Em frente do mancebo se estendia Prodiga de bellezas a natura: Da primeva, robusta penedia A variada, asperrima structura, Que em agulhas, em picos se erigia, Varios na massa, varios na figura, Erectos estes, estes inclinados, Selvosos uns, os outros despojados.
Ruinas da vetusta natureza, Monumentos de um mundo transpassado, Culminantes elevam núa a aspereza Os cumes de granito descarnados; Em quanto, circumdando a redondeza Das fraldas, se divisam cumulados Das destruidas rochas os fragmentos Attestando o poder dos elementos.
Alli a aerea marcha pressurosa Pára a nevoa do vento saccudida, Alli pára a procella magestosa Nas enroladas nuvens envolvida, A lymfa alimentando, que abundosa Dos penhascos nas veias repartida Surde em cascatas, em limpidas fontes, Em arroios gentis desce dos montes.
Lá se veem de granito á massa ingente Do chão calcareo as zonas encostadas, Áquem e álem partidas variamente, Jazer rotas, confusas, deslocadas; Quaes se de interno esforço e de repente Nos fundos alicerces abalados Como involucro fragil rebentassem, E ao novo serro o dia franqueassem.
Mais abaixo porem ledo se estende O selvatico manto de verdura, Onde o bafo do estio nunca offende A flôr mimosa, amante da frescura, Onde da hervosa penha se desprende Com murmurio suave a fonte pura, E a mil viçosas plantas succos dando Saudosa corre entre ellas serpejando.
No valle agreste e umbroso o medronheiro O rubicundo fructo tem pendente Á sombra do robusto castanheiro, Cuja folha intercepta o sol ardente; O carvalho frondoso, o alto olmeiro Cinge a hera lustrosa estreitamente; Do pinheiro co'as copas elevadas As massas de verdura são coroadas.
Na solidão do bosque as tenras aves, Incolas primitivas da floresta, Chamam a vida co'as canções suaves Musica natural que amor empresta; Respondem-lhe de longe os tons mais graves, Merencoria harmonia lenta e mesta Das ondas, que escumando entre os penedos Batem da roca os asperos rochedos.
De Alboracim as aguas misturando Do salso mar co'as vagas amargosas, De um lado corre o Téjo, saudando Por derradeiro as praias arenosas; Vão-se do outro os olhos alongando Pelas tumidas ondas procellosas, Que com o tempo sulcarão triumfantes Saudando o patrio sólo as náos ovantes.
Ainda então sobre a penha virente Orientaes trophéos não consagrára De Diu o vencedor, nem o eminente Excelso pico a torre rematára; Inda a pedra lavrada artistamente O Alcacer real não levantára; Nem a limfa liberta conhecêra A marmorea bacia, que a prendêra;
Inda a riqueza então não erigira Do prazer a morada caprixosa, Nem o muro importuno prohibira O transito na selva magestosa; Inda o tronco indignado não sentira Do ferro a cortadura injuriosa, Nem do cordão tyranno a fantesia Immolàra a belleza á symetria.