E das aguas confiando A filha, que preservára Com tres só, dos de seu mando, Pr'a elle Rei caminhára Submetter-lhe o caso infando.

Assim os mouros souberam De Irene os muros tomados; Grande terror conceberam, Ao vêr a quanto arrojados Os de Christo se atreveram.

Porem do Téjo á placida corrente; As barcas sem governo abandonadas, Pouco a pouco do rio brandamente Foram ás verdes margens encostadas: Das aguas no remanso mollemente, De verdes espadanas rodeadas, Com o descer da maré firmes ficaram E no lado bojudo se inclinaram.

Á luz volve Ruy, renasce á vida; Mas qual surpreza, qual doce portento! Já não goteja o sangue da ferida, Já o não punge a dôr e sofrimento; Ao recobrar a sensação, perdida Do sangue no espectaculo cruento. Abre os olhos, contempla a formosura Que qual sonho perdera na espessura.

Em vez da scena barbara horrorosa, Onde á força da dôr ficou jacente, Volve a si, reclinado na viçosa Relva, que esmalta a borda da corrente. Co'escudo, e lança, a espada bellicosa Dos ramos de um salgueiro está pendente, E a matutina brisa fresca, e pura Junta o sussurro ao da agua que murmura.

Jaz a seu lado o elmo desprendido, Do duro peso a frente libertada; O peito, antes das armas opprimido. Livre a aura respira embalsamada; Com tella delicada está cingido O braço, que ferira imiga espada, E a linda moura, lagrymas chorando, Lhe está no seio a frente sustentando.

«Visão!... visão do Ceo, sem pár encanto «Inefavel prazer, que me aviventas, «Doce illusão de amor!..... mas esse pranto «Suspende, ah sim, com elle me atormentas. «Nesse rosto tão bello, puro, e santo, «Com cujo aspecto a vida me sustentas, «Deixa vêr um sorriso, um gesto amante; «Vê-lo sequer n'um derradeiro instante!

«Ah deixa que em meus braços amorosos «Aperte a imagem que p'ra mim é vida; «Que unidos n'um só ser, ambos ditosos «Nossa essencia vejamos confundida! «Ah Fatima, dos dias meus ditosos «Delicias e prazer, Virgem querida, «Ja não ha quem de mim possa apartar-te «Tu das-me a vida, vivo só p'ra amar-te!

Disse Ruy: e a Moura, a quem a ardente Força de um terno amor vence e domina, Sobre o peito do amante a linda frente, Desfeita em meigo pranto, amante inclina. Ruy no peito a aperta vehemente, Triumfa amor, amor só predomina!..... Quando a barca de subito estremece, Co'a luz do raio a margem resplandece.

Retumba do trovão o som tremendo, Da distante montanha os echos gemem, Do rio a calma subito rompendo Na borda antes tranquilla as aguas frémem. Á Virgem delirante o choque horrendo A razão restitue; seus membros tremem, Arranca-se assustada espavorida Dos braços com que o moço a tem cingida.