De todas as pessoas de casa da baroneza, a primeira que reparou na indifferença com que Guiomar tratára Estevão, foi Mrs. Oswald. A sagaz ingleza afivellou a mascara mais impassivel que trouxera das ilhas britannicas e não os perdeu de vista. Nem da primeira nem da segunda vez viu nada mais que os olhos delle, que sollicitavam os della, e os della que pareciam surdos. Havia de certo uma paixão, solitaria e desattendida.
—Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ella alguns dias depois a Guiomar.
Guiomar fez um gesto de estranheza.
—Entendamo-nos, observou a ingleza; não digo que a senhora o namore também; digo que é elle quem anda apaixonado. Não adivinha?
—Talvez.
—O Dr. Estevão.
Guiomar fez um gesto de desdem.
—Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; também não era difficil. Quem tem alguma pratica destas cousas fareja uma paixão a cem legoas de distancia, por mais que ella busque recatar-se dos olhos estranhos. Os namorados geralmente suppõem que ninguem os vê; é uma lastima. Olhe, da senhora posso eu jurar que não está namorada de pessoa nenhuma.
—Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de seu guarda vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.
Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ella sabia que a moça tinha orgulho de suas graças; era bom caminho affagar-lhe o sentimento. Disse-lhe muita cousa bonita, que não vem para aqui, e concluiu pondo-lhe as mãos nos hombros, encarando-a fito a fito, a emfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas: