Paulo entrou no quarto pé ante pé. Era ainda aquelle vasto quarto em que os dous gemeos brigaram por causa de duas velhas gravuras, Robespierre e Luiz XVI. Agora, havia mais que os retratos, uma revolução de poucas horas e um governo fresco. Obedecendo ao conselho da mãe, Paulo não quiz saber se Pedro dormia, posto desconfiasse que não. Effectivamente, não. Pedro viu as cautellas de Paulo, e cumpriu tambem os conselhos da mãe; fingiu que não via nada. Até ahi os conselhos; mas um pouco de gloria fez com que Paulo cantarolasse entre os dentes, baixinho, para si, a primeira estrophe da Marselheza que os amigos tinham recusado fóra:
Allons, enfants de la patrie,
Le jour de gloire est arrivé!
Pedro percebeu antes pela toada que pela letra, e concluiu que a intenção do outro era affligil-o. Não era, mas podia ser. Vacillou entre a réplica e o silencio, até que uma ideia fantastica lhe atravessou o cerebro, cantarolar, tambem baixinho, a segunda parte da estrophe: «Entendez-vous dans vos campagnes...», que allude ás tropas estrangeiras, mas desviada do natural sentido historico, para restringil-a ás tropas nacionaes. Era um desforço vago, a ideia passou depressa. Pedro contentou-se de simular a indifferença suprema do somno. Paulo não acabou a estrophe; despiu-se agitado, sem tirar o pensamento da victoria dos seus sonhos politicos. Não se metteu logo na cama; foi primeiro á do irmão, a ver se dormia. Pedro respirava tão naturalmente, como se não perdera nada. Teve impeto de acordal-o, bradar-lhe que perdera tudo, se alguma cousa era a instituição derribada. Recuou a tempo e foi metter-se entre os lençóes.
Nenhum dormia. Emquanto o somno não chegava, iam pensando nos acontecimentos do dia, ambos espantados de como fôram faceis e rapidos. Depois cogitavam no dia seguinte e nos effeitos ulteriores. Não admira que não chegassem á mesma conclusão.
—Como diabo é que elles fizeram isto, sem que ninguem désse pela cousa? reflectia Paulo. Podia ter sido mais turbulento. Conspiração houve, de certo, mas uma barricada não faria mal. Seja como fôr, venceu-se a campanha. O que é preciso é não deixar esfriar o ferro, batel-o sempre, e renoval-o. Deodoro é uma bella figura. Dizem que a entrada do marechal no quartel, e a saida, puxando os batalhões, fôram esplendidas. Talvez faceis de mais; é que o regimen estava pôdre e caiu por si...
Emquanto a cabeça de Paulo ia formulando essas ideias, a de Pedro ia pensando o contrario; chamava ao movimento um crime.
—Um crime e um disparate, além de ingratidão; o imperador devia ter pegado os principaes cabeças e mandal-os executar. Infelizmente, as tropas iam com elles. Mas nem tudo acabou. Isto é fogo de palha; daqui a pouco está apagado, e o que antes era torna a ser. Eu acharei duzentos rapazes bons e promptos, e desfaremos esta caranquejola. A apparencia é que dá um ar de solidez, mas isto é nada. Hão de ver que o imperador não sae daqui, e, ainda que não queira, ha de governar; ou governará a filha, e, na falta della, o neto. Tambem elle ficou menino e governou. Amanhã é tempo; por ora tudo são flores. Ha ainda um punhado de homens...
A reticencia final dos discursos de ambos quer dizer que as ideias se iam tornando esgarçadas, nevoentas e repetidas, até que se perderam e elles dormiram. Durante o somno, cessou a rovolução e a contra-revolução, não houve monarchia nem republica, D. Pedro II nem marechal Deodoro, nada que cheirasse a politica. Um e outro sonharam com a bella enseada de Botafogo, um céu claro, uma tarde clara e uma só pessoa: Flora.