—Eu, sr. fr. João!... Sei só que não se póde parar aqui da meia noite em diante!..

—Ah! sabe isso!?... Ja não é pouco! Pois eu lhe digo: cuidei que sabia mais. Acho-o tão roliço e anafado, que vejo que engorda com os sustos.{90}

—O sr. Fr. João gosta de brincar, mas em passando uma noite aqui!...

—Ai, meu Jesus da minha alma! Anjo bento de Nossa Senhora Apparecida!... É da gente botar a fugir, ou de perder o juizo! exclamou a sr.ª Brizida, pondo as mãos.

—Então o sr. Antonio Rodrigues crê que esta noite haverá ensaio geral de Satanaz e da sua côrte, para festejarem a minha chegada?... Muito bem! Cá estamos. Cor contrictum et humiliatum deus nom despiciet! Pelejaremos com as armas espirituaes, que são as melhores, e com as temporaes, que tambem servem em certas occasiões! Mas como vamos de ceia?.. No barco o mau tempo fez-nos jejuar, e sinto-me capaz de tragar um carneiro assado! E o vinho, aquelle bom vinho de 1655, ainda haverá por cá uma gota d'elle? Ha de haver. O sr. Antonio Rodrigues, o melhor copo de Tancos e seus arredores, aposto que não está desprovido de munições de guerra?

Antonio sorriu e coçou a nuca.

—A ceia está ao lume, e não se demora tres credos. Quanto ao vinho.... esteja vossa reverendissima descansado.

—Sempre estive. Diga-me, Brizida, achei muito pallida a sr.ª D. Maria. Ella tem passado peior?...

—Não, sr.! Peior não. Mas, com o susto d'estas noites sem somno, a minha rica menina tem perdido{91} as côres. Ella é tão delicadinha, tão fraca!.. Ó sr. fr. João, a menina não podia ler um nadinha menos, mais o sr. D. Pedro, e respirar mais algum ar em Lisboa?

—Não pode, não senhor!... acudiu o frade em voz de trovão. Meus sobrinhos não se educam para espantalhos de sala!... E vossê é muito atrevida em se metter a dar conselhos aonde a não chamam!...