De Ruy commettêra a gentileza Que nas margens do Téjo se emboscasse, E com a usada, indomita braveza Qualquer batel no rio lhe tomasse P'ra que os de Agar vencidos não sentissem N'agua ou terra por onde lhe fugissem.

Com animo esforçado o bravo moço Assim cumprido o real mando havia, E dos mouros com o barbaro destroço Das feridas o sangue confundia. Da desigual peleija o alvoroço Que de Ruy dobrára a valentia Cessado tinha, e o braço seu ferido Sente com o corpo já desfallecido,

A ferida estancar em vão procura Co'a mão esquerda o Joven animoso, Que a mão, co'a dôr pungente mal segura, Recusa o ministerio caridoso. Do sangue á perda emfim cede a natura, Succumbe á dôr o moço vigoroso. Seu corpo sob as armas desfallece, Cahe prostrado na barca que estremece.

Mas antes que do Téjo na corrente Fosse a ordem real executada, Pelo ardente valor da christãa gente Com temerario arrojo era assaltada De Santarem a arce, que imprudente, E no escarpado accesso confiada, De Hauzeri sob o mando, que a regia, O poder dos de Christo escarnecia.

Meias adormecidas, sem cuidado As vélas sobre o muro mal vigiam, Quando a escada fatal alevantado Tem o nobre Moniz, que os mais seguiam. Acorda tarde o mouro alvoraçado, Que os confusos clamores desafiam, Que os Christãos da muralha já senhores, Em breve as portas entram vencedores.

De Affonso no poder cahiu dest'arte Aquella, que no cume se assentava, Soberba dominando a toda a parte A campina feliz, que o Téjo lava. Inutil foi p'ra o mouro circumdar-te De fortes torreões, co'a gente brava Procurar preservar-te e defender-te, Se uma noute bastou para render-te.

Noute cruel e horrivel, em que o córte Da espada anniquillou a audacia tua! Em que a tyranna, despiedada morte A fome saciou barbara e crúa! Em que rios de sangue por tal sorte O fio fez correr da espada núa, Que apenas a seus golpes escaparam Tres, que o fugido alcaide acompanharam.

De Sevilha em alta torre O Rei mouro está sentado: D'alli co'a vista discorre Pelo campo dilatado Que o Guadalquivir percorre.

Eis que p'ra banda do rio Quatro vê vir cavalgando. Um dos quaes o senhorio Parece que tem do bando, Que segue o seu alvedrio.

Vem todos de pó cobertos, Os ginetes vem cançados, Mostras claras, signaes certos De marchar afadigados Mostram aos olhos expertos.