N'isto do batel mouro percutida É a barca do remo abandonada: N'agua mergulha a borda, compellida Do veleiro batel pela pancada. Aquella vê Ruy, que lhe era vida, No rio desparecer precipitada, Grita, lança-se ao rio a soccorre-la, Mergulha em vão, em vão quer recolhe-la.

Mas o braço do Ermita mysterioso Fatima sobre as aguas amparando Longe a leva do amante impetuoso, Que em vão a está nas aguas procurando, Clama ao batel dos mouros pressuroso, E a filha de Hauzeri prompto entregando, Volve a Ruy, arrastra-o da corrente, E desparece á vista em continente.

FIM DO QUARTO CANTO.

CANTO QUINTO.

Quaes no profundo reino os nus espritos Fizeram descançar de eterna pena C'uma voz de uma angelica Sirena

Camões, Lus., C. 10.º, E. 5.ª

agaroso vem marchando Na vereda um cavalleiro, Nobre ginete montando; Traz o rosto do guerreiro, Que a vizeira alevantada Deixa contemplar inteiro, Co'a acerba dôr concentrada Negra sombra de tristeza Profundamente gravou.

Dos olhos seus a viveza Apaga a melancholia, Da intensa magoa a dureza. Tormento de mais de um dia, Froixa luz de escaça esperança Se lê na fisionomia. Pena, que a velhice avança, Infausta paixão ardente Causas são de tal mudança.