Por Deus!» o Rei mouro brada-- Do presago coração O agouro não me agrada! Trazem nova de afflicção Esses que vejo na estrada.
Aquelle que vem na frente No cavallo mais formoso, É Hauzeri certamente, Que contra o Christão fogoso Accode a pedir-nos gente.
Pelo Profeta vos digo, Que se agua aos brutos não dão Santarem está em perigo De em breve cahir na mão Do Christão nosso inimigo;
Porem se a sêde que tem Aos corceis deixam matar, É tomada Santarem, E a nova funesta a dar Fugitivo Hauzeri vem!»--
Mal do Rei mouro acabavam Os discursos agoureiros, Que logo ao rio chegavam Os cançados cavalleiros E beber aos brutos davam.
Não tarda que desmontado Ante o mouro commovido Tivesse Hauzeri narrado O desastre acontecido, O caso desventurado.
Como Affonso se partira Com sua bellica gente, Como a marcha lhe encobrira, Sobre a villa confidente Como inesperado cahira:
Como as vélas surprehendidas São no muro degoladas, As escadas erigidas, As muralhas assaltadas, E as fortes portas partidas:
Como a gente, por tal sorte De susto e trevas tomada, Ou passa do somno á morte, Ou corre desacordada Encontrar da espada o córte:
Como emfim, perdida a esperança, Da arce os Christãos senhores, Cevando-se na matança, Se esquivára aos vencedores, A buscar prompta vingança,