[CAPITULO LXVII]

A noite inteira

Saindo de casa, Paulo foi á de um amigo, e os dous entraram a buscar outros da mesma edade e egual intimidade. Fôram aos jornaes, ao quartel do Campo, e passaram algum tempo deante da casa de Deodoro. Gostavam de ver os soldados, a pé ou a cavallo, pediam licença, falavam-lhes, offereciam cigarros. Era a unica concessão destes; nenhum lhes contou o que se passara, nem todos saberiam nada.

Não importa, iam cheios de si. Paulo era o mais enthusiasta e convicto. Aos outros valia só a mocidade, que é utn programma, mas o filho de Santos tinha frescas todas as ideias do novo regimen, e possuia ainda outras que não via acceitar; bater-se-ia por ellas. Trazia até a desejo de achar alguem na rua, que soltasse um grito, já agora sedicioso, para íhe quebrar a cabeça com a bengala. Note-se que esquecera ou perdera a bengala. Não deu por falta della; se désse, bastavam-lhe os braços e as mãos.

Propoz cantarem a Marselheza; os outros não quizeram ir tão longe, não por medo, senão de cançados. Paulo, que resistia mais que elles á fadiga, lembrou-lhes esperar a aurora.

—Vamos esperal-a do alto de um morro, ou da praia do Flamengo; teremos tempo de dormir amanhã.

—Eu não posso, disse um.

Os outros repetiram a recusa, e assentaram de ir para suas casas. Era perto de duas horas. Paulo acompanhou-os a todos, e só depois de ver o ultimo recolhido foi sósinho para Botafogo.

Quando entrou, deu com a mãe que esperava por elle, inquieta e arrependida de o haver deixado sair. Paulo não achou desculpa e censurou a mãe por não dormir, á espera delle. Natividade confessou que não teria somno, antes de o saber em casa são e salvo. Falavam baixo e pouco; tendo-se beijado antes, beijaram-se depois e despediram-se.

—Olha, disse Natividade, se achares Pedro acordado não lhe contes nem lhe perguntes nada; dorme, e amanhã saberemos tudo e o mais que se passar esta noite.