De manhã

Flora abriu os olhos de ambos, e esvaiu-se tão depressa que elles mal puderam ver a harpa do vestido e ouvir uma palavrinha meiga e remota. Olharam um para o outro, sem rancor apparente. O receio de um e a esperança de outro deram tregoas. Correram aos jornaes. Paulo, meio tonto, temia alguma traição sobre a madrugada. Pedro tinha uma ideia vaga de restauração, e contava ler nas folhas um decreto imperial da amnistia. Nem traição nem decreto, A esperança e o receio fugiram deste mundo.


[CAPITULO LXIX]

Ao piano

Emquanto elles sonhavam com Flora, esta não sonhou com a republica. Teve uma daquellas noites em que a imaginação dorme tambem, sem olhos nem ouvjdos, ou, quando muito, a retina não deixa ver claro, e as orelhas confundem o som de um rio com o latir de um cão remoto. Não posso dar melhor definição, nem ella é precisa; cada um de nós terá tido dessas noites mudas e apagadas.

Não sonhou sequer com musica; e, aliás tocára antes algumas das suas paginas queridas. Não as tocou somente por gostar dellas, senão por fugir á consternação dos paes, que era grande. Nenhum d'estes podia crêr que as instituições tivessem caido, outras nascido, tudo mudado. D. Claudia ainda appellava para o dia seguinte e perguntava ao marido se vira bem, e o que é que vira; elle mordia os beições, batia na perna, erguia-se, dava alguns passos, e tornava a narrar os acontecimentos, as noticias colladas ás portas dos jornaes, a prisão dos ministros, a situação, tudo extincto, extincto, extincto...

Flora não era avessa á piedade, nem á esperança, como sabeis; mas não ia com a agitação dos paes, e metteu-se com o seu piano e as suas musicas. Escolheu não sei que sonata. Tanto bastou para lhe tirar o presente. A musica tinha para ella a vantagem de não ser presente, passado ou futuro; era uma cousa fóra do tempo e do espaço, uma idealidade pura. Quando parava, succedia-lhe ouvir alguma phrase solta do pae ou da mãe: «...Mas como foi que...?»—«Tudo ás escondidas...»—«Ha sangue?» Às vezes um delles fazia algum gesto, e ella não via o gesto. O pae, com a alma tropega, falava muito e incoherente. A mãe trazia outro vigor. Já lhe succedia calar por instantes, como se pensasse, ao contrario do marido que, em se calando, coçava a cabeça, apertava as mãos ou suspirava, quando não ameaçava o tecto com o punho.

Lá, lá, dó, ré, sol, ré, ré, lá, ia dizendo o piano da filha, por essas ou por outras notas, mas eram notas que vibravam para fugir aos homens e suas dissensões.

Tambem se póde achar na sonata de Flora uma especie de accordo com a hora presente. Não havia governo definitivo. A alma da moça ia com esse primeiro albor do dia, ou com esse derradeiro crepusculo da tarde,—como queiras,—em que nada é tão claro ou tão escuro que convide a deixar a cama ou accender velas. Quando muito, ia haver um governo provisorio. Flora não entendia de fórmas nem de nomes. A sonata trazia a sensação da falta absoluta de governo, a anarchia da innocencia primitiva naquelle recanto do Paraiso que o homem perdeu por desobediente, e um dia ganhará, quando a perfeição trouxer a ordem eterna e unica. Não haverá então progresso nem regresso, mas estabilidade. O seio de Abrahão agazalhará todas as cousas e pessoas, e a vida será um céu aberto. Era o que as teclas lhe diziam sem palavras, ré, ré, lá, sol, lá, lá, dó...