«Sabe não tarda a hora que ha marcado «A eterna, e insondavel Providencia «P'ra que d'ella, e de ti se cumpra o fado, «Que não pode prever mortal prudencia, «Mal de quem, com seu sopro envenenado. «Pertender profanar essa innocencia! «Mal de ti, se a cumprir te não dás préssa «Do ceo a ordem, que por mim se expréssa!

«Não distante d'aqui, na opposta margem «Um barco mouro o Téjo vem subindo, «Procura Santarem sua viagem, «Um irmão de Hauzeri vem conduzindo; «Saia-mos-lhe ao encontro na passagem, «Da nova aquelles mouros instruindo, «Volverão, esta Virgem lhes daremos, «E assim a Lei sagrada cumpriremos.»

Fallando assim, do Ermita venerando A voz era solemne, e magestosa, Via-se a frente calva circumdando Uma aréola clara e luminosa; Subjugado Ruy cede a seu mando, Já na agua nada a barca pressurosa, Já, proximos da opposta ribanceira, Sentem remar dos mouros a bateira.

Porem ao som do remo, que devia Para sempre talvez roubar-lhe a amada, No coração do moço renascia A tempestade apenas abafada; Se co'amor o respeito combatia, Não dura a luta na alma apaixonada, Cede o respeito, e o moço exasperado Ao velho falla assim com gesto irado.

«Quem, oh velho agoureiro! dependente «Coustituiu de ti o meu destino?.... «Vate de malles, barbaro inclemente, «P'ra que simulas leis do ceo benino?..... «Vai, cessa de ligar teimosamente «A minha sorte ao fado teu mofino, «De perseguir meus dias, de insultar-me, «E co'escuro provir de ameaçar-me.

«É tua de Hauzeri acaso a filha?.... «Acaso nos combates me ajudaste?.... «Este braço, esta espada que aqui brilha «Acaso foste tu que os animaste?... «Esta de amor suave maravilha «Acaso foste tu quem a salvaste?... «Não. Entrega-la a barbaros imigos «Só sabes querer, e expo-la a novos perigos.

«Ah! se longe de tudo á dôr votado, «Aborreces o mundo, e seus deveres, «Volve ao ermo dos homens sequestrado, «Céva na solidão teus desprazeres, «Não venhas com teu halito empestado «Murchar da vida a flôr aos outros seres, «Nem blasfemes o ceo, querendo que eu veja «Desleixada, a que o ceo quer que eu proteja.

«E póde querer o ceo, que eu a innocencia «Nas mãos dos infieis de novo entregue, «Que Fatima infeliz da Fé na ausencia «O Deus que a protegeu blasfeme e negue?... «Póde querer, que a abandone sem clemencia «Ao funesto destino que a persegue?.... «Não, não póde tal querer; nem separado «Soffrerei ser de um bem que o ceo me ha dado.

«Aparta-te de mim tu que o projectas, «Aparta-te de mim, antes que iroso «Pelas expressões tuas indiscretas «Me leve o sangue a extremo perigoso! «Ao zelo que por mim, por ella affectas «Prestes pôe termo, foge pressuroso, «Deixa-me, oh velho insano, ao meu destino, «Poupa-me algum funesto desatino!

Immovel, qual rochedo, o velho Ermita Do mancebo os transportes escuitava, A compaixão, que seu penar lhe excita, No gesto enternecido se mostrava. Pallida, e sem alento a moça afflicta Aos ceos os lindos olhos levantava, Como quem do poder soberano e forte Submissa, e resignada espera a sorte.