«Aos braços de Hauzeri, de amor levada, «Funesto effeito das paixões ardentes, «Cuidando ser feliz, foi desgraçada «Victima das angustias mais pungentes. «O Deus, o Pai, a Patria abandonada «Á misera continuo são presentes, «O roedor remorso, a magoa dura «Lhe foram escavando a sepultura.
«Chegado da infeliz o ultimo instante, «Odios, malquerenças, queixas expiraram, «Paterno pranto, com o do esposa amante «Da morte o leito unidos lhe regaram. «Resignados os olhos seus brilhantes «Pela ultima vez aos ceos se alçaram, «Um suspiro exhalou, cuja piedade «As iras aplacou da Divindade.
«Fructo infeliz de amor, e de fraqueza «Junto à Mãi expirante tu jazias, «Por ti fallava ainda a natureza, «Tu só na terra a alma lhe prendias. «Tomou-te entre seus braços com viveza, «Tu que a trama cortáras de seus dias, «E com a voz, cortada já da morte, «Assim fallou ao Padre e ao Consorte.
«Padre, se ingrata filha, angustia e dores, «Por premio a teu amor só sube dar-te «Neste fructo infeliz de meus ardores «Possas ter quem se empenhe em consolar-te, «E tu, por quem soffri tormento e dores «Sem uma hora se quer cessar de amar-te, «Consente que ella entregue ao pai que imploro «Possa rogar por mim ao Deus que adoro.
«Assim fallou a triste, e resignada «O golpe recebeu da dura morte, «Partiu do erro a alma já purgada «A repartir nos ecos do justo a sorte. «Mas de Hauzeri em vão a prenda amada «Reclamei, em memoria da Consorte; «Arrancar-lha não pude, e separado «Fui desde então p'ra sempre do teu fado.
«Supplicas, pranto, rogos, ameaças «Para salvar-te estereis empregando, «Fui no ermo chorar minhas desgraças «Aos ceos dos ceos a causa confiando, «Continuo sobre ti de Deus as graças «Com penitentes lagrymas chamando. «Até que a Deus tocou minha agonia, «Deus que benigno a salvação te envia.
«Em quanto fallava «A cruz me estendia; «E a dôr que a pungia «Na alma abrandava; «Do Deos que invocava «Tocar-me sentia, «Já menos soffria «Já mais me animava, «E quando acordava «E a mim me volvia «Achava-me o dia «Outra do que estava, «Livre da interna lucta, e na bonança «Começando a antever a luz da esperança.
«A celeste vizão reproduzida «Cada noute a minha alma soccorria, «Cada noute na fé santa instruida, «O santo Avô mais firme me fazia. «A antiga exasperação, o tedio a vida «Em merencoria dôr se convertia, «Dissera-me feliz, se a um sentimento «Conseguisse esquivar meu pensamento.
Assim Fatima ao transportado amante O terno coração patenteava; Ruy de puro goso delirante No gesto a paixão viva retratava; Vivo rubor da Virgem no semblante Da alma os sentimentos debuchava; A selva, as aves, o arroio, as flôres Formando um templo digno a taes amores.