Ficava-lhes da parte, donde o dia Mais refulgente vibra os esplendores, A Arrabida, entre as nevoas, que tingia O sol cadente de purpureas côres, Com o ramo descendente, que estendia Pelos equoreos campos bolidores, Do Téjo e Sado as fozes separando Com o Cabo do Espichel que vai formando.
Não longe, e como filho da montanha, Ficava de Palmella o cume erguido, Ao longe dominando na campanha, Ao perto sobre o valle, enriquecido Pela filha gentil de terra estranha, Que ora alli sobre o ramo seu florido Ostenta a um tempo a flôr, e os pomos de ouro, De perfume e frescura almo thesouro.
Jazem-lhe á dextra as aridas campinas Onde com o vento a loura messe ondeia, Calcareas e basalticas collinas Onde a arvore a vista não recreia, Mais longe as em que a limfa cristalina Hoje em prisão marmorea se encadeia, Roubada aos campos, á verdura, ás flores, P'ra alegrar de Lisboa os moradores.
Em frente se lhe antolha o pico altivo Co'as naturaes collumnas enfeixadas, Columnas que formára o fogo activo Nas epochas remotas e apartadas, Em que inda o touro, o cervo fugitivo Não pasciam nos campos co'as manadas; Mas só nadantes monstros habitavam Mares, que até aos serros se elevavam.
Logo as nuvens rompia mais distante De Monte-junto a molle alevantada, Monte-junto, que a lomba culminante Une a Minde ao nordeste prolongada; As aguas dividindo, que ao levante Vem buscar a planicie, que regada É pelo Téjo, das que ao mar salgado Directas vão correr no opposto lado.
Do sol quasi submerso os derradeiros Raios as eminencias só douravam, Das fontes e dos valles os ligeiros Vapores os contornos desenhavam; Sobre as nevoas os cumes dos outeiros Quaes ilhas sobre o mar se alevantavam, E as aves com a ultima harmonia Davam o extremo adeos ao claro dia.
Na belleza da scena que os rodeia Fatima nem Ruy não attentavam, Amor as faculdades lhe encadeia, Ao delirio de amor se abandonavam. Qual forte olmeiro a branda vide enleia, Tal a bella e mancebo se estreitavam; É elle o seu apoio, o seu sustento, É ella de Ruy só pensamento.
Continúa o silencio dos amantes Nos vivos sentimentos engolfados, Nada sôa nos valles circumstantes Mais que do bruto os passos compassados; Só lá dos valles nos cazaes distantes Ladrar se ouvem os cães, sôar dos gados Monotonos chocalhos tangedores, Com o debil som das gaitas dos pastores.
De um fraco ribeiro, Que a calma escaceia, Que na fralda ondeia Do arido outeiro, Cortava o carreiro O leito escabroso: O solo ondoloso Alli se abatia, E a senda descia Ao váo pedragoso.
Ao pé da torrente, Gosando a frescura, De um chôpo a verdura Ornava a corrente; Da lua nascente A luz estorvando, A sombra alongando Na estreita passagem, Co'a verde folhagem A senda toldando.