Tal era o quadro que ante o olho amante Do misero Ruy se desdobrava: Parou, e parecia que um instante A amarga dôr no peito se adoçava. Menos pezado e triste no semblante Os olhos pelos cumes alongava; Mas foi curta a impressão, curta a surpreza, Prompto volveu á habitual tristeza.

Qual um instante só brilha o luzeiro Do claro sol no meio da procella; Tal da alegria um raio do guerreiro Um momento sómente o vulto assella. Entranha-se na selva, que primeira No seu transito está frondosa, e bella, Segue da agua o arroio fugitivo Co'a frente baixa, o rosto pensativo.

Assim caminha, quando o pensamento Sente por modo estranho perturbado. Não, não é illusão, um doce accento Sôa no bosque, terno, e magoado, Em vez do som facticio de instrumento Do murmurio do arroio acompanhado, Merencoria harmonia, canto lindo Qual o da rôla seu amor carpindo.

«Oh doce voz! oh canto mavioso! «Ah! que se ella vivêra, assim cantára, «Assim o nosso amor puro, extremoso, «Solitaria, e saudosa lamentára! «Mas, oh noute cruel, fado horroroso! «Nas aguas para sempre a bella, a cara!... Mais não disse, que os olhos se alagaram E os soluços as vozes lhe cortaram.

A VOZ.

«Bosques sombrios, profundos retiros, «Aguas correntes, aves namoradas «Inda uma vez escutai os suspiros, «Da desditosa, entre as mais desgraçadas; «Inda uma vez escutai meu tormento, «Do meu penar e da minha anciedade «Origem foi um puro sentimento, «Morro de amor, expiro de saudade!

«Á dura morte eu por elle arrancada «A gratidão um dever me inspirou, «Vi-o, fallou-me, e d'esta alma encantada «No mesmo instante o dominio usurpou. «Verde floresta, escuta o meu tormento, «Aves, ouvi minha triste anciedade, «Victima sou de um puro sentimento, «Morro de amor, expiro de saudade.

«Elle partiu namorado da gloria, «Elle partiu sem curar do meu fado, «De quem o adóra ah talvez a memoria «Não haverá nem sequer conservado. «Por derradeiro escutai meu tormento, «Por derradeiro ouvi minha anciedade; «Se elle trahiu tão puro sentimento «Mate-me amor, morra eu de saudade.

«Mas se fiel, se constante e amoroso «Quaes os inspira elle sente os amores, «Aves, cantai, e tu, bosque viçoso, «Dá novo brilho a teus gentis verdores; «Mais que a alegria é feliz meu tormento, «Mais que o prazer feliz minha anciedade, «Que é dom do ceo por um tal sentimento «Morrer de amor, expirar de saudade.

Assim cantava a voz melodiosa O canto com suspiros alternando, A saudosa canção, queixa amorosa Iam da selva os echos imitando. A dôr pungente, a angustia que affanosa Iam do moço a vida definhando Mais rapido dissipa o doce accento, Do que a nevoa ligeira aparta o vento.