—Pois quem hade ser senão aquelle cavalleiro andante que se despedio de nós e que hade voltar um dia d'estes coberto de louros.... Entendeu-me agora?

—Oh, meu tio!... acudio ella fazendo-se vermelha como uma roza.

—Está bom! Está bom! Não digo mais nada.... Romão Pires sabe que os castelhanos tomaram Evora,{95} e que a estas horas hão de estar as mãos com o nosso exercito?.. O que diz vossa sapiencia?.. Quem vence?!..

—Essa é boa, sr. padre mestre! Quem deve vencer! O sr. conde de Villa Flor.

—Deus o ouça! Bom é ter fé!.. Mas!—E a larga fronte do frade enrrugou-se aprehensiva, em quanto os sobrolhos descahiram a ponto de lhe cobrirem quasi as palpebras superiores—Deus super omnia! murmurou.

Seguiram-se alguns instantes de silencio. De repente a porta abriu-se com estrondo, e a longa, a defecada pessoa de Pedro Lavareda entrou impetuosamente pelo aposento, com os olhos espantados, as faces contraidas, e os cabellos ruivos espetados, representando a imagem viva do terror e da consternação.

—Os castelhanos!... Os castelhanos!... Elles ahi vem!...

A esta voz de pavor, e de immenso pavor, todos se acharam de pé, não menos assombrados do que parecia estar o nuncio da nova atterradora.

—Os castelhanos!?.. gritou Fr. João, saltando da cadeira e empunhando machinalmente um bastão enorme, especie de clava, que o acaso lhe mostrou encostado a um canto.

—Os cas... te... lha... nos! gemeu Brizida, faltando-lhe os joelhos e erguendo as mãos.{96}