Como o tronco florescente, Que ha pouco altivo, e frondoso Ornava a selva virente, Que o furor do vento iroso Rebramando enfurecido Desafiava orgulhoso, De insecto voraz roido Na raiz que o alimenta, Murcho abate o cume erguido, Alta a copa não sustenta, Perde da folha a verdura, Que a seiva não alimenta, Guarda só do lenho a altura, Merencorio documento Da perdida formosura; Assim, desde o atroz momento Que Fatima lhe roubou, Com saudade, amor, tormento De Ruy o ser mudou.
No fundo d'alma Do triste amante, Nem um instante Ha tregoa e calma. Pena incessante Que nada acalma. Cada dia com o tempo reforçada, Lhe consume a existencia desgraçada.
Já, qual soía Quando ditoso, Não impellia O bellicoso Da Andaluzia Filho fogoso Apoz o corredor que a lebre alcança, Ou o gamo leve, que no campo avança.
Lá no torneio Já não brilhava, Marcio recreio, Que outr'ora ornava De audacia cheio, Onde arrancava Dextro e valente o premio em nobre luta; Tanto a amarga tristeza a alma lhe enluta!
Mesto, isolado, Ermos outeiros Corre, apartado Dos cavalleiros; Só animado Entre os guerreiros Se mostra ainda em frente do inimigo, Quando a tuba guerreira o chama ao perigo.
Ignora o infeliz qual seja a sorte D'aquella por quem só lhe é cara a vida, D'aquella sem a qual da espada ao corte A existencia quizera ver perdida. Nas aguas a deixára entregue á morte, Nas aguas víra a Virgem submergida, Longe d'ella com força irresistivel Arrebatado n'esse instante horrivel.
Do agoureiro Ermita a milagrosa, Subita apparição, prompta partida, A aréola da frente luminosa, A antiga prophecia d'elle ouvida: A lembrança da Mãi terna e saudosa, Do martyr Pai a ultima ferida, Seus preceitos, legados á consorte, Sellados pela fria mão da morte.
As palavras do Ermita, os seus furores Contra elle, tão prompto castigados; Seus primeiros desejos, seus ardores Pelo ceo, como acinte, perturbados; Os olhos de Fatima encantadores, Quaes por ultimo os vira aos ceos alçados, A angelica expressão do seu semblante, Tudo a Ruy se pinta em cada instante.
O socego na noute em vão procura, Foge o somno a seus olhos vigilantes; A incerteza, entre as penas a mais dura, Se afferra, roaz cancro, a seus instantes; Se ao cançaço a final cede a natura, Entre um tropel de sonhos delirantes Vagando sem cessar o pensamento, Em logar do repouso acha o tormento.
Tal era o miserando, infausto estado De Ruy, que ao acaso caminhava, Só, distante dos seus, e confiado No valor, que a desdita não coarctava; Não distante do muro alevantado, Que a maura gente ainda povoava, Na montanha, que surge graciosa, Qual no deserto a oazis frondosa.