—Os castelhanos?! exclamou Antonio Rodrigues, arrancando da cinta a longa navalha de ponta e de mola e floreando-a como uma espada, em quanto Romão Pires sacudia da bainha a durindana decrepita e preguiçosa.
D. Maria, branca de cêra e silenciosa, encostou-se á mesa para não cair. D. Pedro, pelo contrario, com o rosto mais animado, os olhos reluzentes, e a fronte levantada, apertou o punho da pequena espada de côrte, e deu alguns passos como se quizesse sair ao encontro do perigo.
—Os castelhanos?! tornou a bradar Fr. João. Ás armas! sr. Antonio Rodrigues chame os criados!... Façamos de Tancos e de Almourol uma segunda Aljubarrota!...
Dizendo isto limpava a testa inundada de suor, e fulo de raiva e de impaciencia batia o pé como o corsel insofrido escarva o chão desejoso de soltar a carreira.
—Mas não seria bom, meu tio, sabermos primeiro o que ha, quem deu a noticia, e aonde estão os inimigos? observou D. Pedro em voz mansa e com extrema serenidade.
—Do manus! Rem acu tetegiste, puer![[4]] gritou o frade sentando-se commovido e ainda tremulo. Façâmos conselho! Sr. Antonio Rodrigues, em primeiro{97} logar: quem é e como se chama este correio de más novas?..
—É meu genro e meu sobrinho. Chama-se Pedro Lavareda.
—Ah! Ah!. Pedro Lavareda!?. Nome incendiario e perigoso em pessoa mais secca do que um cavaco!.. Mas vamos ao que importa. Chegue á falla o sr. Pedro.... Lavareda! Quem lhe deu a má noticia que nos trouxe?...
—Um almocreve do Crato, que saiu de lá a bom fugir!...
—E que disse o almocreve?...