O corcel, que excita O bellico amante, Na marcha prestante Um momento hesita; Logo a orelha fita E o trote accelera, Ruy, que o modéra, O fogo percebe Que o bruto concebe Na batalha féra.

Com o braço valente A lança endereça, Preme o bruto, e á préssa Transpõe a corrente. «Cinge estreitamente, «Bella, o teu consorte, «Que seu braço forte, «Por ti animado, «Do mais esforçado «Desafia o córte.»

Fatima obedece, Seu seio palpita.... N'isto uma voz grita A Bella estremece; No grito conhece A aravia expressão, Que no coração O sangue lhe esfria. Fugir quereria; Mas tenta-lo é vão.

Quem vem lá?... Com voz alta e sonorosa Na arabia lingua um mouro perguntava, Brandindo a ferrea lança temerosa O corcel co'as espóras despertava; Com haste igual de sangue sequiosa Outro mouro apoz elle se mostrava: Ruy, que os vê, e em seu valor confia; «Christo e ElRei Affonso:» respondia.

Diz. O ginete arremeça, Salta o bruto ardente e forte, Co'a lançada vôa a morte Do mouro a cotta atravessa. Espadana o sangue infido, De um só golpe a alma vôa, Cahe o mouro, e com o ruido Das armas o valle atrôa.

Torce a redea o Cavalleiro Contra o segundo inimigo; Mas menos forte o guerreiro Encarar não ousa o perigo:

Do ginete á ligeireza Da vida confia o preço, Parte, vôa, e com destreza Vibra a lança de arremeço.

Parte a hastea sibilando, O fado dirige o tiro, Cahe Fatima, e ao golpe infando Responde um longo suspiro.

Ella cahe, ella suspira, No seu seio palpitante Um covarde ferro aspira O sangue da doce amante.

Ruy no peito a sustenta Mudo, louco, exasperado, Nelle o olhar Fatima attenta Quasi da morte apagado.