Luiz Alves sacudiu a cabeça e enfiou os olhos pelas folhas rabiscadas de uns autos que tinha diante, e que entrou a folhear vagarosamente. Subito, bateu uma pancadinha, com a mão espalmada sobre os papeis, e levantou a cabeça:

—Ha um meio talvez de saber tudo, disse elle, de saber se ella verdadeiramente te ama, ou... Posso tenta-lo, com uma condição.

—Qual?

—A condição de eliminares as tuas pretenções. Que diabo ganhas tu em nutrir uma paixão sem efficacia nem remedio?

Esta promessa era a mais dura que se podia arrancar de um coração, em que as gerações de esperanças se succediam quasi sem solução de continuidade; fel-a, todavia, Estevão, talvez com a secreta resolução de a trahir.

Luiz Alves ficou só dahi a alguns minutos. As ultimas palavras que disse ao collega foram duas ou tres pilherias de rapaz; mas apenas ficou só tornou-se serio, e inclinando o corpo para a frente, com os braços na secretaria, e a raspar as unhas com um canivete, alli esteve largo tempo, como a reflectir, longe de Estevão, que aliás já não ía perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que pensava elle, se não era em Estevão, nem nos autos, nem tambem, por agora, nas suas esperanças eleitoraes Paciencia, leitor; sabel-o-has daqui a nada. Contenta-te com a noticia de que, ao cabo de vinte minutos daquella abstracção, Luiz Alves volveu a si, proferindo em alta voz esta simples palavra:

—Não ha duvida; é uma ambiciosa.

E descativado daquella preoccupação, enterrou-se de todo na leitura dos autos.


[XII]