—Sim, vou pensar, Excellentissimo. Talvez convenha esperar um ou dous dias, a ver em que param as modas, disse Custodio agradecendo.
Curvou-se, recuou e saiu. Ayres foi á janella para vel-o atravessar a rua. Imaginou que elle levaria da casa do ministro aposentado um lustre particular que faria esquecer por instantes a crise da taboleta. Nem tudo são despezas na vida, e a gloria das relações podia amaciar as agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custodio atravessou a rua, sem parar nem olhar para traz, e enfiou pela confeitaria dentro com todo o seu desespero.
[CAPITULO LXIV]
Paz!
Que, em meio de tão graves successos, Ayres tivesse bastante pausa e claridade para imaginar tal descoberta no visinho, só se póde explicar pela incredulidade com que recebera as noticias. A propria afflicção de Custodio não lhe dera fé. Vira nascer e morrer muito boato falso. Uma de suas maximas é que o homem vive para espalhar a primeira invenção de rua, e que tudo se fará crêr a cem pessoas juntas ou separadas. Só ás duas horas da tarde, quando Santos lhe entrou em casa, acreditou na queda do imperio.
—É verdade, conselheiro, vi descer as tropas pela rua do Ouvidor, ouvi as acclamações á republica. As lojas estão fechadas, os bancos tambem, e o peor é se se não abrem mais, se vamos cair na desordem publica; é uma calamidade.
Ayres quiz aquietar-lhe o coração. Nada se mudaria; o regimen, sim, era possivel, mas tambem se muda de roupa sem trocar de pelle. Commercio é preciso. Os bancos são indispensaveis. No sabbado, ou quando muito na segunda feira, tudo voltaria ao que era na vespera, menos a constituição.
—Não sei, tenho medo, conselheiro.
—Não tenha medo. A baroneza já sabe o que ha?