E depois de alguns instantes:
—Olhe, dou-lhe uma ideia, que póde ser aproveitada, e, se não a achar boa, tenho outra á mão, e será a ultima. Mas eu creio que qualquer dellas serve. Deixe a taboleta pintada como está, e á direita, na ponta, por baixo do titulo, mande escrever estas palayras que explicam o titulo: «Fundada em 1860.» Não foi em 1860 que abriu a casa?
—Foi, respondeu Custodio.
—Pois...
Custodio reflectia. Não se lhe podia ler sim nem não; attonito, a bôca entre-aberta, não olhava para o diplomata, nem para o chão, nem para as paredes ou moveis, mas para o ar. Como Ayres insistisse, elle acordou e confessou que a ideia era boa. Realmente, mantinha o titulo e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura. Entretanto, a outra ideia podia ser egual ou melhor, e quizera comparar as duas.
—A outra ideia não tem a vantagem de pôr a data á fundação da casa, tem só a de definir o titulo, que fica sendo o mesmo, de uma maneira alheia ao regimen. Deixe-lhe estar a palavra imperio e accrescente-lhe em baixo, ao centro, estas duas, que não precisam ser graúdas: das leis. Olhe, assim, concluiu Ayres sentando-se á secretaria, e escrevendo em uma tira de papel o que dizia.
Custodio leu, releu e achou que a ideia era util; sim, não lhe parecia má. Só lhe viu um defeito; sendo as letras de baixo menores, podiam não ser lidas tão depressa e claramente, com as de cima, e estas é que se metteriam pelos olhos ao que passasse. Dahi a que algum politico ou sequer inimigo pessoal não entendesse logo e... A primeira ideia, bem considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo. Quem sabe se não era peor que nada?
—Tudo é peor que nada.
—Procuremos.
Ayres achou outro titulo, o nome da rua, «Confeitaria do Cattete», sem advertir que, havendo outra confeitaria na mesma rua, era attribuir exclusivamente á do Custodio a designação local. Quando o visinho lhe fez tal ponderação, Ayres achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza de sentimentos do homem; mas logo depois descubriu que o que fez falar o Custodio foi a ideia de que esse titulo ficava commum ás duas casas. Muita gente não atinaria com o titulo escripto, e compraria na primeira que lhe ficassse á mão, de maneira que só elle faria as despezas da pintura, e ainda por cima perdia a freguezia. Ao perceber isto, Ayres não admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de tantas tribulações, contava os maus fructos de um equivoco. Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despeza feita e não pôr nada, a não ser que preferisse o seu proprio nome: «Confeitaria do Custodio.» Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o proprio nome do dono, não tinha significação politica ou figuração historica, odio nem amor, nada que chamasse a attenção dos dous regimens, e conseguintemente que puzesse em perigo os seus pasteis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietario e dos empregados. Porque é que não adoptava esse alvitre? Gastava alguma cousa com a troca de uma palavra por outra, Custodio em vez de Imperio, mas as revoluções trazem sempre despezas.