N'um instante da moura aos pés se lança Ruy, subido ao auge da ventura: «Vida da minha vida, amor, e esperança «Dos dias meus, modello da ternura! «Que alma ingrata poderá ter mudança «Sendo de ti amada, oh Virgem pura?.... «Não, mil mortes soffrêra o teu amante «Primeiro que esquecer-te um só instante.
Dize-lo; as mãos da Virgem commovida Apertar contra os labios abrazados O mesmo é p'ra Ruy, que a queixa ouvida Completa os seus desejos extremados. «Certo do teu amor, Virgem querida, «Quem de Ruy póde igualar os fados?... «Todo o cruel tormento que hei soffrido «Um só accento teu fez esquecido!....
«Sorte propicia, acaso venturoso, «Que o ser me restitue para a ventura, «Que prodigio feliz do ceo piedoso, «Que força superior á da natura, «O pôde produzir?... Desde o horroroso «Momento em que surgiu por desventura «Esse fantasma horrivel, despiedado «Contra mim acintoso, e conjurado:
«Dês que, do odio seu fructo execrando, «Te vi ante meus olhos submergida, «Em vão nas fundas aguas procurando, «Louco de magoa e dôr, salvar-te a vida, «Que o barbaro fantasma, oh crime infando! «Com mais que humana força e desmedida «De ti me arrebatou; que Anjo divino «Protegeu, doce amada, o teu destino?...
«Indelevel lembrança! Instante horrivel «Em que, de quanto amava separado «Pelo monstro a meus rogos insensivel, «Na solitaria margem fui deixado! «Por toda a parte em meu furor terrivel «Em vão o procurei desesperado, «Riu-se o fado de mim, e até est'hora «Roubou-o á minha sanha vingadora.
«Mas se elle existe acaso entre os viventes, «Se um fantasma não é, parto do averno, «Que a perseguir meus passos innocentes «A ira suscitou do negro inferno; «Por essas magoas juro tão pungentes «Que hei soffrido, por meu amor eterno, «Que saciando n'elle a minha furia, «Heide lavar a tua, e minha injuria.
FATIMA.
«Ah suspende! mais não digas! «Sim suspende, oh bem amado, «Illudido, alucinado, «Taes blasfemias não prosigas!
«Esse, que acusas de morte «Só nas aguas me salvou, «Só elle me confortou «Na tyranna, adversa sorte.
«Se ainda conservo a vida, «Se inda me estás contemplando, «Ao Ancião venerando «Minha existencia é devida.