—Mas póde pôr «Confeitaria da Republica...»

—Lembrou-me isso, em caminho, mas tambem me lembrou que, se daqui a um ou dous mezes, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.

—Tem razão... Sente-se.

—Estou bem.

—Sente-se e fume um charuto.

Custudio recusou o charuto, não fumava. Acceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a attenção, se não fosse o atordoamento do espirito. Continuou a implorar o soccorro do visinho. S. Ex., com a grande intelligencia que Deus lhe dera, podia salval-o. Ayres propoz-lhe um meio termo, um titulo que iria com ambas as hypotheses,—«Confeitaria do governo».

—Tanto serve para um regimen como para outro.

—Não digo que não, e, a não ser a despeza perdida... Ha, porém, uma razão contra. V. Ex. sabe que nenhum governo deixa de ter opposição. As opposições, quando descerem á rua, podem implicar commigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a taboleta; entretanto, o que eu procuro é o respeito de todos.

Ayres comprehendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o visinho não queria barulhos á porta, nem malquerenças gratuitas, nem odios de quem quer que fosse; mas, não o affligia menos a despeza que teria de fazer de quando em quando, se não achasse titulo definitivo, popular e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além de perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguem lhe compraria uma taboleta condemnada. Já era muito ter o nome e o titulo no Almanack de Laemmert, onde podia lel-o algum abelhudo e ir com outros, punil-o do que estava impresso desde o principio do anno...

—Isso não, interrompeu Ayres; o senhor não ha de recolher a edição de um almanaque.