JUPITER.
Grão desconcêrto tẽe feito
Amphitrião com Alcmena!
Qualquer delles tẽe direito:
Eu sou o que venço o preito,
E ambos págão a pena.
Quero-me ir lá desfazer
Tão trabalhosa demanda,
Por nos tornarmos a ver;
Porque, emfim, quem muito quer
Com qualquer desculpa abranda.
E pois ja que a affeição
Ha de mudar tão asinha,
Quero ir alcançar perdão
Da culpa, que sendo minha,
Parece d'Amphitrião.
ALCMENA.
Parece que torna cá
Amphitrião, que ja se hia:
Não sei a que tornará.
Senão se lhe peza ja
Dos enganos que tecia.
JUPITER.
Senhora, não haja error
Que tantos males me faça, [{358}]
Porque se o contrário for,
Pequeno será o amor,
Que manencória desfaça.
E pois com tanta alegria
De tantos perigos vim,
Pezar-me-ha se achar no fim,
Que huma leve zombaria
Vos possa aggravar de mim.
ALCMENA.
Com palavras de deshonra
Não se ha de tratar quem ama;
Nem zombaria se chama,
Por exprimentar a honra,
Pôr em tal perigo a fama.
Bem tive eu para mim,
Que era aquillo experiencia.
JUPITER.
Errei no que commetti:
Bem me basta a penitencia
De quanto me arrependi.
E se fiz algum error,
Com que vosso amor se mude
De quem vo-lo tẽe maior;
Não exprimentei virtude,
Mas exprimentei amor.
Que se com caso tão vário
Folguei de vos agastar,
Foi amor accrescentar;
Porque ás vezes hum contrário
Faz seu contrário avisar.
Daqui vem, que a leve mágoa [{359}]
Firmeza e affeições augmenta,
Como bem se vê na frágoa,
Onde o fogo se accrescenta,
Borrifando-o com pouca ágoa.
Se hum mal grande se alevanta
N'hum coração que maltrata,
A affeição se desbarata;
Porque onde a ágoa he tanta
O fogo d'amor se mata.
E pois tive tal tenção,
Perdoae, Senhora, a culpa
Deste vosso coração.