Para onde estava a chamma sem socêgo.[{409}]

[INDEX.]

Pag.
[PREFAÇÃO] [VII]
[VIDA DE LUIS DE CAMÕES] [XXXII]
[SONETOS.]
Pag.
A chaga que, Senhora, me fizestes [62]
A formosura desta fresca serra [135]
A morte, que da vida nó desata [68]
A peregrinação d'hum pensamento [132]
A perfeição, a graça, o doce geito [46]
A violeta mais bella que amanhece [60]
Á la margen del Tajo, en claro dia [81]
Acho-me da fortuna salteado [132]
Agora toma a espada, agora a penna[[4]] [97]
Ah Fortuna cruel! ah duros Fados [88]
Ah minha Dinamene! assi deixaste [86]
Ai amiga cruel! que apartamento [85]
Alegres campos, verdes arvoredos [21]
Alegres campos, verdes, deleitosos [104]
Alma gentil que á firme eternidade [115]
Alma minha gentil que te partiste [10]
Amor, com a esperança ja perdida [26]
Amor he hum fogo que arde sem se ver [41]
Amor, que em sonhos vãos do pensamento [105]
Amor, que o gesto humano na alma escreve [5]
Aos homens hum só homem poz espanto[{410}] [123]
Apartava-se Nise de Montano [27]
Apollo e as nove Musas, descantando [26]
Aponta a bella Aurora, luz primeira [121]
Aquella fera humana que enriquece [38]
Aquella que de pura castidade [48]
Aquella triste e leda madrugada [13]
Aqui de longos damnos breve historia [92]
Ar, que de meus suspiros vejo cheio [58]
Árvore, cujo pomo bello e brando [69]
Ay! quien dará á mis ojos una fuente [112]
Ayúdame, Señora, á hacer venganza [108]
Bem sei, Amor, que he certo o que receio [40]
Brandas agoas do Tejo que passando[[5]] [55]
Busque Amor novas artes, novo engenho [8]
Ca nesta Babylonia donde mana [98]
Campo! nas syrtes deste mar da vida [85]
Cantando estava hum dia bem seguro [87]
Chara minha inimiga, em cuja mão [12]
Chorai, Nymphas, os fados poderosos [139]
Coitado! que em hum tempo chóro e rio [76]
Com grandes esperanças ja cantei [2]
Como fizeste, ó Porcia, tal ferida? [31]
Como louvarei eu, Seraphim santo [124]
Como podes (oh cego peccador!) [118]
Como quando do mar tempestuoso [41]
Con razon os vais, aguas, fatigando [112]
Contente vivi ja vendo-me isento [125]
Conversação doméstica affeiçoa [44]
Correm turbas as agoas deste rio [98]
Crescei, desejo meu, pois que a Ventura [65]
Criou a natureza Damas bellas [77]
Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste [{411}] [114]
Dai-me h~ua lei, Senhora, de querer-vos [35]
De amor escrevo, de amor trato e vivo [52]
De Babel sôbre os rios nos sentamos [119]
De cá, donde somente o imaginar-vos [59]
De frescas belvederes rodeadas [102]
De mil suspeitas vãas se me levantão [61]
De quantas graças tinha a natureza [66]
De tão divino accento em voz humana[[6]] [32]
De vós me parto, ó vida, e em tal mudança [12]
Debaixo desta pedra está metido [32]
Debaixo desta pedra sepultada [116]
Deixa, Apollo, o correr tão apressado [125]
Desce do ceo, immenso Deos benino [100]
Despois de haver chorado os meus tormentos [101]
Despois de tantos dias mal gastados[[7]] [28]
Despois que quiz Amor que eu só passasse [3]
Despois que vio Cibele o corpo humano[[8]] [96]
Diana prateada esclarecida [141]
Ditosa pena, como a mão que a guia[[9]] [94]
Ditosas almas que ambas juntamente [124]
Ditoso seja aquelle que somente [38]
Diversos dões reparte o ceo benino [72]
Divina companhia que nos prados [81]
Dizei, Senhora, da belleza idea [138]
Doce contentamento ja passado [133]
Doce sonho, suave e soberano [140]
Doces e claras agoas do Mondego [67]
Doces lembranças da passada gloria [{412}] [10]
Dos antigos Illustres que deixárão [44]
Dos ceos á terra desce a mor belleza [100]
Dulces engaños de mis ojos tristes [113]
Em Babylonia sôbre os rios quando [120]
Em flor vos arrancou de então crescida[[10]] [7]
Em formosa Lethea se confia [14]
Em huma lapa toda tenebrosa [128]
Em prisões baixas fui hum tempo atado [3]
Em quanto Phebo os montes accendia [141]
Em quanto quiz fortuna que tivesse [1]
En una selva al dispuntar del dia [83]
Erros meus, má Fortuna, amor ardente [97]
Esfôrço grande, igual ao pensamento[[11]] [45]
Espanta crescer tanto o crocodilo [95]
Esses cabellos louros e escolhidos [53]
Está o lascivo e doce passarinho [16]
Está-se a Primavera trasladando [15]
Este amor que vos tenho limpo e puro [135]
Este terreste caos com seus vapores [64]
Eu cantarei de amor tão docemente [2]
Eu cantei ja, e agora vou chorando [84]
Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo [80]
Eu vivia de lagrimas isento [137]
Ferido sem ter cura parecia [35]
Fiou-se o coração de muito isento [106]
Foi ja n'hum tempo doce cousa amar [43]
Formosa Beatriz, tendes taes geitos [104]
Formosos olhos, que cuidado dais [130]
Formosos olhos, que na idade nossa [20]
Formosura do ceo a nós descida [34]
Gentil Senhora, se a Fortuna imiga [{413}] [72]
Grão tempo ha ja que soube da Ventura [24]
Guardando em mi a sorte o seu direito [86]
He o gozado bem em agoa escrito [66]
Horas breves de meu contentamento [91]
Hum firme coração posto em ventura[[12]] [57]
Hum mover de olhos brando e piedoso [18]
Huma admiravel herva se conhece [65]
Illustre e digno ramo dos Menezes[[13]] [4]
Ilustre Gracia, nombre de una moza [129]
Imagens vãas me imprime a phantasia [116]
Indo o triste pastor todo embebido [138]
Ja a roxa e branca Aurora destoucava [36]
Ja cantei, ja chorei a dura guerra [90]
Ja claro vejo bem, ja bem conheço [58]
Ja do Mondego as agoas apparecem[[14]] [56]
Ja he tempo, ja que minha confiança [25]
Ja me fundei em vãos contentamentos [127]
Ja não sinto, Senhora, os desenganos [136]
Julga-me a gente toda por perdido [76]
Las peñas retumbaban al gemído [83]
Leda serenidade deleitosa [40]
Lembranças de meu bem, doces lembranças [130]
Lembranças, que lembrais o bem passado [89]
Lembranças saudosas, se cuidais [27]
Levantai, minhas Tagides, a frente[[15]] [{414}] [114]
Lindo e subtil trançado que ficaste [22]
Los ojos que con blando movimiento [107]
Mal, que de tempo em tempo vas crescendo [117]
Males que contra mim vos conjurastes [14]
Mi gusto y tu beldad se desposaron [110]
Mil veces entre sueños tu figura [109]
Mil vezes determino não vos ver [62]
Moradoras gentis e delicadas [54]
Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades [29]
Na desesperação ja repousava [71]
Na margem de hum ribeiro que fendia [74]
Na metade do ceo subido ardia [36]
Naiades, vós que os rios habitais [29]
Na ribeira do Euphrates assentado [139]
Não ha louvor que arribe á menor parte [59]
Não passes, caminhante. Quem me chama? [19]
Não vas ao monte, Nise, com teu gado [60]
Nas cidades, nos bosques, nas florestas [126]
Nem o tremendo estrepito da guerra [106]
N'hum bosque que das Nymphas se habitava [11]
N'hum jardim adornado de verdura [7]
N'hum tão alto lugar de tanto preço [142]
No bastaba que amor puro y ardiente [108]
No mundo poucos annos e cansados [51]
No mundo quiz o Tempo que se achasse [45]
No regaço da mãe Amor estava [64]
No tempo que de amor viver sohia [4]
Nos braços de hum Sylvano adormecendo [103]
Novos casos de Amor, novos enganos[[16]] [55]
Nunca em amor damnou o atrevimento [67]
O ceo, a terra, o vento socegado [87]
O culto divinal se celebrava [39]
O cysne quando sente ser chegado [{415}] [22]
O filho de Latona esclarecido [69]
O fogo que na branda cera ardia[[17]] [20]
O raio crystallino se estendia [50]
O claras aguas deste blando rio [109]
Oh arma unicamente só triumphante [122]
Oh cese ya, Señor, tu dura mano [113]
Oh como se me alonga de anno em anno [25]
Oh quanto melhor he o supremo dia [118]
Oh quão caro me custa o entender-te [49]
Oh rigorosa ausencia desejada [111]
Olhos, aonde o ceo com luz mais pura [77]
Ondados fios d'ouro onde enlaçado [105]
Ondados fios d'ouro reluzente [43]
Onde acharei lugar tão apartado [91]
Onde mereci eu tal pensamento [102]
Onde porei meus olhos que não veja [56]
Orfeo enamorado que tañia [84]
Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante[[18]] [95]
Os meus alegres, venturosos dias [90]
Os olhos onde o casto amor ardia [94]
Os Reinos e os Imperios poderosos[[19]] [11]
Os vestidos Eliza revolvia [49]
Para se namorar do que criou [99]
Passo por meus trabalhos tão isento [6]
Pede o desejo, Dama, que vos veja [16]
Pensamentos que agora novamente [47]
Pois meus olhos não cansão de chorar [34]
Pois torna por seu rei e juntamente[[20]] [96]
Por cima destas agoas forte e firme [{416}] [70]
Por gloria tuve un tiempo el ser perdido [82]
Por os raros extremos que mostrou [23]
Por sua nympha Céphalo deixava [92]
Porque a tamanhas penas se offerece [101]
Porque a terra no ceo agasalhasse [121]
Porque quereis, Senhora, que offereça [17]
Posto me tem fortuna em tal estado [143]
Presença bella, angelica figura [70]
Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes [143]
Pues siempre sin cesar, mis ojos tristes[[21]] [131]
Qual tem a borboleta por costume [129]
Quando a suprema dor muito me aperta [74]
Quando da bella vista e doce riso [9]
Quando de minhas mágoas a comprida [37]
Quando o sol encoberto vai mostrando [18]
Quando os olhos emprégo no passado [89]
Quando se vir com agoa o fogo arder [73]
Quando, Senhora, quiz Amor que amasse [137]
Quando vejo que meu destino ordena [28]
Quanta incerta esperança, quanto engano [117]
Quantas penas, Amor, quantos cuidados [142]
Quantas vezes do fuso se esquecia [21]
Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento [88]
Que doudo pensamento he o que sigo[[22]] [57]
Que esperais esperança? Desespéro [78]
Que estilla a árvore sacra? Hum licor santo [122]
Que levas, cruel Morte? Hum claro dia[[23]] [42]
Que me quereis, perpétuas saudades? [111]
Que modo tão subtil da natureza [{417}] [73]
Que pode ja fazer minha ventura [144]
Que poderei do mundo ja querer [47]
Que vençais no Oriente tantos Reis[[24]] [33]
Quem diz que Amor he falso, ou enganoso [103]
Quem fosse acompanhando juntamente [39]
Quem jaz no grão sepulcro, que descreve [30]
Quem póde livre ser, gentil Senhora [31]
Quem pudera julgar de vós, Senhora [53]
Quem quizer ver d'amor huma excellencia [107]
Quem, Senhora, presume de louvar-vos [54]
Quem ve, Senhora, claro e manifesto [9]
Revuelvo en la incesable fantasía [82]
Se a fortuna inquieta e mal olhada [134]
Se algum'hora essa vista mais suave [79]
Se as penas com que Amor tão mal me trata [30]
Se com desprezos, Nympha, te parece [63]
Se como em tudo o mais fostes perfeita [78]
Se da célebre Laura a formosura [52]
Se despois de esperança tão perdida [50]
Se em mim, ó alma, vive mais lembrança [128]
Se lagrimas choradas de verdade [127]
Se me vem tanta gloria só de olhar-te [75]
Se no que tenho dito vos offendo [133]
Se pena por amar-vos se merece [42]
Se quando vos perdi, minha esperança [13]
Se somente hora alguma em vós piedade [24]
Se tanta pena tenho merecida [17]
Se tomo a minha pena em penitencia [48]
Seguia aquelle fogo que o guiava [93]
Sempre a razão vencida foi de amor [75]
Sempre, cruel Senhora, receei [134]
Senhor João Lopes, o meu baixo estado[[25]] [{418}] [68]
Senhora ja desta alma perdoae [140]
Senhora minha, se eu de vós ausente [63]
Sentindo-se alcançada a bella esposa [93]
Sete annos de pastor Jacob servia [15]
Si el fuego que me enciende, consumido [110]
Sôbre os rios do Reino escuro, quando [120]
Suspiros inflammados que cantais [37]
Sustenta meu viver huma esperança [136]
Tal mostra de si dá vossa figura [71]
Tanto de meu estado me acho incerto [5]
Tanto se forão, Nympha, costumando [79]
Tem feito os olhos neste apartamento [131]
Todo animal da calma repousava [8]
Tomava Daliana por vingança [23]
Tomou-me vossa vista soberana [19]
Tornae essa brancura á alva açucena [61]
Transforma-se o amador na cousa amada [6]
Vencido está de amor Meu pensamento [80]
Verdade, Amor, Razão, Merecimento [119]
Vi queixosos de Amor mil namorados [126]
Vós Nymphas da Gangetica espessura[[26]] [115]
Vós outros que buscais repouso certo [99]
Vós, que de olhos suaves e serenos [46]
Vós que escutais em rimas derramado [51]
Vós só podeis, sagrado Evangelista [123]
Vossos olhos, Senhora, que competem [33]
[ECLOGAS.]
Pag.
[A quem darei queixumes namorados][[27]] [201]
[A rustica contenda desusada][[28]][{419}] [212]
[Agora, Alcido, emquanto o nosso gado] [268]
[Agora ja que o Tejo nos rodeia] [279]
[Ao longo do sereno] [160]
[Arde por Galatea branca e loura] [240]
[As doces cantilenas que cantavão][[29]] [222]
[Cantando por hum valle docemente] [189]
[De quanto alento e gôsto me causava] [288]
[Despois que o leve barco ao duro remo] [242]
[Encheo do mar azul a branca praia] [247]
[Parece-me, pastor, se mal não vejo] [252]
[Pascei, minhas ovelhas: eu em quanto] [275]
[Passado ja algum tempo que os amores] [179]
[Que grande variedade vão fazendo][[30]] [145]
[CANÇÕES]
Pag.
[A instabilidade da fortuna] [303]
[A vida ja passei assaz contente] [356]
[Com fôrça desusada] [315]
[Formosa e gentil Dama, quando vejo] [300]
[Ja a roxa manhãa clara] [307]
[Junto d'hum secco, duro e esteril monte] [328]
[Manda-me Amor que cante docemente] [318]
[Manda-me Amor que cante o que a alma sente] [322]
[Nem roxa flor d'Abril] [340]
[Oh pomar venturoso] [343]
[Por meio de humas serras mui fragosas] [352]
[Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura] [349]
[Quem com solido intento] [346]
[Se este meu pensamento] [311]
[Tomei a triste pena] [326]
[Vinde cá, meu tão certo secretario] [332]
[Vão as serenas agoas][{420}] [309]
[ODES.]
Pag.
[A quem darão do Pindo as moradoras] [376]
[Aquelle moço fero] [383]
[Aquelle unico exemplo][[31]] [378]
[Detem hum pouco, Musa, o largo pranto] [360]
[Fogem as neves frias] [380]
[Formosa fera humana] [368]
[Ja a calma nos deixou] [389]
[Naquelle tempo brando] [386]
[Nunca manhãa suave] [371]
[Póde hum desejo immenso] [373]
[Se de meu pensamento] [365]
[Tão suave, tão fresca e tão formosa] [363]
[NOTAS] [395]

[[1]] A ma intelligencia que Faria e Sousa deo a este verso, o fez duvidar se este naufragio foi antes ou depois do desterro, porque diz elle: Deste modo de hablar parece que se infiere que á este naufragio sucedió el destierro; pues dice que á aquella fortuna sucederá el ejecutar-se en él un injusto mandato... Mas los poetas en sus cláusulas suelen mudar los tiempos: y asi aquello de será ejecutado puede estar por fué ejecutado. Y si no es esto, quedaré sin poder averiguarlo. Mas nem he isto por certo, nem de o não ser se segue que ao naufragio succedesse o desterro, antes se confirma que o precedeo; porque ainda os pouco versados na lingua Portugueza não ignorão que o verbo ser tem duas accepções; a de ser e a de estar: e se na significação propria de ser denotaria, neste lugar, o principio da acção, na de estar, em que o tomou o poeta, denota o complemento e termo della. E sendo este uso tão frequente ainda nos melhores prosadores, he para admirar que a um homem tão lido, como Faria e Sousa, podesse causar estranheza ou novidade. Mas nem tudo occorre a todos. E para que não succeda o mesmo a alguns leitores, julgámos conveniente deixar aqui esta advertencia.

[[2]] Os dous irmãos Jesuitas, Luis e Martim Gonçalves da Camara, aquelle confessor, este escrivão da puridade, ou secretario intimo de ElRei, que tyrannizavão o reino, e de longe ião preparando o jugo, que por sessenta annos depois pesou sobre o collo da infeliz nação: aos quaes o Bispo Ozorio, indignado de taes escandalos, dirigio uma carta, onde se lia o seguinte:

"Somente lembro a V. R. e ao Sñr. Martim Gonçalves seu irmão, hajão de sustentar esta grandeza, em que os pôz a fortuna, como o mundo cuida, ou o bem commum como Vossas Mercês dizem; pois nunca vi maior esquecimento, que tratarem-se as cousas como nunca se tratárão, e fazerem a si e a pessoa de um Rei (que naturalmente he amavel) os mais aborrecidos, os mais odiosos que nunca houve, antes e depois de Dom Pedro o Cru; em tanto que a gente em todolos estados e qualidades falla sem medo, e jurão os Portuguezes que tomárão antes ser governados por dous Turcos, que os tratassem com amor e prudencia, que do modo que agora o são: que nenhum mal tamanho póde vir a este Reino, nem a pessoa propria de ElRei (que o nosso Senhor guarde) que não houvessem por grandissima dita, se com isso se houvessem de ver livres do estado em que se vem."

[[3]] Esta Canção e a precedente são feitas ao mesmo assumpto; e em sentença e dicção pouco differem. Quer Faria e Sousa que esta fosse a primeira que o poeta escreveo, e que, desgostoso della, passára a escrever segunda. Mas para nós não he líquido qual fosse a elegida pelo autor, porque, sendo ambas admiraveis, em alguns lugares se vencem uma á outra. E não podemos persuadir-nos que ao remate da ultima Estancia desta:

E porque não cabia dentro nella
De bens tamanhos tanto,
Sahe por a boca convertido em canto

preferisse o poeta o daquell'outra:

Se bem a declarei,
Eu não a escrevo, da alma a trasladei.