Que nos bastam as quatro mãos apertadas. Natividade perguntou pelos filhos. Santos opinou que não tivesse medo. Não havia nada; tudo parecia estar como no dia anterior, as ruas socegadas, as caras mudas. Não correria sangue, o commercio ia continuar. Toda a animação de Ayres tinha agora brotado nele, com a mesma verdura e o mesmo estylo.

Os filhos chegaram tarde, cada um por sua vez, e Pedro mais cedo que Paulo. A melancolia de um ia com a alma da casa, a alegria de outro destoava desta, mas tais eram uma e outra que, apesar da expansão da segunda, não houve repressão nem briga. Ao jantar, falaram pouco. Paulo referia os sucessos amorosamente. Conversara com alguns co-religionarios e soube do que se passára á noite e de manhã, a marcha e a reunião dos batalhões no campo, as palavras de Ouro Preto ao marechal Floriano, a resposta deste, a aclamação da Republica. A familia ouvia e perguntava, não discutia, e esta moderação contrastava com a gloria de Paulo. O silencio de Pedro principalmente era como um desafio. Não sabia Paulo que a propria mãe é que o pedira ao irmão com muitos beijos, motivo que em tal momento, ia com o aperto do coração do rapaz.

O coração de Paulo, ao contrario, era livre, deixava circular o sangue, como a felicidade. Os sentimentos republicanos, em que os principios se incrustavam viviam alli tão fortes e quentes, que mal deixavam ver o abatimento de Pedro e o acanhamento da outra gente sua. Ao fim do jantar, bebeu á Republica, mas calado, sem ostentação, apenas olhando paaa o tecto, e levantando o copo um tantinho mais que de costume. Ninguem replicou por outro gesto ou palavra.

Certamente, o moço Pedro quiz dizer alguma phrase de piedade relativamente ao regimen imperial e ás pessoas de Bragança, mas a mãe quasi que não tirava os olhos delle, como impondo ou pedindo silencio. De mais, elle não cria nada mudado; a despeito de decretos e proclamações, Pedro imaginava que tudo podia ficar como d'antes, alterado apenas o pessoal do governo. Custa pouco, dizia elle baixinho á mãe, ao deixarem a mesa; é só o imperador falar ao Deodoro.

Paulo saiu, logo depois do jantar, promettendo vir cedo. A mãe, receiosa de o ver mettido em barulhos, não queria que elle saisse; mas outro receio fel-a consentir, e este era que os dous irmãos brigassem finalmente. Assim um medo vence a outro, e a gente acaba por dar o que negou. Não é menos certo que ella raciocinou alguns minutos antes de resolver, do mesmo modo que eu escrevi uma pagina antes da que vou escrever agora; mas ambos nós, Natividade e eu, acabamos por deixar que os actos se praticassem, sem opposição della, nem commentario meu.


[CAPITULO LXVI]

O basto e a espadilha

Vieram amigos da casa, trazendo noticias e boatos. Variavam pouco e geralmente não havia opinião segura acerca do resultado. Ninguem sabia se a victoria do movimento era um bem, se um mal, apenas sabiam que era um facto. Dalli a ingenuidade com que alguem propoz o voltarete do costume, e a boa vontade de outros em acceital-o. Santos, embora declarase que não jogava, mandou pôr as cartas e os tentos, mas os outros opinaram que sempre faltava um parceiro, e sem elle, não havia graça. Quiz resistir; não era bonito que no proprio dia em que o regimen caira ou ia cair, entregasse o espirito a recreações de sociedade... Não pensou isto em voz alta nem baixa, mas comsigo, e talvez o leu no rosto da mulher. Acharia um pretexto para resistir, se buscasse algum, mas amigos e cartas não deixavam buscar nada. Santos acabou acceitando. Provalmente era essa mesma a inclinação intima. Muitas ha que precisam ser attrahidas cá fora, como um favor ou concessão da pessoa. Emfim, o basto e a espadilha fizeram naquella noite o seu officio, como as mariposas e as ratos, os ventos e as ondas, o lume das estrellas e o somno dos cidadãos.