«Suspende, ah sim suspende, ó bem amado, «De ti me afasta a propria natureza. «Não contemplas o Ceo de horror toldado, «O rio, o campo envoltos na tristeza. «Foge Christão, que o meu funesto fado, «Sem igual nos rigores, na dureza, «Não me fez para ti, nem consentíra «Que amor em doce laço nos uníra.

«Foge, oh Christão invicto, e generoso, «A quem prouvéra ao Ceo que ora não visse; «Mas já que fez teu braço poderoso «Que em teu poder segunda vez cahisse, «Que a teus olhos meu peito o desditoso «Amor sem esperanças descobrisse, «Só te resta fugir sem mais demora «Quem, por seu mal, e por teu mal, te adora.

Isto a Moura dizia; mas o amante Nem o trovão, nem seu carpir ouvia, Transportado de amor, e delirante De novo a moça com ardor cingia. De virginal rubor tinto o semblante Fatima seus transportes combatia; Mas a modestia mais lhe agrava a sorte; Que o amor de Ruy torna mais forte.

Combate ainda em pranto suffocada, Ora emprega o rigôr, ora a ternura, Ora Ruy argue com voz irada, Ora lhe pinta a extrema desventura, Cego o moço prosegue...... quando alçada De repente ante os dois surge a figura, De Ruy á memoria não estranha, Do venerando Ermita da montanha.

O mesmo era, que alli achado havia Na piedosa oração todo engolfado, A mesma longa barba lhe descia Sobre o peito, no vulto magoado Outra expressão porém ora se lia, E com semblante triste mais que irado, Do insano mancebo a mão tomando, Lhe diz com tom de voz sereno e brando.

«Tu, filho de Ruy, tu de seus feitos «Assim procuras igualar a gloria? «Assim do Pai os ultimos preceitos, «Filho ingrato, conservas na memoria? «Á Mãi, que o ser te deu, nutrio aos peitos, «Foi esta a promettida alta victoria, «Quando do martyr Pai armas sagradas «Te entregou de seu sangue inda esmaltadas.

«Julgas-te generoso, porque a vida «Nos campos das peleijas arriscaste, «Porque valente e audaz da gente infida «Na dura guerra o impeto domaste, «Porque esta moça só, desprotegida «Nos conquistados muros preservaste; «Mas, quando, oh moço audaz, assim fizeste, «De imperio sobre ti que prova déste?....

«Tu, que esquecendo as leis de cavalleiro, «Quando uma Virgem timida, innocente, «Acaba de salvar-te o derradeiro «Sopro da vida, a teu desejo ardente, «Sem respeitar seu desamparo inteiro, «Buscas sacrifica-la impaciente, «Abusar da imprudencia e juventude; «Que assim curas da honra e da virtude!

«Mas Deus a protegeu, o o ceo piedoso «Que guardada lhe tem mais nobre sorte «Soube arranca-la ao moço impetuoso «Que ella arrancado havia ás mãos da morte. «Dóma, oh mancebo, o genio teu fogoso, «Sabe ás paixões oppor uma alma forte, «Que em vão procura a honra e busca a gloria «Quem aos desejos seus cede a victoria.