—Ai doce Jesus do meu coração! Que disse eu para ouvir uma repostada assim?!.. Sabe que mais, sr. fr. João? Não sou moura, nem perra, nem captiva. Pão em toda a parte se come; e se não fosse o amor dos meus meninos, por esta (e beijou os polegares em cruz) que não aturava uma hora mais n'esta casa!

—Está bom, Brizida de Souza, está bom! Não se inflamme. Sabe que a estimo, que todos em casa lhe queremos muito.... mas não me toque n'essa córda. Sei que me acusam de apoquentar os pequenos com os estudos, e que elles não teem uma tosse, uma febrita, de que se não torne logo a culpa aos meus livros!...

—«Vale mais asno vivo, do que doutor morto!» resmungou a velha ainda irada e incorregivel.

—Mas eu é que não quero na minha familia asnos.... vivos, ou mortos, mulher!—bradou o frade fazendo-se côr de purpura e sorvendo duas pitadas com o ruido de um furacão..—Safa! Vossê é capaz{92} de fazer perder a paciencia ao proprio Job!... Bem! Não fallemos mais n'isto, e não faça caso dos meus repentes.... Sabe que não sou tão mau como pareço e que trago sempre no coração os meus dois rapazes...

—Sei! Sei! Por isso digo a todos: o sr. fr. João berra, esbraceja, é um destemperado, mas passa-lhe logo. Cão que ladra não morde. Livre-nos Deus de uns sonsinhos que não quebram um prato, mas que ferram o dente calados....

—Obrigado pelo elogio!... ou antes pela boa intenção. Chame os pequenos. A ceia ha de estar na mesa; e protesto que me atiro a ella como Santiago aos mouros!.. Vamos.

A ceia correu farta e alegre, e Antonio Rodrigues foi homem de palavra, regalando o hospede com algumas garrafas de vinho maduro, que F. João proclamou rival do melhor que se podesse beber á meza de el-rei. As proezas gastronomicas do erudito dominicano tinham assombrado o proprio feitor, cujo estomago insondavel sepultava sem incommodo alimentos de todas as qualidades, e se carregava de quantidades que eram o espanto e maravilha dos que assistiam ás suas repetidas campanhas pantagruelicas. D'esta reputação merecida Antonio Rodrigues viu-se obrigado a arrear bandeiras. O padre mestre não comia, devorava, não bebia, absorvia! Regando de copiosas libações cada iguaria rustica, absolvendo as{93} indigestas com um exorcismo culinario, fazendo desaparecer do prato as menos pesadas com milagrosa rapidez, dir-se-hia que a fome iberica e peninsular, a fome de dentes caninos e apetite insaciavel, tomára a figura corpulenta d'aquelle frade, para realisar em Tancos uma verdadeira razzia. Tudo tem de acabar, porém, e Fr. João, exalando um suspiro, e cruzando as mãos sobre o volumoso ventre, deu a empreza por concluida, murmurando com os olhos meio fechados, e a voz ainda suffocada do esforço: Deus nobis hæc otia fecit!

O reverendo, na meia somnolencia em que se deixou ficar, recostado no espaldar de couro da vasta poltrona, com as faces afogueadas, e o barretinho de seda preta derrubado sobre a orelha esquerda, não offerecia de certo a imagem dos piedosos e extenuados monges, que em epochas de mais fé edificavam os fieis com o exemplo de sua vida frugal e contricta. Parecia mais um hippopotamo encalhado, do que um devoto filho de S. Domingos. Os instinctos animaes prevaleciam, e a fadiga de uma digestão laboriosa fazia arfar aquella machina de mastigação continua. D. Pedro e D. Maria contemplavam o tio com a admiração sincera de creaturas delicadas, que semelhantes excessos não só confundem, mas atterram. Brizida persignava-se e enfiava os burgalhos do seu rozario em oração atribulada, esperando ver desabar de um momento para outro o padre{94} coloçal fulminado por um ataque apopletico. Romão Pires ainda não podera articular palavra, embuxado com a vista da voracidade incrivel do irmão do seu amo. Antonio Rodrigues, cujos olhinhos matreiros semelhavam no brilho duas scentelhas, desfazia a nuca raspando-a desesperadamente com a unha, e dizia comsigo, que o frade, medindo as forças pela alimentação, devia prostrar um touro com um murro, e abrir um tigre em dous, como o faria qualquer mastim faminto ao gato descuidado, que lhe caisse debaixo das prezas.

Deus nobis hæc otia fecit! tornou a repetir Fr. João depois de uma pausa de alguns minutos, recuperando a costumada viveza e agilidade.—Podemos dizer com verdade que ceiamos como uns padres!.. Minha sobrinha! Não gostei de a ver tão triste. Que nuvem pesa sobre esse coração? São receios, ou saudades?!.. Socegue que o hade ver são e escorreito....

—Quem, meu tio? atalhou a donzella distrahida.