«De Hauzeri o irmão restante «Que affavel me agazalhára, «Que por filha me adoptára «Viu chegado o ultimo instante.
«Solitaria, abandonada, «Sem amigos, sem parentes, «De amor nas chammas ardentes «Por mór tormento abrazada,
«Ignorando se vivia «O só ser que ainda amava, «Se o jurado amor guardava, «Se em outras chammas ardia,
«Succumbi, em vão luctando «Contra tanta desventura, «E aos golpes da sorte dura «Senti a força expirando:
«Nem já o pranto, allivio aos desgraçados, «Os olhos meus vertiam, «Nem já ais, nem suspiros, que exhalados «As penas alliviam, «Soltar podia. Opressos, suffocados «Minha alma consumiam «Em silencio os tormentos, morta a esperança «De poder minha sorte ter mudança.
«Uma noute em que só de horror cercada «Ao pezo de meus males succumbia «De pura luz me vejo rodeada «Igual á que no ceo precede o dia. «De espanto e de terror sobresaltada, «Quando convulso o corpo meu tremia, «No centro do clarão o proprio vejo «Que ás aguas me arrancára lá no Téjo.
«Era o mesmo; porém mais magestoso «Ora de mim se vinha aproximando; «Qual um astro celeste e radioso «Brilhava o seu semblante venerando, «Um aroma suave e precioso «Estavam suas vestes exhalando, «Na mão tinha uma Cruz resplandecente «Co'a imagem do seu Deus n'ella pendente.
«Co'a voz a um tempo grave, meiga, e branda, «Com aspecto sereno, e enternecido, «Disse: Victima triste e miseranda «Até agora de um fado endurecido, «Um Deus Clemente, oh filha, a ti me manda; «Um Deus, a quem um ai, um só gemido «De verdadeira dôr, de penitencia «Move com os peccadores á clemencia.
«Surge da magoa horrivel que te oprime, «Cobra força, renasça o teu alento, «Pela esperança do dom alto e sublime «Com que o ceo quer sarar teu soffrimento. «Fructo innocente de expiado crime «Serás da pena qual da culpa isento, «Em ti meu sangue não será contado «Entre aquelle, que o ceo tem rejeitado!
«Uma filha, ai de mim! eu tive outr'ora, «Como tu a formára a natureza; «Tinha ella então, como tu tens agora, «Esse dote funesto da belleza. «Uma chamma tyranna, abrazadora «Illudiu da sua alma a singelleza, «Ligou-a o nó de amor, e da desgraça «Ao inimigo audaz da propria raça.