[P. 184. V. 20.] Assim me está tornando o peito frio.] Todas as ed. Mas o temor he que produz todos estes effeitos: impedir a voz, tornar a lingua negligente e o peito frio; e desta lição parece entender-se que o peito frio he quem torna a lingua negligente, ou que a lingua negligente torna o peito frio. Esta amphibologia argue vicio de texto. Corrigimos:
Assim me está tornando, e o peito frio.
Este lugar nos fornece mais uma prova incontestavel de que a emenda que fizemos na Estancia 29, Canto IV dos Lusiadas, he a verdadeira e genuina lição do poeta. E não só neste, mas em todos os mais lugares onde o poeta falla do medo, sempre lhe attribue o effeito de esfriar e gelar: como no mesmo ja citado Canto, Estancia 21:
Desta arte a gente força e esforça Nuno,
Que com lh'ouvir as ultimas razões,
Removem o temor frio, importuno
Que gelados lhe tinha os corações.
e no Canto I, Estancia 89:
O temor grande, o sangue lhe resfria.
Sempre disse que fazia parar a circulação do sangue, e que seus effeitos se fazião primeiro sentir no coração, como no Canto V, Estancia 38:
Que poz no coração um grande medo.
O mesmo fazem todos os grandes poetas, e com especialidade Virgilio, como se ve nos seguintes exemplos:
Extemplo Aeneae solvuntur frigore membra.
Eneida L. I, V. 96.[{400}]
Solvite corde metum, Teucri.
ibi V. 566.
Diffugimus visu exangues.
ibi L. 2, V. 212.
At sociis subitâ gelidus formidine sanguis
Diriguit: cecidêre animi.
ibi L. III, V. 259.
Gelidus Teucris per dura cucurrit
Ossa tremor.
ibi L. VI, V. 54.